IEDI na Imprensa - Juros altos e custo maior com mão de obra afetaram desempenho da indústria no PIB, dizem economistas do setor
Valor Econômico
Rafael Vazquez
A política monetária restritiva, com a taxa básica de juros atualmente em 15%, é apontada por economistas da indústria como o principal fator para a queda da indústria de transformação em 2025, segundo dados do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre revelados nesta terç-afeira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas não é o único. Economistas também apontam um efeito de custos com mão de obra ocasionado pelo mercado de trabalho aquecido e, em menor grau, o tarifaço do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre as exportações brasileiras.
Embora a indústria total tenha crescido 1,4% em 2025, o resultado foi puxado pela indústria extrativa que cresceu 8,6% no ano, enquanto a indústria de transformação recuou 0,2% no acumulado do ano. A construção terminou 2025 com crescimento de 0,5%, mas teve uma queda brusca de 2,9% no último trimestre em relação ao trimestre imediatamente anterior.
“Não surpreende, afinal é o que a política monetária tem buscado com os juros no patamar atual. Com a Selic em 15%, o investimento é uma das coisas que mais sentem e a indústria de transformação, por ser produtora de máquinas e equipamentos, é o setor que mais sente, assim como a construção que também é muito sensível ao custo do financiamento”, explica o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Rafael Cagnin.
O economista do IEDI destaca que o segundo semestre de 2025 foi o pior para a indústria de transformação desde a pandemia de covid-19 e chama a atenção para a estagnação do consumo das famílias por dois trimestres seguidos, algo que também não acontecia desde 2020.
“Olhar para o semestre dá esse quadro de importante desaceleração, ou seja, a taxa de juros está funcionando naquilo que ela consegue impactar mesmo, que é no comércio e na produção de bens. Desde o último semestre de 2020, na pandemia, que teve uma queda de não tinha um semestre tão fraco desse jeito”, destaca Cagnin.
O especialista do IEDI observa que as tarifas impostas pelos EUA contra produtos exportados pelo Brasil ao país também contribuíram negativamente, mas de forma bem localizada em algumas empresas e não se compara ao impacto que a taxa de juros está exercendo sobre a atividade da indústria de transformação. “Claro que há outros fatores. Mas, para a indústria, os juros são vitais”, diz.
O economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), João Gabriel Pio, também sinaliza o impacto da taxa de juros sobre o setor e soma ao cenário desafiador o aumento de custos com mão de obra no momento atual de mercado de trabalho aquecido, o que consequentemente eleva os custos de produção e também inibe a atividade.
“Quando a gente olha, por um lado, uma demanda agregada muito forte e um crescimento do PIB, em média, perto de 3% nos últimos anos, junto com um mercado de trabalho muito aquecido, vemos uma pressão nos custos de produção da indústria”, diz Pio. “O custo unitário do trabalho, cresceu 22,9% no período de janeiro de 2022 até dezembro de 2025, enquanto a produtividade do trabalho caiu 3,7%. Isso tem estrangulado a margem da indústria de transformação.”
Para o economista-chefe da Fiemg, esse cenário explica a falta de dinamismo e de atividade econômica da indústria de transformação em 2025 e mantém um certo pessimismo para 2026.
“Provavelmente vamos atualizar as nossas estimativas para 2026 em direção a um desempenho ainda mais modesto da indústria total, que deve crescer perto de 1,3% novamente sustentada pela indústria extrativa, enquanto a indústria de transformação, inclusive a indústria mineira, deve continua enfrentando uma desaceleração da economia e uma taxa de juros restritiva”, afirma Pio.
