Carta IEDI
Indústria estável na entrada do semestre
Mesmo sucedendo dois meses consecutivos de declínio, a produção industrial brasileira deu início ao segundo semestre de 2026 com uma variação muito próxima da mera estabilidade: +0,2% em jul/26, já descontados os efeitos sazonais. Ou seja, a recente base de comparação pouco ajudou uma reação do agregado do setor em julho.
Em comparação com um ano atrás, a virada do semestre interrompeu uma série de quatro meses de crescimento ao registrar -0,5% ante jul/25, isto é, bem aquém do dinamismo indicado nos dois primeiros trimestres do ano (+1,4% e +1,5%, respectivamente).
O macrossetor de bens de capital segue sendo o mais prejudicado pelo quadro atual de taxas de juros elevadas e fragilização financeira das empresas. Dos 7 meses já cobertos pelas estatísticas do IBGE, 6 apresentaram queda na comparação com o ano passado. Apesar disso, o resultado mais de curto prazo sinalizou reação conjuntural (+2,4% em jul26/jun26 com ajuste sazonal).
O desempenho acumulado de janeiro a julho ilustra bem esta mudança de direção. No ano passado, quando já estava em desaceleração, a produção de bens de capital ainda crescia +0,3% no período, enquanto agora em jan-jul/26 há declínio de -4,9%, o pior resultado entre os macrossetores industriais.
Interessante notar que para a indústria como um todo, o resultado do agregado dos sete primeiros meses de 2025 e de 2026 é o mesmo, mas sua composição é bastante diferente. Ao lado da retração em bens de capital está a desaceleração de bens de consumo duráveis entre aqueles que se saíram pior no período.
A alta de +6,1% em jan-jul/25 deu lugar a +1,9% em jan-jul/26 em bens de consumo duráveis, devido à perda de fôlego na produção de eletrodomésticos, sobretudo da linha marrom (TV, som etc.), e na produção de móveis e também de outros equipamentos de transporte.
A trajetória de mais curto prazo, por sua vez, mostra forte oscilação para bens de consumo duráveis, em que as altas em geral só anulam as quedas. Agora em jul/26 houve expansão de +3,2%, já descontados os efeitos sazonais, ante -3,1% em jun/26.
Bens intermediários se destacam por apresentar relativa resiliência, pelo menos por enquanto. O crescimento de +1,8% em jan-jul/26 até significa desaceleração ante os +2,2% de jan-jul/25, mas não é intensa e é o único macrossetor a registrar sinal positivo em todos os oito meses já cobertos pelo IBGE na comparação interanual. Não podem ser ignoradas, contudo, a variação de apenas +0,3% em jul26/jul25 e a queda de -0,2% em jul26/jun26 com ajuste sazonal.
Por fim, a produção de bens de consumo semi e não duráveis, que captura inclusive atividades em início de cadeia de processamento de commodities agropecuárias, ganhou tração, passando de -2,3% em jan-jul/25 para +0,6% em jan-jul/26. Os destaques positivos ficaram a cargo principalmente de combustíveis e farmacêutica, mas também incluem bebidas e carnes de suínos e aves.
Resultados da Indústria
Em jul/26, a produção industrial brasileira registrou variação positiva de +0,2% frente ao índice de jun/26 na série com ajuste sazonal, interrompendo dois meses consecutivos de taxas negativas, período em que acumulou perda de -2,6%.
No confronto com jul/25, o total da indústria assinalou recuo de -0,5%, interrompendo a sequência de quatro meses de resultados positivos: junho (+1,7%), maio (+0,2%), abril (+2,7%) e março de 2026 (+4,4%). Com isso, o resultado do setor industrial ficou positivo do acumulado dos primeiros sete meses do ano (+1,1%).
Por sua vez, a taxa anualizada, indicador acumulado nos últimos doze meses, avançou +0,6% em jul/26, permanecendo em terreno positivo e registrando ritmo similar ao índice do mês anterior (+0,7%).
A variação de +0,2% da produção industrial na passagem de jun/26 para jul/26 na série com ajuste sazonal foi impulsionada pelos resultados positivos em quase todos os quatro macrossetores. Bens de consumo duráveis (+3,2%) e bens de capital (+2,4%) registraram os avanços mais elevados do mês, seguidos por bens de consumo semi e não duráveis (+0,5%). Por outro lado, o segmento de bens intermediários (-0,2%) assinalou o único resultado negativo.
Na comparação mês/mesmo mês do ano anterior, o decréscimo de -0,5% da indústria total em jul/26 foi puxado por dois dos quatro macrossetores: bens de consumo semi e não duráveis (-2,9%) e bens de capital (-2,4%). Por outro lado, os setores produtores de bens intermediários (+0,3%) e de bens de consumo duráveis (+4,6%) registraram as taxas positivas neste mês.
