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                          Carta IEDI

                          Edição 1368
                          Publicado em: 20/07/2026

                          Cadeias Globais de Valor: características da inserção brasileira

                          Sumário

                          A Carta IEDI de hoje analisa a evolução mundial e a posição do Brasil no comércio internacional por valor adicionado, bem como as características de sua integração nas cadeias globais de valor (CGV). Para isso, utiliza-se a versão mais recente da base Trade in Value Added (TiVA) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – a mais abrangente estatística de comércio por valor adicionado disponível, cobrindo 80 países e cerca de 40 setores produtivos.

                          Com o advento das CGV, a OCDE desenvolveu métodos matemáticos sofisticados aplicados às matrizes de insumo-produto integradas aos fluxos de comércio bilateral, com o objetivo de rastrear o valor efetivamente gerado nas etapas produtivas dentro das fronteiras de cada país, fornecendo um retrato mais preciso da posição e do papel de cada economia nas CGV. 

                          Adotamos nesta Carta, que tem como base o estudo preparado pelo economista Paulo Morceiro para o Instituto, uma perspectiva de mais longo prazo, analisando os dados de meados da década de 1990 até 2022, que é a informação disponível mais atualizada. A ênfase recai evidentemente sobre a posição do Brasil, que costuma ser visto como pouco integrado nas CGV. 

                          Nossa análise mostra que isso é verdade apenas em parte. Empregamos os indicadores mais frequentes no debate sobre CGV e realizamos comparações com países de grande mercado interno, tal como o Brasil. A conclusão é que somos integrados, mas com características distintas da média mundial. É uma integração que poderia progredir qualitativamente, o que asseguraria uma contribuição maior para o desenvolvimento do país. 

                          A indústria é o grande fator distintivo. No mundo, é a partir da indústria que as CGV se constituíram e aprofundaram a integração produtiva. No Brasil, a falta de competitividade sistêmica, de um lado, e a existência de um mercado interno de relevante magnitude, de outro, retiraram potência da indústria para cumprir este papel integrador com no restante do mundo. Isso mesmo diante do esgotamento do modelo de substituição de importação e progressiva abertura comercial. 

                          O valor adicionado doméstico (VAD) incorporado nas exportações totais do Brasil se expandiu de US$ 47 bilhões para US$ 325 bilhões entre 1995 e 2022, ou seja, avançou 6,9 vezes, superando o ritmo da economia mundial, que registrou aumento de 4,4 vezes no mesmo período. 

                          Como proporção do PIB, nosso valor adicionado incorporado nas exportações progrediu de 6,7% para 18,5%, mas ainda assim ficou aquém da média mundial, para quem o indicador atingiu 21,5% em 2022. Sinal de que não agregamos valor tanto como como deveríamos a nossas vendas externas. Este processo guarda relação com a reprimarização da pauta exportadora do país. Tal característica acaba gerando dificuldade para uma integração produtiva mais profunda e diversificada com o restante do mundo.

                          O VAD da indústria de transformação no total exportado pelo país, por sua vez, recuou de 58% para 35% entre o fim dos anos 1990 e 2022, enquanto o setor de serviços encolheu de 35% para 26%. Avanço mesmo somente nos produtos primários (agropecuária e indústria extrativa): de 10% para 39%, chegando a superar a manufatura.

                          Utilizamos nesta Carta IEDI dois indicadores tradicionais de acompanhamento da integração em CGV:

                          1.Indicador “para trás”, isto é, o valor adicionado estrangeiro (VAE) incorporado nas exportações de um país. Em outros termos, se o país importa para exportar. A intuição é que um produto com elevado conteúdo importado ganha competitividade de largada, pois esses insumos foram adquiridos no estado da arte em termos de preço e qualidade global. 

                          2.Indicador “para frente”, isto é, o valor adicionado doméstico (VAD) de um país A que termina sendo incorporado em bens e serviços destinados à demanda final de outros países como porcentagem da produção total do país A. Assim, o indicador captura o quanto do valor gerado internamente termina sendo consumido por famílias, governos ou em investimentos em outros países, após percorrer toda a extensão das cadeias globais.

                          A leitura não é direta e está sujeita a nuances e discussão caso a caso, como veremos a seguir, mas associados ajudam a traçar um certo perfil de integração.

                          Considerando o indicador “para trás”, no mundo, entre 1995 e 2022, a parcela do valor adicionado estrangeiro (VAE) incorporado nas exportações mundiais aumentou de 16% para 23,6%. Na origem disso esteve a indústria de transformação, para quem tal indicador avançou de 21,2% para 30,8%. 

                          No Brasil, o avanço foi intenso neste indicador, embora tenhamos partido de um patamar muito baixo e tenhamos nos afastado ainda mais da média mundial. O VAE nas nossas exportações totais aumentou de 7,9% em 1995 (-8,1 p.p. ante a média mundial) para 13,6% em 2022 (-10 p.p. ante a média mundial). O patamar deste indicador bem mais baixo no Brasil reflete alguns fatores.

                          Em primeiro lugar, nossas exportações foram alavancadas por atividades que naturalmente possuem baixo VAE: produtos agropecuários, produtos extrativos. Em segundo lugar, por sermos grandes produtores destes insumos primários, o valor adicionado doméstico incorporado em bens industriais também tende a ser superior: exportamos muitos bens industriais intensivos em recursos naturais que nós mesmos produzimos. Em terceiro lugar, as distorções do ambiente econômico interno corroem eventual competitividade obtida com a importação de insumos, que acabam não alavancando nossas exportações, sobretudo industriais, como poderiam. 

                          Para a indústria de transformação brasileira, a participação do VAE em suas exportações subiu acima da média mundial (+10,3 p.p. ante +9,6 p.p. respectivamente), de 9,2% em 1995 para 19,5% em 2022, mas se manteve baixo dela no final do período. Entre os setores industriais exportadores que apresentam baixo VAE porque produzimos seus insumos destacam-se: alimentos (VAE de 13,8% ante 24,6% na média mundial), madeira, papel, celulose (18,9% ante 26,2%), metalurgia (15,1% ante 34,1%) e derivados de petróleo (22,2% ante 43,3%), por exemplo.

