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                          IEDI na Imprensa - Exportação do Brasil ao resto do mundo compensa perda com tarifaço de Trump

                          Publicado em: 11/11/2025

                          Valor Econômico

                          No agregado, produtos atingidos pela medida de Trump desde agosto aceleram exportação para outros países

                          Marta Watanabe e Álvaro Fagundes

                          O embarque aos EUA no agregado de produtos atingidos pelo tarifaço e nos quais os americanos representam ao menos 5% da exportação brasileira caiu de agosto a outubro deste ano ante iguais meses de 2024, mas aumentou para o resto do mundo. Mais do que isso, o valor total perdido nas vendas ao mercado americano nesse grupo de bens foi superado pelo aumento de receitas de embarques dos mesmos itens para os demais mercados.

                          De agosto a outubro deste ano a venda agregada aos americanos de 1.503 bens não isentos do tarifaço resultou em receita US$ 1,58 bilhão abaixo da auferida em igual trimestre do ano passado. Para o resto do mundo, o mesmo grupo de produtos rendeu US$ 3,1 bilhões a mais de exportações brasileiras, mantida a comparação.

                          A fatia de ao menos 5% das exportações aos americanos considerou os valores embarcados de agosto a outubro de 2024. Esse recorte abarca 96% do valor de todos os produtos atingidos pelo tarifaço e exportados pelo Brasil nesse trimestre.

                          Os números foram levantados pelo Valor com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic). Foi usada a lista de produtos atingidos pelo tarifaço elaborada pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI). A lista inclui não só os produtos atingidos pelo tarifaço de 50% como também pela Seção 232 estabelecida pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em abril deste ano. O tarifaço de 50% (um dos mais altos impostos pelos Estados Unidos) foi anunciado pelo governo Trump no fim de julho.

                          “No agregado, o tarifaço americano não é uma hecatombe. Não há perda do ponto de vista macroeconômico, embora a sinalização das medidas americanas seja ruim”, diz Rafael Cagnin, economista-chefe do IEDI.

                          “Os dados mostram capacidade de redirecionamento bem grande dentro da exportação dos produtos atingidos. O agregado reflete mais os produtos com maior peso, parte importante deles relacionada a atividades de início de cadeia produtiva e que dependem menos dos Estados Unidos.” Isso, porém, pondera o economista, não tira o problema de alguns produtos e setores, principalmente dos mais expostos ao mercado americano.

                          Os dados mostram comportamento heterogêneo entre os produtos embarcados. Do total de 1.503 itens, 364 - 24,2% - tiveram aumento no valor exportado aos EUA no trimestre até outubro na comparação com os mesmos meses do ano passado. Portanto, não foram afetados no período.

                          No agregado, o tarifaço americano não é uma hecatombe”

                          Dos demais 1.139 itens nos quais houve queda nos embarques aos EUA, em 463 a receita de exportação também caiu ou ficou igual nos demais destinos. Ou seja, em 30% dos produtos analisados houve perda nas vendas aos americanos, sem qualquer compensação em outros mercados.

                          Nos demais 676 produtos, houve receita crescimento de valor de exportação ao resto do mundo em relação ao trimestre encerrado em outubro de 2024, mas em 261 deles o valor embarcado a mais foi menor que a perda com a queda de vendas aos EUA. Ou seja, em 17,4% do universo levantado, a compensação foi apenas parcial. Nos demais 415 itens - fatia de 27,6% dos itens analisados -, o valor destinado ao resto do mundo superou a perda com a queda de embarques ao mercado americano.

                          A exportação de bens não isentos do tarifaço somou, no agregado, US$ 3,76 bilhões de agosto a outubro de 2025, ante os US$ 5,3 bilhões de iguais meses do ano passado. Para o resto do mundo o mesmo grupo de produtos rendeu total US$ 18,2 bilhões em exportações brasileiras em 2025, com alta de 20% ante os US$ 15,2 bilhões do ano passado, no mesmo período, sempre considerando os produtos em que o mercado americano teve ao menos 5% do total da exportação brasileira.

                          O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com Trump no fim de outubro na Malásia na expectativa de negociar um impacto menor do tarifaço americano nos produtos brasileiros.