O setor de bens de consumo semi e não duráveis, teve queda de -2,9% em jul/26 frente a igual mês do ano anterior, perda mais acentuada desde ago/25 (-4,8%). O resultado negativo foi explicado pelos recuos assinalados nos grupamentos de semiduráveis (-7,3%), de não duráveis (-4,6%), carburantes (-3,0%), alimentos e bebidas elaborados para consumo doméstico (-0,4%) e alimentos e bebidas básicos para consumo doméstico (-35,9%), principalmente.
A produção de bens de capital recuou -2,4% no índice interanual, sendo a quarta taxa negativa consecutiva neste tipo de comparação: junho (-1,8%), maio (-6,6%) e abril (-4,9%) de 2026. O Macrossetor segmento foi influenciado, principalmente, pelas perdas observadas nos grupamentos de bens de capital agrícolas (-31,6%) e de uso misto (-7,6%). Por outro lado, os subsetores de bens de capital para equipamentos de transporte (+4,1%), para construção (+9,8%), para energia elétrica (+2,5%) e para fins industriais (+0,4%) assinalaram os impactos positivos de jul/26.
Ainda no confronto com igual mês do ano anterior, os bens intermediários assinalaram crescimento de +0,3% em jul/26, sétima taxa positiva consecutiva neste tipo de comparação. O resultado deste mês foi explicado pelos avanços nos produtos associados às atividades de veículos automotores, reboques e carrocerias (+10,7%), indústrias extrativas (+2,5%), coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+3,0%), produtos de minerais não metálicos (+3,7%), metalurgia (+2,4%) e produtos de metal (+0,7%). Por outro lado, as pressões negativas foram registradas por produtos químicos (-9,4%), produtos alimentícios (-3,6%), produtos têxteis (-6,2%), produtos de borracha e de material plástico (-2,4%), máquinas e equipamentos (-1,3%) e celulose, papel e produtos de papel (-0,3%).
O macrossetor produtor de bens de consumo duráveis mostrou expansão de +4,6%, a terceira taxa positiva consecutiva: junho (+5,5%) e maio (+1,6%) de 2026. O setor foi impulsionado pela maior fabricação de automóveis (+3,6%), de eletrodomésticos da “linha branca” (+14,8%), de motocicletas (+32,0%), de outros eletrodomésticos (+39,2%) e de eletrodomésticos da “linha marrom” (+2,5%). Por outro lado, o principal impacto negativo foi registrado pelo grupamento de móveis (-3,1%).
No índice acumulado para jan-jul/26, frente a igual período do ano anterior, o setor industrial assinalou avanço de +1,1%, com resultados positivos em três das quatro grandes categorias econômicas: bens de consumo duráveis (+1,9%), bens intermediários (+1,8%) e bens de consumo semi e não duráveis (+0,6%). Por outro lado, o setor produtor de bens de capital (-4,9%) assinalou a única taxa negativa no indicador acumulado do período jan-jul/26, pressionado pela menor fabricação de bens de capital agrícolas (-20,7%), de uso misto (-15,6%) e para fins industriais (-2,4%).
Por dentro da Indústria de Transformação
A produção do total da indústria brasileira assinalou acréscimo de +0,2% em jul/26 frente a jun/26 na série livre dos efeitos sazonais. Neste mês, a indústria de transformação cresceu +0,5% nesta comparação, enquanto a produção da indústria extrativa recuou -1,0%.
Na comparação com jul/25, o resultado de -0,5% da indústria geral foi puxada positivamente pela indústria extrativa (+2,5%), enquanto a indústria de transformação recuou -1,1%.
No resultado frente a jun/26, na série com ajuste sazonal, observa-se alta em 13 dos 25 ramos analisados pela pesquisa. Entre as atividades, as influências positivas mais importantes foram assinaladas por equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (+12,2%), produtos alimentícios (+1,0%), coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+1,1%), outros equipamentos de transporte (+11,2%), produtos do fumo (+11,1%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (+2,3%) e confecção de artigos do vestuário e acessórios (+2,6%).
Por outro lado, entre as atividades que mostraram redução na produção em jul/26, vieram de impressão e reprodução de gravações (-17,2%), produtos diversos (-9,0%), metalurgia (-1,4%), produtos químicos (-0,8%) e celulose, papel e produtos de papel (-1,3%).
Na comparação com mesmo mês de 2025, o setor industrial assinalou variação de -0,5% em jul/26, com resultados com resultados negativos em 12 dos 25 ramos, 48 dos 80 grupos e 52,0% dos 789 produtos pesquisados. Vale citar que julho de 2026 (23 dias) teve o mesmo número de dias úteis que igual mês do ano anterior (23).
Entre as atividades, as principais influências negativas no total da indústria foram registradas por produtos químicos (-6,9%), produtos alimentícios (-2,6%), produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-13,7%), máquinas e equipamentos (-6,3%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (-8,2%), produtos diversos (-12,0%), produtos têxteis (-6,8%), produtos de borracha e de material plástico (-2,3%) e móveis (-6,6%)
Por outro lado, ainda na comparação com jul/25, entre as atividades que apontaram avanço na produção, pode-se destacar veículos automotores, reboques e carrocerias (+7,6%), produtos do fumo (+23,6%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (6,4%), bebidas (5,0%), metalurgia (+2,4%), produtos de minerais não metálicos (+3,7%) e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+0,6%).