                          Apenas três setores com VAE próximo ou abaixo de 10% (agropecuária, extrativa e alimentos) respondem por mais de 50% das exportações brasileiras. Em contraste, metade dos setores manufatureiros nacionais tem atingido um grau de integração produtiva no indicador “para trás” correspondente a 80% ou mais do nível mundial – indicando que o país consome insumos globais modernos. Ou seja, nestes casos não se trata de baixo o conteúdo importado, mas de baixa participação no que exportamos. O que falta, portanto, é garantir a competitividade do ambiente produtivo brasileiro para alavancar suas exportações. 

                          Adicionalmente, comparações com outros países de destaque ajudam a colocar o caso do Brasil em perspectiva. O indicador “para trás” no caso da China, grande produtora de insumos industriais, e no caso dos EUA, que também é um grande produtor de bens primários, está em patamar mais baixo do que o do Brasil, ainda que sejam países reconhecidamente bem integrados a CGV. O valor adicionado estrangeiro nas exportações chinesas foi de 19,1% e nas americanas, de 13,8%, em 2022.

                          Entretanto, vale reforçar: nossa menor participação de VAE não decorre de domínio tecnológico ou capacidade de produzir internamente componentes críticos como EUA e China possuem, mas da composição setorial das nossas exportações concentradas em produtos primários e manufaturados intensivos em recursos naturais – segmentos em que o conteúdo importado é estruturalmente baixo. Por ter origens distintas, nota-se que a relação entre a parcela do VAE incorporada nas exportações e crescimento das exportações (ou desempenho econômico) não é linear.

                          Ao analisarmos o indicador “para frente”, referente ao valor adicionado doméstico (VAD) incorporado na demanda final estrangeira, o Brasil desponta acima ou próximo da média mundial em setores fornecedores de matérias-primas e insumos básicos: agropecuária, indústria extrativa, alimentos, madeira, celulose, metalurgia e minerais não-metálicos. Ou seja, o indicador reflete o tipo de inserção externa do país.

                          No mundo, o indicador progrediu de 15,6% para 21% entre 1995 e 2022, ou seja, aumentou em 1/3 do que era. Já no Brasil, o patamar avançou mais do que 2,5 vezes, passando de 6,7% para 18,4%, na esteira da ampliação de nossas vendas externas de bens primários que serão, posteriormente, processados e consumidos no exterior. Estamos mais próximos da média mundial neste indicador do que no anterior.

                          Na indústria de transformação, o aumento foi igualmente significativo. O indicador para frente quase dobrou no nosso caso, mas apesar disso, o grau de integração para frente nas CGV ainda se encontra bem abaixo da economia mundial: 25,3% ante 37%, ou seja, 11,7 p.p. abaixo. Mais uma vez, sinal de que o Brasil não assegura condições para sua produção industrial construir competitividade externa.

                          De todo modo, não apresentamos um indicador muito diferente dos países com grandes mercados internos, evidenciando que o valor adicionado gerado pela indústria doméstica tem relativamente pouca base na demanda estrangeira. A Índia (29,3%) possui um indicador superior ao nosso, mas China (26,5%) e EUA (19%) apresentaram patamares inferiores. 

                          Em síntese, o Brasil não está desconectado das CGV, mas sua inserção é estruturalmente restritiva. O país atua essencialmente como provedor de matérias-primas que passarão por múltiplas rodadas de agregação de valor no exterior, retendo pouca participação nas etapas sofisticadas de maior retorno econômico. 

                          Seu desafio não consiste em elevar o conteúdo importado per se, mas em construir competitividade exportadora nos segmentos de maior agregação de valor – em geral, de maior intensidade tecnológica. Isso requer superar os obstáculos do “Custo Brasil” e os bloqueios aos investimentos modernizantes, em especial as elevadas taxas de juros. Também é relevante estruturar uma política industrial robusta, focada em inovação e fortalecimento de empresas de bens e serviços capazes de liderar nichos de maior sofisticação tecnológica nas CGV. 

                          Introdução

                          Historicamente, o comércio internacional baseava-se na exportação de bens finais. O sucesso industrial exigia que uma nação dominasse a cadeia produtiva completa de um setor – da matéria-prima ao produto acabado. Nesse modelo, os países se especializavam em certos produtos e importava os que não tinham vantagem comparativa. Os menos desenvolvidos exportavam bens primários e importavam manufaturados, num padrão que ficou conhecido como comércio inter-industrial com os países exportando e importando produtos de segmentos produtivos distintos.

                          Com o avanço da globalização a partir dos anos 1980, esse padrão se transformou profundamente. A produção industrial fragmentou-se internacionalmente, dando origem às Cadeias Globais de Valor (CGV). Em vez de especializar-se em produtos inteiros, os países passaram a dominar etapas específicas do processo produtivo. O comércio migrou dos bens finais para os bens intermediários, em um padrão predominantemente intra-industrial.

                          Para capturar esta realidade, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) desenvolveu a base Trade in Value Added (TiVA), que decompõe as exportações brutas entre valor adicionado doméstico (VAD) e valor adicionado estrangeiro (VAE) incorporado ao longo das cadeias produtivas. A TiVA/OCDE cobre 80 países e a região “Resto do Mundo”, totalizando a economia global.

                          Para derivar essas estatísticas, a OCDE cruza os fluxos de comércio bilateral com as matrizes de insumo-produto desagregadas em 40 setores (e agregações setoriais) de cada país, rastreando a origem do valor adicionado ao longo da cadeia global de valor. O resultado é a eliminação da dupla contagem que distorce as exportações brutas dos países ou setores essencialmente montadores.

                          Geralmente, países com cadeias produtivas fortemente nacionais e baixo conteúdo importado apresentam maior proporção de valor adicionado doméstico em suas exportações. Em contrapartida, economias mais internacionalizadas e dependentes de insumos estrangeiros – como o México e suas indústrias maquiladoras – registram maior participação de valor adicionado estrangeiro no total exportado.

