Carta IEDI
Bens de capital: freio da produção industrial no 1º trim/26
A indústria brasileira ficou praticamente estagnada em mar/26 frente a fevereiro, com variação de apenas +0,1% na série livre de efeitos sazonais, depois de dois meses de crescimento. O sinal, porém, foi pouco disseminado entre seus ramos, sendo que 64% deles perderam produção neste final de trimestre.
Ainda nesta comparação mais de curto prazo, a perda de dinamismo atingiu sobretudo bens de capital, que tinham crescido perto de +3% nos dois primeiros meses do ano e agora em mar/26 registrou apenas +0,6%, e bens intermediários, cujas altas acima de +1%, deram lugar a uma variação de +0,5%, com ajuste sazonal.
Bens de consumo semi e não duráveis também cresceram menos (+0,4%), mas repetiram o ritmo modesto do mês anterior (+0,6%). Apenas bens de consumo duráveis conseguiu se sair um pouco melhor do que em fev/26: +1,7% ante +1,2%.
No acumulado do primeiro trimestre de 2026, um efeito calendário positivo em mar/26 retirou a indústria como um todo do vermelho. Cresceu +1,3% frente a igual período de 2025, revertendo a retração de -0,7% do quarto trimestre do ano passado.
Três dos seus quatro macrossetores avançaram, mas a produção de bens de capital, afetada pelos juros elevados, ficou para trás, como mostram as variações interanuais a seguir.
•Indústria geral: +2,0% no 1º trim/25; +0,5% no 2º, +0,5% no 3º trim/25, -0,7% no 4º trim/25 e +1,3% no 1º trim/26.
•Bens de capital: +4,3%; -2,8%; -2,5%; -5,3% e -6,3%, respectivamente
•Bens intermediários: +1,3%; +2,9%; +2,5%; -0,9% e +1,7%;
•Bens de consumo duráveis: +11,1%; +5,2%; -1,7%; -3,1% e +1,6%;
•Bens de consumo semi e não duráveis: +1,5%; -5,1%; -3,2%; +0,8% e +1,8%, respectivamente.
O caso de bens de capital merece destaque porque é o elo mais vulnerável ao quadro atual de elevadas taxas de juros e o de maior relevância para a trajetória do investimento. Sua queda de -6,3% em jan-mar/26 significou o quarto trimestre consecutivo no vermelho e foi puxada sobretudo por bens de capital para uso misto (-14,2%) e para agricultura (-13,9%), mas também por recuos em bens para indústria (-5,3%) e para construção (-5,3%).
Houve perdas menores em bens de capital para transporte (-2,1%) e energia (-0,6%). O resultado sugere que os juros elevados seguem comprimindo decisões de investimento e compra de máquinas, prejudicando justamente o macrossetor com maior capacidade de modernização produtiva da economia, com efeitos positivos sobre a produtividade de que o país tanto precisa.
Nos bens intermediários, o desempenho foi melhor, com alta de +1,7% no trimestre, mas também após um trimestre de retração no final do ano passado. Os principais avanços vieram de intermediários de alimentos (+3,4%) e de derivados de petróleo (+0,5%), ao passo que insumos para construção civil (-4,8%), defensivos agrícolas (-4,6%) e celulose (-4,1%) recuaram.
Os bens de consumo duráveis avançaram +1,6%, interrompendo a sequência negativa do segundo semestre de 2025, mas com composição heterogênea. Automóveis (+11,1%) e outros equipamentos de transporte (+9,7%) lideraram a expansão, enquanto eletrodomésticos (-9,5%) e mobiliário (-1,8%) permaneceram em baixa.
Por fim, bens de consumo semi e não duráveis cresceram +1,8%, o melhor resultado entre os macrossetores no trimestre. Apesar disso, segmentos como calçados (-7,0%) e vestuário (-6,5%), assim como têxteis (-6,3%), tiveram quedas expressivas sob influência do peso das dívidas das famílias, já que o dinamismo de seus mercados consumidores implica algum recurso ao crédito. A produção de álcool e gasolina carburantes (-0,9%) também recuou, o que pode se aprofundar dada a pressão sobre os preços derivada do conflito no Irã.
