IEDI na Imprensa - Indústria do Brasil despenca em ranking da produção global
Valor Econômico
Para 2026, a projeção da Tendências Consultoria é de crescimento de 0,3% da indústria de transformação brasileira
Lucianne Carneiro
Em um ano em que a indústria ficou praticamente sem ganhos, o Brasil retomou um padrão de desempenho que coloca sua produção nas últimas posições em uma comparação internacional com 83 países. O país caiu do 24º lugar em um ranking de ritmo de expansão da atividade industrial em 2024 para 64º lugar em 2025. É a pior posição desde 2022, quando ficou em 71º lugar.
O levantamento é do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), produzido a partir de dados da Unido (United Nations Industrial Development Organization, agência da ONU para promoção do desenvolvimento industrial) e antecipado ao Valor.
Quando se considera apenas o quarto trimestre, o Brasil estava no 28º lugar da lista em 2024 e recuou para a 72ª posição em 2025. Nesta comparação trimestral, o Brasil passou de uma alta de 3,9% no fim de 2024 para uma queda de 1,8% no fim de 2025.
O elevado patamar de juros no país foi o principal motivo para a queda da posição brasileira no ranking, segundo o IEDI. Apesar do início do afrouxamento monetário, as perspectivas para a indústria ainda se mostram cautelosas, especialmente com o agravamento da incerteza global após o início da guerra no Oriente Médio, apontam especialistas. As dificuldades estruturais da indústria brasileira permanecem e fatores que podem favorecer a atividade - como a reforma tributária e o acordo entre o Mercosul e a União Europeia - são de horizonte mais longo.
“O ano de 2024 foi bem positivo, mas em 2025 o Brasil retomou seu padrão adverso, de estar tradicionalmente na metade inferior do ranking. Ao longo de 2025, o juro foi corroendo todas as bases do dinamismo industrial e o Brasil voltou para a lanterninha”, afirma o diretor-executivo do IEDI, Rafael Cagnin, responsável pelo estudo.
A produção da indústria de transformação global cresceu 3,9% em 2025, ante 2,1% em 2024, pelos dados da Unido. Em contraponto, a produção brasileira teve variação de 0,1% no ano passado, frente a 3,2% em 2024. As taxas para o Brasil são diferentes daquelas observadas na Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por causa da metodologia do ajustamento sazonal. Pela pesquisa do IBGE, a indústria de transformação brasileira caiu 0,2% em 2025, após aumento de 3,7% em 2024.
Nos últimos seis anos, o Brasil só ficou na metade superior do ranking de 83 países em 2020 (43ª posição) e em 2024 (24º lugar). No ano passado, a variação da produção industrial brasileira (0,1%) ficou atrás da observada na China (6,6%), na Rússia (4,2%), no Chile (2,4%), na Argentina (1,6%) e nos Estados Unidos (1,1%). O ritmo, no entanto, foi superior ao de México (-0,4%), Alemanha (-1,2%) e África do Sul (-1,3%), entre outras economias.
“O ano de 2024 foi mais um ponto fora da curva [da trajetória da indústria brasileira] que o início de uma recuperação mais robusta”, diz João Leme, economista da Tendências Consultoria.
O patamar elevado de juros afeta negativamente a indústria por dois canais principais, como explica Cagnin: o custo maior do financiamento para bens duráveis e de capital e a competição com alternativas de investimento que rendem mais e com menos riscos. “Quem vai investir se o dinheiro pode render mais e sem risco? Projetos são engavetados”, diz.
Para 2026, a projeção da Tendências Consultoria é de crescimento de 0,3% da indústria de transformação brasileira, ao lado de um aumento de 0,8% da indústria geral, puxado pelo setor extrativo (3,6%).
“A indústria vai continuar a sofrer com o juro por dois caminhos. O juro atrapalha o custo do investimento, especialmente os de maior valor. Os dados também mostram a expansão do endividamento das famílias. Nessas circunstâncias, a indústria acaba sendo ‘um patinho feio’ da atividade econômica”, diz João Leme.
Na visão dele, o acordo entre União Europeia e Mercosul e a reforma tributária são fatores que podem contribuir positivamente para a indústria brasileira. “A indústria não é um setor que está fadado ao fracasso. Há oportunidades interessantes, mas são de mais longo prazo e por enquanto são oportunidades, não necessariamente vão se traduzir em ótimos anos para a indústria.”
Apesar de o desempenho do Brasil ter sido destaque negativo, a indústria também sofreu reveses em outros locais, especialmente na América do Norte. No quarto trimestre de 2025, a produção mundial da indústria cresceu 0,5%, enquanto houve recuo de 0,6% na América do Norte e de 0,3% na América Latina.
“A política protecionista e errática de Trump atrapalhou principalmente no fim do ano. No começo de 2025, houve certa antecipação e blindagem dos resultados, mas aos poucos os efeitos apareceram, com uma desorganização das cadeias de produção”, afirma.