                          As estatísticas por valor adicionado oferecem ao menos três vantagens analíticas centrais: mensurar com maior precisão a riqueza gerada dentro das fronteiras nacionais; desinflar os valores exportados por países ou setores maquiladores; e avaliar o grau de integração de países e setores nas CGV – dimensão que será explorada ao longo deste estudo.

                          Evolução das exportações por valor adicionado no Brasil e no mundo

                          O valor adicionado doméstico (VAD) incorporado nas exportações mundiais de bens e serviços cresceu de forma expressiva no período analisado, passando de US$ 4,7 trilhões para US$ 20,7 trilhões entre 1995 e 2022 (4,4x). Quando expresso como proporção do PIB mundial, o quadro é de expansão até 2008, quando o VAD exportado atingiu 22% do PIB global, ante 16% em 1995. Desde a crise financeira internacional de 2007-2008, essa proporção oscilou entre 18% e 22%, encerrando 2022 em 21,5% – sinal de que o ritmo de aprofundamento da globalização comercial perdeu fôlego. 

                          Esse arrefecimento da integração comercial relativa resulta de um conjunto de fatores estruturais e geopolíticos que se sobrepuseram ao longo do período. O recrudescimento do protecionismo após a crise de 2007-2008, intensificado pela pandemia de Covid-19, pela guerra russo-ucraniana, pelas disputas comerciais entre EUA e China e, mais recentemente, pelo ciclo tarifário (“tarifaço”) inaugurado pelo governo Trump, contribuiu para que as economias reavaliassem sua dependência de cadeias produtivas altamente globalizadas, especialmente em produtos considerados estratégicos. 

                          A composição setorial do VAD exportado mundialmente revelou relativa estabilidade ao longo dos 28 anos analisados, embora com deslocamentos relevantes. A indústria de transformação manteve a liderança, porém com participação decrescente: de 54% para 47% do total entre 1995 e 2022. 

                          O setor de serviços oscilou em torno de 36%-38%, encerrando o período em 38%. A agropecuária permaneceu estável entre 2% e 3%. A indústria extrativa foi o segmento com maior ganho relativo, dobrando sua participação de 6% para 12%, com pico de 15% em 2012, ano de elevação dos preços das commodities.

                          No Brasil, o valor adicionado doméstico (VAD) incorporado nas nossas exportações cresceu de US$ 46,9 bilhões para US$ 324,9 bilhões entre 1995 e 2022 – multiplicando-se por 6,9, ritmo superior ao da economia mundial (4,4x). Em proporção do PIB, o VAD exportado saltou de 6,7% para 18,5%, aproximando-se, mas seguindo abaixo do patamar mundial de 21,5%. Cabe observar que, por estarem expressos em dólares correntes, os valores são sensíveis às variações cambiais, especialmente no que diz respeito à trajetória em proporção do PIB.

                                 

                          A composição setorial do VAD exportado pelo Brasil diverge significativamente do perfil mundial e aponta para uma trajetória de especialização regressiva. Na segunda metade dos anos 1990, a estrutura da pauta exportadora brasileira assemelhava-se à da economia global. Desde o início dos anos 2000, porém, o peso dos setores primários (extrativa e agropecuária) cresceu de forma contínua, em detrimento da indústria de transformação e dos serviços.

                          Em 2022, a soma do VAD exportado por produtos primários ultrapassou a participação conjunta de manufaturados e serviços. A indústria de transformação, que respondia por aproximadamente 60% do VAD exportado na segunda metade dos anos 1990, recuou para pouco mais de 1/3 do total em 2022. Os serviços retraíram de 35% para 26% no mesmo período. Esses dados por valor adicionado corroboram e ampliam o diagnóstico já sinalizado pelas exportações brutas: a pauta exportadora do Brasil passa por uma reprimarização acelerada.

                          A vantagem comparativa revelada dos setores primários fica evidente ao observar a participação do Brasil no VAD mundial exportado. 

                          Na agropecuária, o market share brasileiro saltou de menos de 2% para 10,5% do VAD mundial do setor, entre 1995 e 2022. Na indústria extrativa, o aumento foi de 0,6% para 2,9%. Trata-se de ganhos expressivos, mas concentrados justamente nos segmentos com menor participação no comércio global: em 2022, manufaturados e serviços respondiam por 85% do VAD exportado mundialmente, e nesses segmentos o Brasil detém apenas percentual ligeiramente superior a 1% do market share mundial.

                          O contraste entre os gráficos acima sintetiza bem a posição do Brasil na especialização produtiva internacional: o país torna-se progressivamente mais relevante nos produtos primários, enquanto permanece com presença marginal nos setores (manufatura e serviços) que concentram a geração de riqueza e a inovação no comércio global.

                          “Integração para trás” nas CGV: a parcela estrangeira nas exportações

                          Esta seção analisa o valor adicionado estrangeiro (VAE) incorporado nas exportações de um país – o principal indicador de integração produtiva às CGV pelo encadeamento produtivo para trás. Uma parcela elevada de VAE indica que o país importa insumos, partes e componentes que serão submetidos a novas etapas de transformação antes de serem reexportados como bens finais ou intermediários. É um traço característico da especialização produtiva em cadeias globais contemporâneas. 

                          Assim, um alto VAE nas exportações indica que o país está integrado às CGV. A intuição econômica é que um produto com elevado conteúdo importado ganha competitividade na largada, pois esses insumos foram adquiridos no estado da arte em termos de preço e qualidade global. Ao incorporar componentes estrangeiros mais baratos ou tecnologicamente avançados que os nacionais, o bem final eleva sua competitividade no mercado internacional. 

                          Nesse sentido, o uso de insumos intermediários estrangeiros atua como um vetor de competitividade, impulsionando as exportações do país. Logo, quanto maior o percentual de VAE nessas vendas, mais profunda tende a ser a integração produtiva do país nas CGV.