Assim, o início de 2026 trouxe algum fôlego para a indústria, mas sem dissipar o quadro de baixo dinamismo imposto pelos níveis elevados de taxas de juros. O investimento produtivo segue enfraquecido, comprometendo o desempenho de bens de capital e dificultando uma recuperação mais disseminada.
Resultados da Indústria
Em mar/26, a produção industrial brasileira registrou avanço de +0,1% frente ao índice de fev/26 na série com ajuste sazonal, marcando, dessa forma, o terceiro mês seguido com taxa positiva, período em que acumulou ganho de +3,1%. Cabe destacar, entretanto, que esse foi o menor aumento do ano, visto que nos meses anteriores a variação foi de +0,9% (fev/26) e +2,1% (jan/26).
Na série sem ajuste sazonal, no confronto com mar/25, o total da indústria assinalou expansão de +4,3%, após recuar -0,7% em fev/26. Três dias úteis a mais em mar/26 gerou um efeito calendário positivo que contribuiu para o setor voltar a crescer nesta comparação. Com isso, no indicador acumulado para os três primeiros meses de 2026, o setor industrial apontou crescimento de +1,3%. A taxa anualizada, indicador acumulado nos últimos doze meses, cresceu +0,4% no mês de mar/26, permanecendo com resultado positivo.
A variação positiva de +0,1% da atividade industrial na passagem de fev/26 para mar/26 na série com ajuste sazonal foi impulsionada pelos resultados positivos em todos os quatro macrossetores. Bens de consumo duráveis (+1,7%) assinalou a expansão mais elevada do mês e marcou a terceira taxa positiva consecutiva, período em que acumulou crescimento de +9,9%. Os setores produtores de bens de capital (+0,6%), bens intermediários (+0,5%) e bens de consumo semi e não duráveis (+0,4%) também tiveram resultados positivos, com todos apontando o terceiro mês seguido de avanço na produção, período em que acumularam ganhos de +6,4%, +4,1% e +2,4%, respectivamente.
Na comparação mês/mesmo mês do ano anterior, o acréscimo de +4,3% da indústria total em mar/26 foi puxado por todos os macrossetores: bens de consumo duráveis (+18,7%) assinalou a expansão mais acentuada, seguido por bens de capital (+6,5%), bens de consumo semi e não duráveis (+4,6%) e bens intermediários (+2,9%). Cabe lembrar o efeito calendário positivo influenciando este resultado.
O setor produtor de bens de consumo duráveis, ao apresentar expansão de +18,7% em mar/26 frente a igual mês do ano anterior, interrompeu quatro meses consecutivos de queda e marcou a taxa positiva mais elevada desde nov/24 (+19,2%). O setor foi impulsionado pela maior fabricação de automóveis (+38,9%), eletrodomésticos da “linha marrom” (+15,8%) e da “linha branca” (+12,7%), de motocicletas (+34,7%) e de móveis (+11,4%). Por outro lado, o principal impacto negativo foi assinalado por outros eletrodomésticos (-22,3%).
A produção de bens de capital avançou +6,5% na mesma base de comparação, interrompendo nove meses consecutivos de taxas negativas. O macrossetor foi influenciado pelos avanços nos grupamentos de bens de capital para equipamentos de transporte (+10,0%), para fins industriais (+4,6%), para construção (+8,0%) e para energia elétrica (+3,3%). Por outro lado, os subsetores de bens de capital agrícolas (-8,5%) e de uso misto (-1,7%) assinalaram os impactos negativos no índice mensal de mar/26.
Ainda no confronto com igual mês do ano anterior, o segmento de bens de consumo semi e não duráveis teve crescimento de +4,6% em mar/26, após recuar -0,5% no mês anterior. O desempenho foi explicado pelos avanços observados nos setores de alimentos e bebidas elaborados para consumo doméstico (+5,5%), não duráveis (+4,1%), semiduráveis (+4,3%) e carburantes (+3,8%). Por outro lado, o grupamento de alimentos e bebidas básicos para consumo doméstico (-34,2%) apontou a única taxa negativa.
