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                          IEDI na Imprensa - O conhecimento e o seu poder transformador

                          Publicado em: 10/02/2026

                          O Estado de São Paulo

                          A grande transformação da economia chinesa nas últimas décadas é fruto do trabalho de pesquisa nas principais universidades do país

                          Jorge J. Okubaro

                          Não surpreenderia se, em algum momento, a norte-americana Harvard e a britânica Oxford, duas das mais renomadas universidades do mundo, fossem igualadas ou superadas em termos de prestígio, produção acadêmica, qualidade de ensino ou por outro critério de avaliação. O que surpreende em recentes classificações internacionais é a avassaladora presença de instituições chinesas na lista das melhores. Em algumas classificações, das dez mais importantes universidades do mundo, as chinesas ocupam oito posições, inclusive as primeiras. Numa delas, mostrada em matéria do The New York Times publicada pelo Estadão na semana passada (O avanço das universidades chinesas, 3/2/26, C6 e C7), Harvard aparece na terceira posição; Oxford ficou fora da lista. A primeira é a Universidade de Zhejiang; há duas décadas, ela aparecia só na 25.ª posição.

                          É possível criticar algumas dessas listas e compará-las com outras, nas quais universidades dos Estados Unidos e de outros países ocidentais continuam a ocupar posições destacadas e uma ou outra chinesa é incluída entre as melhores. Também se pode argumentar que, no que se refere a artigos publicados em revistas especializadas e citações por outros autores, pode haver alguma distorção, com referências recíprocas intensas entre acadêmicos chineses. Mas o fato é que o ensino superior chinês passou por profundas transformações nos últimos anos. Nem se pode falar que as grandes universidades ocidentais deixaram de produzir conhecimento ou produzem menos. Elas continuam muito ativas e produzindo mais pesquisas e artigos do que antes, mas a velocidade de expansão da produção nas universidades chinesas foi muito maior nos últimos anos e continua sendo.

                          O impacto desse fenômeno notável é igualmente notável.

                          A grande transformação da economia chinesa nas últimas décadas foi baseada na ciência, na tecnologia e na inovação, fruto do trabalho de pesquisa nas principais universidades do país. “Diferentemente de outras potências, a China orientou a maior parte (85%) de seus gastos governamentais com pesquisa e desenvolvimento para atividades de desenvolvimento experimental relacionado à fabricação e produção, em vez de pesquisa básica ou pesquisa aplicada”, resumiu o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), em estudo sobre inovação e desenvolvimento na China publicado em junho de 2025. “Transferir os motores da inovação de organizações públicas de pesquisa para setores industriais, empregar os investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento para ensejar a capacidade de inovação dos setores industriais e melhorar a comercialização de resultados das pesquisas básicas e aplicadas são objetivos considerados há muito tempo na China.”

                          Embora pareça óbvia, a integração entre geração de conhecimento e seu emprego para a melhoria do processo produtivo e das condições de vida da população nem sempre é alcançada de maneira eficaz. No caso brasileiro, o tema foi tratado em artigo anterior nesta página (Conhecimento para quê?, 27/1/26). Quando essa integração se dá de maneira fluida, como ocorreu na China, seu impacto pode ser espetacular.

                          Em artigo publicado no Jornal da USP há algum tempo, o professor do Instituto de Física de São Carlos, Osvaldo Novais de Oliveira Jr. lembrou que, no início da década de 1990, a produção científica da China era, em termos numéricos, semelhante à do Brasil, e havia pouca tecnologia produzida localmente. Mas o governo chinês, aproveitando a base de uma educação pré-universitária de qualidade, impulsionou a produção científica de qualidade em suas universidades. “A capacidade de gerar conhecimento consolidado em publicações científicas foi complementada com a geração de inovações tecnológicas”, segundo Novais de Oliveira. Ele lembra que esforço semelhante, com resultados comparáveis, foi feito pelo Japão logo após o fim da 2.ª Guerra Mundial, o que propiciou “qualidade de vida à sua população e o domínio de algumas áreas tecnológicas, como a automobilística e a eletrônica”. A Coreia do Sul pode se transformar no novo exemplo.

                          Ao contrário do que faz o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que cortou verbas públicas para as principais universidades americanas, em especial para Harvard – o que pode prejudicar ainda mais seu desempenho no cenário internacional –, países como o Brasil precisam fortalecer políticas públicas que estimulem a geração de conhecimentos. Mas é preciso também que o setor produtivo, e a indústria em particular, se valham dos conhecimentos gerados nos centros de pesquisa científica. Para isso, porém, como advertiu o sociólogo e especialista em desenvolvimento econômico e relações do trabalho José Pastore em conversa com o autor, a indústria precisa renunciar ao protecionismo de que sempre gozou e que, embora confortável financeiramente, a levou à estagnação e ao atraso tecnológico.

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