                          Na prática isso significa que um país não precisa produzir tudo para ser competitivo, ele pode se especializar em algumas etapas da cadeia de valor. A lógica econômica subjacente é a de que a especialização em etapas específicas da cadeia de valor, com importação dos insumos em que um país não é competitivo, pode ser uma estratégia inteligente de inserção produtiva global – especialmente se conduzida com qualidade e progressão tecnológica. 

                          No Brasil, o caso da Embraer é exemplar: ao importar praticamente todos os componentes críticos (motores, aviônica, sistemas de controle de voo) de fornecedores globais atuando na fronteira tecnológica, a empresa concentra suas competências nas etapas onde de fato se diferencia – projeto, integração sistêmica e certificação aeronáutica –, o que lhe confere competitividade internacional sem precisar dominar toda a cadeia produtiva. 

                          Importar insumos e componentes na fronteira tecnológica para exportar é uma estratégia eficaz quando o país ainda não possui competitividade ou experiência ao ingressar em um novo setor. Ou seja, economias em desenvolvimento não precisariam gastar décadas criando uma indústria de semicondutores do zero, por exemplo: elas podem importar os chips e demais componentes críticos (gerando um alto VAE) e focar inicialmente na montagem. 

                          É o que Vietnã e México fazem na indústria eletroeletrônica, e o que a China fez no passado. Com o tempo, a China subiu na curva de aprendizado, passou a desenhar os bens finais e, recentemente, criou marcas próprias, passando a dominar as etapas de maior valor agregado na cadeia. Nesse sentido, um elevado percentual de VAE nas exportações revela, inicialmente, uma forte conexão e integração global.

                          O gráfico abaixo mostra que a parcela do VAE nas exportações mundiais de bens e serviços aumentou paulatinamente, de 16% em 1995 para 24% em 2022. Em termos práticos, a relação entre VAD e VAE passou de 5,25:1 em 1995 para 3,17:1 em 2022, sinalizando cadeias produtivas globalmente mais integradas. Entretanto, há diferenças relevantes entre os agregados setoriais.

                          Como mostra o próximo gráfico, a indústria de transformação é o principal vetor de integração nas CGV, isto é, com maior participação de conteúdo importado: o VAE em suas exportações cresceu de 21,2% para 30,8% entre 1995 e 2022. Nos serviços totais, a parcela subiu de 10,0% para 17,7%, e na agropecuária, de 11,2% para 15,2%. A indústria extrativa, por sua vez, oscilou em torno de 8% ao longo de todo o período – evidencia direta do fato de que os recursos minerais e energéticos são a matéria-prima primária, não dependendo de cadeias produtivas longas.

                          Essa assimetria entre setores tem uma explicação estrutural: produtos manufaturados complexos, como veículos, aeronaves e eletrônicos, são compostos por centenas ou milhares de peças e componentes – e nenhum país, mesmo os mais avançados, detém competitividade em todos os elos dessas cadeias. A especialização produtiva, portanto, implica necessariamente em importação de insumos. Já na extração mineral ou de petróleo, o bem é basicamente extraído do subsolo e beneficiado, sem exigir longas cadeias de fornecimento de peças e componentes, pois o bem final sofre pouca transformação industrial.

                          A parcela estrangeira nas exportações do Brasil

                          O Brasil apresenta percentual de VAE incorporado nas exportações inferior ao da economia mundial em todos os grandes agregados setoriais, com exceção da indústria extrativa. Assim, as exportações brasileiras carregam menor percentual de conteúdo importado que o observado na economia mundial em produtos da indústria de transformação, em produtos da agropecuários e nos serviços. 

                          Esse padrão tem uma explicação que vai além da simples abertura comercial: reflete, em boa medida, a composição setorial da pauta exportadora e as especificidades do modelo de desenvolvimento brasileiro, marcado por décadas de orientação ao mercado interno sob proteção tarifária elevada e pela dimensão continental do país, que favorece a autossuficiência em vários segmentos produtivos.

                          Apesar disso, a parcela do VAE vem aumentando em ritmo similar ao observado na economia mundial. Em 2022, o Brasil alcançou nos setores de indústria de transformação, serviços e agropecuária um grau de integração produtiva às CGV equivalente ao que o mundo registrava em meados dos anos 1990 – o que não é um resultado modesto, considerando o ponto de partida. O desafio é que o referencial mundial continuou avançando.

                          Para um panorama comparativo mais detalhado, o gráfico a seguir apresenta um ranking do VAE incorporado nas exportações da indústria de transformação para 40 países selecionados, incluindo os 15 maiores parques industriais do mundo (responsáveis por mais de três quartos do valor adicionado manufatureiro global em 2024, segundo a UNIDO). 

                          Entre 1995 e 2022, a parcela do VAE aumentou em 33 dos 40 países, com elevação média de 10,6 p.p. – ligeiramente acima da média mundial de 9,6 p.p. O Brasil registrou avanço de 10,3 p.p., em linha com o padrão global.

                          Os maiores avanços, da ordem de 20 p.p., ocorreram em oito países: Vietnã, República Tcheca, Bulgária, Emirados Árabes Unidos, Polônia, Turquia, Índia e Japão. Alguns deles, como Vietnã e Polônia, apresentam trajetórias de crescimento acelerada e intensa integração a blocos econômicos regionais. Em muitos desses casos, os ganhos resultam da atração de investimentos industriais estrangeiros e a inserção em cadeias produtivas regionais. 

                          A Polônia, por exemplo, se integrou a economia europeia, sobretudo após significativos investimentos industriais da Alemanha, que buscou reduzir custos de produção montando produtos no país vizinho. Estratégia similar pode ser observada no Vietnã, que recebeu volumosos investimentos industriais de empresas coreanas, japonesas, chinesas e estadunidenses motivados por mão de obra barata e fatores geopolíticos (triangulação comercial).

                          A leitura desse ranking requer cautela interpretativa: não existe uma relação linear entre a magnitude do VAE e o desempenho exportador ou tecnológico de um país. Embora a parcela do VAE dos países se distribua entre 10% e 50%, não há uma correlação clara de que quanto maior a parcela do VAE incorporado nas exportações, melhor é o desempenho do país. 