Os bens intermediários, por sua vez, tiveram avanço de +2,9% frente a mar/25, a terceira taxa positiva consecutiva e a mais elevada desde set/25 (+3,4%). O resultado foi explicado pela maior produção na indústria extrativa (+4,7%), coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+4,4%), produtos alimentícios (+5,0%), veículos automotores, reboques e carrocerias (+6,9%), produtos de borracha e de material plástico (+3,0%), produtos de metal (+3,0%), produtos de minerais não metálicos (+1,7%), produtos químicos (+0,9%) e produtos têxteis (+3,5%), enquanto as pressões negativas foram registradas por celulose, papel e produtos de papel (-6,2%), metalurgia (-0,4%) e máquinas e equipamentos (-0,5%).
Na análise trimestral, o movimento de maior dinamismo na passagem do 4º trim/25 para os três primeiros meses de 2026 foi verificado em três das quatro grandes categorias econômicas: bens de consumo duráveis (de -3,1% para +1,6%), bens intermediários (de -0,9% para +1,7%) e bens de consumo semi e não duráveis (de +0,8% para +1,8%). Por outro lado, o segmento de bens de capital (de -5,3% para -6,3%) apontou a única perda de dinamismo e permaneceu com o comportamento negativo iniciado no 2º trim/25.
No índice acumulado para jan-mar/26, frente a igual período do ano anterior, o setor industrial assinalou avanço de +1,3%, com resultados positivos em três das quatro grandes categorias econômicas: bens de consumo semi e não duráveis (+1,8%), bens intermediários (+1,7%) e bens de consumo duráveis (+1,6%).
Por outro lado, o setor produtor de bens de capital (-6,3%) assinalou a única taxa negativa no indicador acumulado no primeiro trimestre do ano, pressionado, em grande medida, pela menor produção de bens de capital para fins industriais (-5,3%), de uso misto (-14,2%), agrícolas (-13,9%) e para equipamentos de transporte (-2,1%).
Por dentro da Indústria de Transformação
A produção do total da indústria brasileira assinalou crescimento de +0,1% em mar/26 frente a fev/26 na série livre dos efeitos sazonais. Neste mês, a indústria de transformação decresceu -0,1% nesta comparação, enquanto a produção da indústria extrativa avançou +0,1%.
Na comparação com mar/25, o resultado de +4,3% da indústria geral foi puxada pela indústria de transformação (+4,2%) e pela indústria extrativa (+4,7%).
No resultado frente a fev/26, com ajuste sazonal, observa-se avanços em 8 dos 25 ramos industriais pesquisados. Entre as atividades, as influências positivas mais importantes foram assinaladas por coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+2,2%), produtos químicos (+4,0%), veículos automotores, reboques e carrocerias (+1,1%), metalurgia (+1,2%) e máquinas e equipamentos (+1,0%).
Por outro lado, entre as dezesseis atividades que mostraram recuo na produção, bebidas (-2,9%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-3,9%), móveis (-6,0%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (-4,1%), produtos alimentícios (-0,5%), manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (-3,9%), celulose, papel e produtos de papel (-1,3%), equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-2,3%), produtos de madeira (-4,4%) e produtos de borracha e de material plástico (-1,1%) exerceram as principais influências negativas.
Na comparação com mesmo mês de 2025, o setor industrial assinalou variação de +4,3% em mar/26, com resultados positivos em 19 dos 25 ramos, 46 dos 80 grupos e 55,6% dos 789 produtos pesquisados. Vale citar que março de 2026 (22 dias) teve 3 dias úteis a mais que igual mês do ano anterior (19).
Entre as atividades, as principais influências positivas na indústria de transformação foram registradas por veículos automotores, reboques e carrocerias (+18,7%), produtos alimentícios (+5,7%), coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+4,2%), equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (+9,3%), outros equipamentos de transporte (+11,3%), produtos de borracha e de material plástico (+3,9%), produtos diversos (+13,5%), produtos químicos (+1,7%), móveis (+9,9%) e produtos farmoquímicos e farmacêuticos (+4,2%).
Por outro lado, entre as atividades que apontaram redução na produção, a de celulose, papel e produtos de papel (-4,5%) exerceu a maior influência na formação da média da indústria.
No índice acumulado para jan-mar/26, frente a igual período do ano anterior, o setor industrial assinalou variação positiva de +1,3%, com resultados positivos em 10 dos 25 ramos, 26 dos 80 grupos e 44,0% dos 789 produtos pesquisados.