No índice acumulado para jan-jul/26, frente a igual período do ano anterior, o setor industrial assinalou variação positiva de +1,1% com resultados positivos em três das quatro grandes categorias econômicas, 11 dos 25 ramos, 31 dos 80 grupos e 43,2% dos 789 produtos pesquisados. Entre as atividades, as principais influências positivas foram registradas por coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+3,7%), veículos automotores, reboques e carrocerias (+5,7%), produtos farmoquímicos e farmacêuticos (+5,8%), produtos alimentícios (+0,4%) e de bebidas (+1,9%).
Por outro lado, ainda na comparação com jan-jul/25, entre as atividades que apontaram redução na produção, máquinas e equipamentos (-7,5%), produtos químicos (-3,4%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (-6,8%), equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-4,7%), produtos de metal (-2,9%), artefatos de couro, artigos para viagem e calçados (-4,8%), celulose, papel e produtos de papel (-1,9%) e produtos têxteis (-3,9%).
Utilização de Capacidade
A utilização da capacidade instalada da indústria de transformação, de acordo com a série da FGV com ajustes sazonais, teve recuo de -0,1 p.p. na passagem de jun/26 para jul/26, registrando patamar de 82,9%. Em ago/26, a capacidade instalada ficou estável em 82,9%.
De acordo com os dados da CNI, a utilização da capacidade ficou praticamente estável entre jun/26 e jul/26 (-0,1 p.p.), fechando o mês em 77,4% considerando os dados livres de efeitos sazonais. Na comparação entre jul/25 e jul/26, essa variável registrou decréscimo de –0,8 pontos percentuais.
Estoques
De acordo com os dados da Sondagem Industrial da CNI, o indicador da evolução dos estoques de produtos da indústria total ficou em 51,0 pontos em jul/26, avançando +1,7 p.p. frente a jun/26 (49,3 pontos). No caso do segmento da indústria de transformação, o indicador da CNI foi de 49,2 pontos em jun/26 para 50,9 pontos em jul/26. A indústria extrativa, por sua vez, avançou +1,2 p.p, (51,5 pontos) no mesmo período.
Para a indústria geral, o indicador de satisfação dos estoques foi de 50,0 pontos em jun/26 para 50,2 pontos em jul/26, sinalizando estoques em excesso. Cabe lembrar que o nível de equilíbrio é de 50,0 pontos, visto que acima desse valor há excesso de estoques e abaixo dele, estoques menores do que o desejado. No caso do setor extrativo e no caso da indústria de transformação, o indicador de satisfação registrou 50,8 pontos e 50,1 pontos, respectivamente.
Em jul/26, 28% dos ramos industriais apresentaram estoques maiores do que o planejado (acima de 50 pontos), abaixo do resultado do mês anterior (36,0%). Entre os ramos acima de 50 pontos em jul/26 ficaram: têxteis (56,4 pontos), móveis (56,3 pontos), couros (55,4 pontos), veículos automotores (52,3 pontos), informática, eletrônicos e ópticos (52,1 pontos), produtos de metal (51,7 pontos) e material plástico (50,7 pontos).
Por outro lado, ficaram abaixo e mais distantes do equilíbrio os seguintes ramos: impressão e reprodução (37,5 pontos), borracha (42,9 pontos), vestuário (45,0 pontos), celulose e papel (45,0 pontos), minerais não metálicos (45,7 pontos) e manutenção e reparação (45,8 pontos)
Confiança e Expectativas
O Índice de Confiança do Empresário da Indústria de Transformação da CNI registrou 46,7 pontos em ago/26, variando -0,5 p.p. frente a jul/26. Na passagem de jul/26 para ago/26, o componente referente às expectativas em relação ao futuro foi de 49,8 para 48,9 pontos, ainda ficando na zona de pessimismo. O componente que capta a percepção dos empresários quanto a evolução presente ficou em 42,4 pontos.
O Índice de Confiança da Indústria de Transformação (ICI) da FGV, por sua vez, caiu -3,5 p.p. na passagem de jul/26 para ago/26, registrando 93,7 pontos, mantendo-se na região de pessimismo.
O resultado de ago/26 foi influenciado tanto pela queda do seu componente referente às expectativas futuras, que passou de 94,6 pontos para 92,6 pontos em ago/26, quanto do índice da situação atual, que foi de 99,9 pontos para 94,9 pontos.
Outro indicador utilizado para avaliar a perspectiva do dinamismo da indústria é o Purchasing Managers’ Index – PMI Manufacturing, calculado pela consultoria Markit Financial Information Services, teve movimento contrário. Em jul/26, ficou em 47,5 pontos, recuando para 46,3 pontos em ago/26, indicando piora do quadro de negócios do setor.
