                          Também não há um padrão bem definido quanto ao tamanho do país. Alguém poderia esperar que países populosos tenham menor parcela do VAE, pois eles possuem muitos consumidores que permitem economias de escala suficientes para que as indústrias prosperem, dessa forma, garantindo certa autossuficiência doméstica em várias cadeias produtivas simultaneamente. Porém, o México e a Índia contrariam essa expectativa. 

                          Veja outro caso que foge ao padrão: Vietnã e China tiveram muito sucesso nas exportações de manufaturados na última década. Enquanto o Vietnã lidera o ranking com a maior parcela de VAE em suas exportações, a China encontra-se ao final da lista.

                          Desse modo, a relação entre a parcela do VAE incorporada nas exportações e crescimento das exportações (ou desempenho econômico) não é linear. Dito de outra forma, há países altamente integrados nas CGV com pobre performance econômica e países com baixo percentual de VAE nas exportações com excelente desempenho como a China. Os EUA, país com a maior capacidade tecnológica do planeta, encontra-se no final do ranking ao possuir baixa parcela do VAE, revelando que maior parcela de VAE não tem relação direta com capacidade tecnológica.

                          Assim, uma mensagem importante da leitura do gráfico acima é que estar mais integrado ou conectado às CGV não significa automaticamente melhor performance econômica e tecnológica. Muito mais do que buscar a integração a qualquer custo, é mais vantajoso buscar uma integração de qualidade. É melhor se integrar com commodities com pouco grau de processamento industrial ou produzindo aviões?

                          Porém, nem sempre é possível se acoplar às CGV com o nível de autoeficiência da China ou dos EUA. Alguns países, como o México e Vietnã, se acoplaram às CGV montando produtos com elevado conteúdo importado (alto VAE). Eles se conectaram às CGV montando eletrônicos com mão de obra barata, importando a maioria das partes, peças e componentes eletrônicos. Ambos exportam maciçamente para os EUA os bens acabados. Em ambos os casos, uma parcela de VAE extremamente alta pode indicar que o país está realizando apenas tarefas de baixo valor adicionado domesticamente, como a montagem final (as chamadas maquiladoras). Assim, se um país importa quase tudo e apenas aperta parafusos, seu VAE será alto, gerando empregos de salários baixos. 

                          Essa estratégia de “plugar e surfar” nas redes globais pode ser interessante para os países começarem a produzir e exportar produtos de alta complexidade sem precisar realizar pesados investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e em infraestrutura de peças e componentes. A China fazia isso nos anos 1980. Mas com o passar do tempo, a China não se contentou em apenas “pegar carona” nos investimentos em P&D embutidos nos componentes importados de alta tecnologia de economias avançadas. 

                          Primeiro, os chineses aprenderam a produzir os celulares com mão de obra barata, mas depois evoluíram na cadeia de valor com uma estratégia orientada por uma política industrial robusta e muito esforço local. Como resultado, as companhias chinesas “subiram a escada” da cadeia de valor (upgrading industrial), primeiro internalizando a produção de alguns componentes, depois fazendo o design dos celulares, e, por fim, dominando toda a cadeia de valor com empresas líderes atuando com marcas próprias, se apropriando assim de uma grande fatia da riqueza gerada na cadeia de valor de telefones celulares. 

                          Assim, um alto VAE nas exportações pode ser a porta de entrada para se conectar as redes globais de comércio, mas não pode ser um objetivo final. Ao longo das últimas décadas a China adensou a maioria das suas cadeias produtivas de bens industrializados, reduzindo o conteúdo estrangeiro de suas exportações. O México, por outro lado, ainda não saiu do primeiro estágio de se integrar apenas com a mão de obra barata, se apropriando de uma parcela pequena da renda gerada de sua alta integração às CGV.

                          Os Países Baixos (Holanda) têm alto VAE incorporado nas exportações. A Holanda é um país pequeno, com clima ruim para produzir bens agrícolas durante o ano todo. As companhias holandesas importam produtos primários como cacau de países africanos e suco de laranja concentrado do Brasil, agregam muito valor domesticamente e os reexportam com marcas próprias para toda a Europa. Esse é um caso bem-sucedido de integração às CGV.

                          No caso dos EUA, o baixo percentual de VAE incorporado em suas exportações não é um sinal de fraqueza, pelo contrário. Os EUA possuem cadeias produtivas manufatureiras sofisticadas e adensadas domesticamente, fruto de décadas de domínio tecnológico e pesados investimentos em P&D, que os permitem atuar como um dos líderes em exportação de vários produtos. Mesmo nos setores em que os EUA não produzem mais internamente, suas empresas como a Apple, lideram a CGV de bens de alto valor agregado, focando-se nas etapas de pesquisa, design, comercialização, gestão da marca e serviços sofisticados. 

                          Os exemplos acima servem para ler os dados do gráfico anterior com cautela. Nem sempre maior percentual de VAE é melhor que um baixo percentual e vice-versa. Embora o Brasil tenha uma baixa parcela do VAE em suas exportações de manufaturados como os EUA e a China, sua situação é diferente. Sua menor dependência de VAE não decorre de domínio tecnológico ou capacidade de produzir internamente componentes críticos como EUA e China possuem, mas da composição setorial das exportações concentradas em produtos primários e manufaturados intensivos em recursos naturais – segmentos em que o conteúdo importado é estruturalmente baixo. Voltaremos a esse ponto nas próximas seções.

                          Panorama setorial da integração às CGV e a posição do Brasil

                          O gráfico a seguir apresenta o ranking setorial mundial da integração produtiva às CGV pela parcela do VAE incorporado nas exportações, cobrindo cerca de 40 setores e agregações setoriais. De modo geral, os setores de serviços tendem a exibir menor integração internacional que os manufatureiros, dada a natureza menos fragmentada e menos dependente de insumos intermediários comercializáveis de suas cadeias de produção.