Entre as atividades, as principais influências positivas foram registradas por produtos alimentícios (+2,6%), produtos farmoquímicos e farmacêuticos (+14,3%), coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+2,1%), veículos automotores, reboques e carrocerias (+2,2%) e de bebidas (+3,3%). Por outro lado, entre as atividades que apontaram redução na produção, a de máquinas e equipamentos (-9,4%) exerceu o maior impacto na formação da média da indústria.
Utilização de Capacidade
A utilização da capacidade instalada da indústria de transformação, acordo com a série da FGV com ajustes sazonais, cresceu +0,8 p.p. na passagem de fev/26 para mar/26, registrando patamar de 82,4%. Em abr/26, a capacidade instalada apresentou avanço novamente +0,8 p.p., ficando em 83,2%.
De acordo com os dados da CNI, a utilização da capacidade instalada cresceu +0,3 p.p. entre fev/26 e mar/26 (77,8%), considerando os dados livres de efeitos sazonais. Na comparação entre mar/25 e mar/26, essa variável registrou decréscimo de –0,4 pontos percentuais.
Estoques
De acordo com os dados da Sondagem Industrial da CNI, o indicador da evolução dos estoques de produtos da indústria total ficou em 48,8 pontos em mar/26, ficando praticamente estável (-0,1 ponto) frente a fev/26. No caso do segmento da indústria de transformação, o indicador da CNI foi de 48,8 pontos em fev/26 para 48,6 pontos em mar/26. A indústria extrativa, por sua vez, avançou +4,3 p.p, (52,8 pontos) no mesmo período.
Para a indústria geral, o indicador de satisfação dos estoques ficou praticamente estável, indo de 49,6 pontos em fev/26 para 49,5 pontos em mar/26, sinalizando que os estoques estão menores que o desejado. Cabe lembrar que o nível de equilíbrio é de 50,0 pontos, visto que acima desse valor há excesso de estoques e abaixo dele, estoques menores do que o desejado. No caso do setor extrativo e no caso da indústria de transformação, o indicador de satisfação registrou 51,8 pontos e 49,5 pontos, respectivamente.
Em mar/26, 28% dos ramos industriais apresentaram estoques maiores do que o planejado (acima de 50 pontos), metade do resultado do mês anterior (56,0%). Entre os ramos acima de 50 pontos em mar/26 destacaram-se: manutenção e reparação (58,3 pontos), biocombustíveis (56,7 pontos), couros (55,8 pontos), calçados (54,8 pontos), celulose e papel e farmacêuticos (ambos com 53,6 pontos) e móveis (53,0 pontos).
Por outro lado, ficaram abaixo e mais distantes do equilíbrio os seguintes ramos: impressão e reprodução (38,5 pontos), bebidas (42,2 pontos), madeira (43,8 pontos), metalurgia (44,3 pontos) e minerais não metálicos (44,9 pontos).
Confiança e Expectativas
O Índice de Confiança do Empresário da Indústria de Transformação da CNI registrou 46,3 pontos em abr/26, caindo -1,2 p.p. frente a mar/26. Na passagem de mar/26 para abr/26, o componente referente às expectativas em relação ao futuro foi de 49,9 para 48,9 pontos, ficando na zona de pessimismo. O componente que capta a percepção dos empresários quanto a evolução presente dos negócios caiu –1,7 p.p., mantendo-se na região pessimista (41,1 pontos).
O Índice de Confiança da Indústria de Transformação (ICI) da FGV recuou –0,8 p.p. na passagem de mar/26 para abr/26, registrando 96,0 pontos, ficando ainda na região de pessimismo, ou seja, abaixo de 100 pontos.
O resultado de mar/26 foi influenciado pela queda tanto do seu componente referente às expectativas futuras, que passou de 96,4 pontos para 95,5 pontos em abr/26, quanto do índice da situação atual, que caiu de 97,2 pontos para 96,5 pontos.
Outro indicador utilizado para avaliar a perspectiva do dinamismo da indústria é o Purchasing Managers’ Index – PMI Manufacturing, calculado pela consultoria Markit Financial Information Services, teve movimento contrário. Em mar/26, ficou em 49,0 pontos, avançando para 52,6 pontos em abr/26, indicando melhora do quadro de negócios do setor.