                          A exportação brasileira total aos EUA, incluindo isentos ou não isentos, caiu nos últimos três meses. Segundo a Secex, em agosto, mês em que o tarifaço passou a valer, a queda foi de 16,5%, seguida por 20,3% no mês seguinte. Em outubro a queda se aprofundou para 37,9%, sempre ante igual mês de 2024. No trimestre até outubro a exportação total aos americanos caiu 24,9%. O embarque dos atingidos pelo tarifaço caiu em ritmo maior, de 29,6%. Com isso, a fatia dos atingidos pela política tarifária de Trump considerados no levantamento encolheu de 52,3% em 2024 para 49,1% em 2025 na exportação brasileira total aos EUA, de agosto a outubro.

                          Para Lia Valls, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), os dados mostram que a capacidade do Brasil de redirecionar produtos importantes da pauta aos EUA tem permitido elevar as exportações agregadas.

                          “Isso não significa, porém, que a negociação com os EUA não seja extremamente importante. O mercado americano continua relevante, embora o efeito do tarifaço, talvez, seja menor do que se esperava. Isso dá estofo maior para o Brasil na negociação.”

                          Num exercício com os 50 maiores produtos exportados aos americanos em 2024, dentre os atingidos, Cagnin alerta que 23 - ou 46% - não conseguiram compensar a perda aos EUA no trimestre encerrado em 2025 ante os valores de igual momento do ano passado.

                          “A competitividade do Brasil em produtos de início de cadeia consegue contornar a situação mais facilmente. Mas aqueles que possuem um grau de processamento maior e que por isso estão mais expostos às deficiências de competitividade do nosso ambiente econômico têm mais dificuldade de fazer esse processo de caminhar. Mas é sempre importante fazer a ponderação que há outros fatores envolvendo, como questões específicas de cada produto.” Existem itens, diz, que enfrentam um crescimento global limitado, o que dificulta também o redirecionamento.

                          Os dados mostram que o jogo de ganhos e perdas de receita de exportação é bem diferente entre os produtos. Dentre os produtos atingidos pela política tarifária de Trump, o item de maior exportação aos EUA são os semimanufaturados de ferro e aço, que somaram US$ 491,3 milhões em exportação ao mercado americano, com queda de 16,4% contra 2024. Para o resto do mundo, houve alta de 27,2%, sempre de agosto a outubro. A exportação brasileira do produto, porém, é altamente dependente do mercado americano, que absorveu 65,7% do que o Brasil embarcou no trimestre encerrado em outubro. Por isso, nesse item específico, o aumento nas vendas aos demais mercados rendeu US$ 54,9 milhões a mais em receitas, o que não foi suficiente para compensar a perda de US$ 96,1 milhões aos EUA.

                          Na exportação brasileira de café, porém, o quadro foi outro. Os embarques para o mercado americano caíram 16,7% e para o resto do mundo subiram 14,5%. A perda de receita na venda aos EUA foi de US$ 71,2 milhões. O aumento de embarques ao resto do mundo foi de US$ 409,4 milhões. A baixa dependência do mercado americano, atualmente de 9,9% - era de 13,1% em 2024 -, ajuda a explicar isso.

                          Com dinâmica muito parecida está a carne bovina congelada, cujas exportações aos EUA caíram 60,5%, mas subiram 64,3% aos demais mercados do mundo. A perda com os americanos foi de US$ 165,2 milhões, mas a receita adicional aos outros destinos foi de US$ 1,7 bilhão. A participação americano no produto caiu drasticamente, de 9,3% em 2024 para 2,4% neste ano, sempre no trimestre até outubro.

                          André Valério, economista do Inter, destaca que as vendas de carnes ao México se ampliaram com o tarifaço americano. A exportação de carne desossada aos EUA, incluindo resfriadas e congeladas, somaram US$ 137,9 milhões de agosto a outubro deste ano, 53,7% a menos que em igual período de 2024. Para o México foram US$ 204,8 milhões, com alta de 174,3%. Para a China, primeiro destino da carne brasileira, a venda subiu 66,3%, mas sobre uma base maior, com total de US$ 2,98 bilhões neste ano, nos mesmos três meses. Em igual período os embarques de carnes bovinas para Chile, Filipinas e Rússia aumentaram, com altas de 47%, 36,3% e 67,8%, nessa ordem. Todos os cinco países absorveram valor maior em carnes bovinas brasileiras que os EUA de agosto a outubro deste ano.

                          Alguns produtos, porém, ressalta Valério, não foram absorvidos por outros mercados - casos de alguns tipos de madeiras, assim como armamentos, por exemplo.

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