                          O refino de petróleo destaca-se com a maior parcela de VAE, superando 40%. Isso ocorre porque o petróleo e o gás natural – principais matérias-primas do setor – são majoritariamente importados nos países sem reservas abundantes. Países produtores, como Rússia, Arábia Saudita e EUA, apresentam VAE baixo no refino; já países deficitários em energia, como a maioria dos europeus, China, Índia, Japão e Coreia, apresentam VAE elevado nesse setor, como mostra a tabela abaixo.

                          Argumento similar se aplica para os setores intensivos em recursos minerais e energéticos como metalurgia, produtos de metal, química, plásticos e borracha, embora nesses setores a parcela do VAE seja um pouco menor do que a observada no refino de petróleo porque o bem final tem maior valor agregado em relação à matéria-prima importada.

                          Nos setores manufatureiros de maior intensidade tecnológica e cadeias de produção longas – informática e eletrônicos, outros equipamentos de transporte, veículos, maquinaria e equipamentos elétricos – o VAE também tende a ser elevado. Isso demonstra a dificuldade estrutural de um único país manter competitividade em todos os elos dessas cadeias de fornecimento, cujos produtos finais requerem centenas ou milhares de componentes altamente especializados. 

                          Veja, por exemplo, o caso de produtos de informática (celulares e computadores): Japão, Coreia, Taiwan, China e EUA dominam a produção de algumas partes e componentes críticos como microprocessador, tela, memória, disco de armazenamento e aplicativos, mas nenhum país possui a soberania completa sobre toda a cadeia produtiva. Esses produtos sempre vão ter uma parcela considerável de conteúdo importado onde quer que o bem final seja finalizado.

                          A tabela anexa exibe a parcela do VAE incorporado nas exportações para os mesmos setores e agregações do gráfico anterior, englobando cerca de 20 países e a economia mundial para o último ano disponível. Os países estão ordenados pelo Valor Adicionado Manufatureiro (VAM) de 2024 da UNIDO, do maior para o menor parque industrial. Foram selecionados os 15 países líderes em VAM, com exceção de Taiwan, além de nações da América do Sul (Argentina, Chile e Colômbia), Oriente Médio (Arábia Saudita), África (África do Sul) e Leste Europeu (Polônia). A parcela do VAE da economia mundial encontra-se na penúltima coluna. A última coluna exibe a participação do Brasil em relação à economia mundial: quando acima de 100, significa que a parcela brasileira supera a média global, ocorrendo o contrário quando abaixo de 100.

                          A tabela permite uma radiografia setorial detalhada da dependência estrangeira de cada país no comércio mundial. Vale ressaltar que especializações setoriais, autonomia em recursos naturais, disponibilidade de terras agriculturáveis, capacitação tecnológica e tamanho da população podem interferir na parcela de VAE embutida nas exportações. Na maioria dos países, o setor de refino tende a apresentar a maior parcela de conteúdo estrangeiro das exportações.

                          Dentro da manufatura, os setores de maior intensidade tecnológica – informática, outros equipamentos de transporte, veículos, química, maquinaria e equipamentos elétricos –, além de metalurgia, produtos de metal, plásticos e borracha, tendem a registrar as maiores parcelas de VAE. Contudo, há certa heterogeneidade, com países como EUA, China, Rússia, Brasil e Argentina apresentando percentuais menores de VAE em relação aos demais. 

                          Por outro lado, o setor de alimentos e bebidas apresenta o conteúdo estrangeiro mais baixo na maioria dos casos. Por ser estratégico em termos de segurança nacional e desenvolvimento regional, o setor de alimentos é geralmente protegido e subsidiado, o que diminui o conteúdo estrangeiro de suas exportações.

                          Nos serviços, o setor de transporte, armazenagem e correio possui a parcela mais elevada de VAE, possivelmente devido à dependência de combustíveis importados. Note que os países com alto conteúdo estrangeiro no setor de refino de petróleo também o apresentam no setor de transporte, armazenagem e correio.

                          O próximo gráfico exibe em quais setores o Brasil avançou na integração produtiva às CGV entre 1995 e 2022, com a parcela brasileira de VAE normalizada em relação à economia mundial (Mundo = 100). Apenas dois setores registram índice acima de 100: outros equipamentos de transporte – puxado pela Embraer no segmento aeroespacial – e a indústria extrativa, com o desempenho da Petrobras na exploração offshore e da Vale na mineração. No segmento aeroespacial, esse índice saltou de 60 para 143, evidenciando o aprofundamento da integração da Embraer a redes globais de fornecedores de alta tecnologia.

                          Em metade dos setores da indústria de transformação, o índice de integração do Brasil equivale a pelo menos 80% do nível mundial – o que significa que esses setores operam com conteúdo importado próximo ao padrão global. Entretanto, esses não são os setores mais exportadores do Brasil, como mostra a tabela mais à frente. 

                          O setor de informática, eletrônicos e ópticos, por exemplo, apresenta índice de 94,3 (parcela do VAE do Brasil de 32,1% contra 34,0% da economia mundial), mas responde por apenas 0,4% das exportações brasileiras totais. Apesar de o Brasil possuir uma cadeia produtiva altamente integrada às CGV, afinal os bens de informática montados no Brasil não se diferenciam muito daquele montado em outros países, pois usam os mesmos componentes importados, o Brasil possui um pobre desempenho exportador nesse segmento. 

                          Note que os bens de informática, eletrônicos e ópticos são o carro-chefe do comércio internacional, representando cerca de 15% das exportações globais de bens. Então, não é por falta de mercado disponível que o Brasil não exporta, tampouco à distância dos produtos nacionais do estado da arte tecnológico já que possui conteúdo importado similar aos pares globais. Certamente, a baixa competitividade exportadora do Brasil nesse setor reside em fatores sistêmicos como elevado “Custo Brasil”, especialmente custo logístico elevado (produção concentrada em Manaus, distante dos portos), juros elevados e carga tributária residual sobre exportações, além da preferência das multinacionais instaladas no Brasil por utilizar outros países como plataformas de exportação e fatores geográficos (distância dos principais mercados consumidores). Possivelmente há outros fatores e não cabe a essa análise destrinchá-los. 

                          A mensagem principal é que não é por falta de uso de conteúdo importado que o Brasil é pouco integrado nas CGV pelas exportações, pois parcela relevante dos setores industriais já operam com conteúdo importado não tão distante daquele observado na economia mundial.

                          O Brasil é um caso contraditório de inserção nas CGV como evidenciado na próxima tabela: o país exporta mais bens e serviços nos setores que possuem baixa parcela de VAE nas exportações e menos nos setores que possuem alta parcela de VAE, contrariando a lógica de funcionamento das CGV. Ou seja, o país integrou-se progressivamente mais nos setores em que menos exporta, e exporta mais nos setores em que as cadeias produtivas são menos integradas. 

                          Apenas 3 setores – agropecuária, indústria extrativa e indústria de alimentos – que operam com VAE próximo ou abaixo de 10% respondem por mais de 50% de todas as exportações do Brasil. A participação nas exportações brasileiras da agropecuária aumentou de 4,7% para 16,8% entre 1995 e 2022; na extrativa, elevou-se de 4,0% para 20,6%; e na indústria de alimentos permaneceu estável próxima de 12,5%. 

                          Por outro lado, os setores que registraram os maiores aumentos na parcela de VAE – sinalizando maior integração produtiva às CGV – foram justamente aqueles que perderam relevância na pauta de exportações. A indústria química viu seu VAE subir de 9,7% para 29,9%, mas sua participação nas exportações oscilou negativamente de 3,8% para 3,6%. O setor de veículos subiu seu VAE de 11,3% para 25,9%, contudo viu sua fatia no bolo exportado encolher de 5,5% para 3,0%. 

                          O único setor industrial de alta intensidade tecnológica que manteve resiliência exportadora com forte integração internacional foi o segmento aeroespacial (Outros equipamentos de transporte), ainda assim representando menos de 1% (0,9%) das exportações totais em 2022.

                          A tabela acima deixa claro que a composição setorial explica o fato de o Brasil apresentar um nível relativamente baixo de integração produtiva às CGV em comparações internacionais. O Brasil não é pouco integrado às CGV porque opera com baixo conteúdo importado, ele é pouco integrado principalmente porque tem vantagem comparativa (competitividade) em setores em que o conteúdo importado é estruturalmente baixo: os mesmos setores que explicam a reprimarização da pauta exportadora. Por isso, o Brasil se integrou mais (alta parcela de VAE) onde exporta menos, e exporta mais onde é menos integrado (baixa parcela de VAE). 

                          Isso desfaz um equívoco frequente no debate de política industrial: a ideia de que ampliar o conteúdo importado nas cadeias produtivas brasileiras – como fez a Embraer – seria condição suficiente para integrar o país às CGV. Importar mais insumos é necessário para competir em alguns setores, mas insuficiente para garantir competitividade exportadora. Há muitos fatores além do conteúdo estrangeiro (alta parcela de VAE nas exportações) que interferem na colocação de um produto nacional nos mercados globais.

                          Muitas filiais de multinacionais operam no Brasil em setores com parcela de VAE próximo do observado na economia mundial, como produtos de informática e eletrônicos, químicos, equipamentos elétricos, maquinaria e veículos. Em vez de utilizarem o Brasil como plataforma de exportação – a exemplo do que ocorre no México ou no Vietnã –, essas empresas focam no vasto mercado consumidor nacional. Paralelamente, utilizam outros países como bases exportadoras, aproveitando-se de um melhor ambiente de negócios, custos produtivos reduzidos, maior proximidade dos mercados globais ou acordos de acesso comercial preferencial.

                          Assim, o que determina a inserção – sobretudo em termos qualitativos – nas CGV não é o grau de abertura ao conteúdo estrangeiro por si só, mas a capacidade de competir (em preço e qualidade) com empresas relevantes em bens e serviços com elevado market share no comércio internacional nas etapas da cadeia que geram maior valor adicionado – como, design, pesquisa, marcas próprias e serviços sofisticados pós-venda. Um ambiente de negócios favorável, contexto macroeconômico que estimule o investimento produtivo e políticas industriais robustas e perenes certamente também contribuem. 

                          Integração “para frente” nas CGV: o valor adicionado doméstico na demanda final estrangeira

                          Esta seção adota analisa outro indicador de integração às CGV: a chamada integração “para frente”, medida pelo valor adicionado doméstico (VAD) de um país que termina sendo incorporado em bens e serviços destinados à demanda final de outros países.

                          A demanda final é um termo econômico que captura a soma dos bens e serviços destinados ao consumo doméstico das famílias, as exportações para o exterior e aqueles materializados em investimentos fixos (formação bruta de capital fixo – FBCF) das empresas e famílias como novas fábricas ou novas residências. 

                          O indicador utilizado mensura o VAD de um país A incorporado na demanda final estrangeira de todos os países como porcentagem da produção total do país A. Assim, o indicador captura o quanto do valor gerado internamente termina sendo consumido por famílias, governos ou em investimentos em outros países, após percorrer toda a extensão das cadeias globais. 

                          Um exemplo ilustra bem a lógica desse indicador: a indústria siderúrgica brasileira produz aço (VAD). O Brasil exporta esse aço para a Alemanha, onde é transformado em componentes de carroceria, que seguem para o México, onde o veículo é montado e exportado aos EUA, onde um consumidor o adquire para uso final. Nas estatísticas tradicionais, o Brasil exportou apenas para a Alemanha. Na TiVA/OCDE, o valor adicionado gerado na siderurgia brasileira é rastreado até seu destino final – a demanda americana –, mesmo tendo atravessado múltiplas fronteiras e passado por várias etapas de transformações industriais.

                          Entre 1995 e 2022, o indicador “para frente” na média mundial progrediu de 15,6% para 21%, ou seja, aumentou em 1/3 do que era. Já no Brasil, o patamar avançou mais do que 2,5 vezes, passando de 6,7% para 18,4%, na esteira da ampliação de nossas vendas externas de bens primários que serão, posteriormente, processados e consumidos no exterior.

                          O gráfico a seguir exibe esse indicador para a indústria de transformação em 40 países. Países relativamente pequenos, com mercado doméstico restrito, tendem a registrar maior dependência da demanda estrangeira para absorver sua produção doméstica. Irlanda, Bulgária, República Tcheca, Áustria, Taiwan, Países Baixos, Suíça e Emirados Árabes Unidos lideram o ranking, além do Vietnã – único país com população significativa. No extremo oposto, economias com grandes mercados internos – EUA, China, Índia, Brasil, Indonésia e Japão – apresentam os menores índices. 

                          Quem tem mercado grande tende a ter integração para frente menor, pois o mercado doméstico acaba sendo o destino principal do valor adicionado gerado pelas empresas domésticas. Note que países com mercados internos gigantescos e dinâmicos, como EUA e China, podem ter indústrias muito fortes com indicadores baixos de integração para frente em vários setores exibidos na tabela anexa, porém isso não significa isolamento, mas sim que a maior parte do valor adicionado gerado pela indústria é absorvida pelo seu próprio e massivo mercado de consumo doméstico. 

                          China e EUA são os dois maiores exportadores mundiais, sobretudo nos setores de maior intensidade tecnológica. Então, não é por falta de penetração externa que esses países apresentam baixos indicadores exibidos na tabela, é porque seus mercados consumidores são imensos, assim a indústria local apresenta baixa dependência da demanda estrangeira. 

                          Já países relativamente menores tem uma dependência maior da demanda final estrangeira. 90% da indústria de transformação irlandesa depende da demanda de mercados internacionais. Na economia mundial, a dependência da demanda estrangeira foi de 37% em 2022, contra 28% em 1995. As maiores economias europeias (Alemanha, Reino Unido, França e Itália), as quais possuem uma estrutura produtiva fortemente fragmentada e integrada entre si, apresentam pontuações entre 47,6% (Reino Unido) e 58% (Alemanha).

                          No Brasil, o indicador cresceu de 13,2% para 25,3% entre 1995 e 2022. Apesar do aumento significativo, o grau de integração para frente nas CGV de produtos da indústria de transformação brasileira ainda se encontra abaixo da economia mundial (37%), porém, próximo dos países com grandes mercados consumidores, evidenciando que o valor adicionado gerado pela indústria doméstica tem relativamente baixa dependência da demanda estrangeira. Mas há especificidades setoriais significativas, conforme exibido na tabela. O Brasil é muito integrado para frente, acima da média mundial, em setores produtores de produtos primários ou com alta intensidade no uso de recursos naturais e agropecuários.

                          Assim, o Brasil tem grau de integração para frente elevada e acima do patamar de integração da economia mundial na agropecuária, indústria extrativa, indústria de alimentos, produtos de madeira, papel e celulose. Além disso, tem integração para frente próxima do patamar mundial em metalurgia e minerais não-metálicos. 

                          Observa-se que o perfil de integração para frente do Brasil nas CGV é como fornecedor de matérias-primas e insumos industriais com baixo grau de processamento – setores que ocupam os primeiros elos das principais cadeias produtivas globais. Como o mundo consome de forma colossal produtos finais que carregam matérias-primas minerais, energéticas ou agrícolas em suas cadeias, a dependência do VA brasileiro em relação ao mercado externo é alta. Já nos setores de maior intensidade tecnológica, como informática e eletrônicos, o VAD brasileiro é absorvido majoritariamente pelo mercado doméstico – e não pela demanda estrangeira.

                          Essa configuração posiciona o Brasil na parte mais baixa da chamada “Curva do Sorriso” em forma de U – aquela que representa as etapas de menor valor adicionado por unidade produzida, concentradas na extração e no beneficiamento primário de recursos naturais. Os países europeus, o Japão e a Coreia, por sua vez, figuram nas extremidades superiores da curva, com forte integração para frente em setores manufatureiros de maior intensidade tecnológica – fruto da atuação em etapas e tarefas envolvendo design, pesquisa, marcas próprias, serviços sofisticados pós-venda e etapas de transformação industrial de alto valor adicionado.

                          O tipo de inserção para frente do Brasil nas CGV assemelha-se ao observado em Rússia, Chile, Arábia Saudita e, em menor grau, Colômbia e Indonésia – economias integradas ao mercado mundial primariamente como fornecedoras de commodities e insumos industriais básicos com alta intensidade em recursos naturais, se destacando em setores que estão no início das principais cadeias produtivas.

                          Em síntese, o Brasil não está desconectado das CGV, mas participa delas em posição estruturalmente mais vulnerável que os países avançados ao fornecer as matérias-primas que sofrerão várias rodadas de agregação de valor no exterior, e participa pouco em produtos de maior complexidade tecnológica – os quais geram maior prosperidade econômica em termos de salários maiores e alto potencial inovativo.

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                          Publicado em: 12/05/2026

                          Nesta Carta IEDI, chamamos atenção para um aspecto que tem motivado menos debate do que a desindustrialização do Brasil que é a redistribuição da atividade industrial no território nacional.

                          Carta IEDI
                          Carta IEDI n. 1360 - Reação das exportações industriais de alta tecnologia
                          Publicado em: 06/05/2026

                          No 1º trim/2026, o aumento do déficit da indústria de transformação foi amortecido pelo desempenho favorável das exportações de bens de alta intensidade tecnológica.

                          Carta IEDI
                          Carta IEDI n. 1359 - Novo teste à resiliência da economia global
                          Publicado em: 30/04/2026

                          A guerra no Irã é mais um teste à resiliência da economia global, ainda que, segundo o FMI, seu impacto adverso tenda a ser parcialmente mitigado pela acomodação do ímpeto protecionista dos EUA, após decisão da Suprema Corte.

                          Carta IEDI
                          Carta IEDI n. 1358 - 15º Plano Quinquenal da China: aposta redobrada na indústria e tecnologia
                          Publicado em: 24/04/2026

                          O 15º Plano Quinquenal da China coloca a modernização industrial, inovação e autossuficiência tecnológica como espinha dorsal de seu desenvolvimento com implicações para o Brasil e o mundo.

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