Carta IEDI
A desaceleração industrial de 2025
O ano de 2025 terminou com a indústria brasileira de volta ao vermelho no último trimestre, freada sobretudo pelos ramos produtores de bens de capital e de consumo duráveis, refletindo claramente o peso da conjuntura de elevadas taxas de juros sobre o setor. Conjuntura esta que adentra 2026 sem nenhuma alteração, dada a manutenção da Selic em 15% ao ano na reunião do COPOM de jan/26.
O resultado no acumulado de 2025 foi de +0,6%, completando assim três anos seguidos de sinal positivo no setor, algo que não ocorria desde 2006-2008, ou seja, há quase vinte anos. Não obstante, é nítido o contraste com o ritmo de crescimento de 2024, que foi de +3,1%. Para um setor que segue 13% abaixo do nível de produção de 2013 (anterior à crise de 2014-2016) esta inflexão é bastante decepcionante.
É importante notar, ainda, que não fosse o ramo extrativo (+4,9%), estimulado pela produção de petróleo, o desempenho teria sido pior. Tomada apenas a indústria de transformação, que exclui o referido ramo, a produção encolheu -0,2% no acumulado jan-dez/25.
Ademais, o desempenho total do ano esconde uma trajetória de rápida perda de dinamismo, levando o último trimestre a um quadro de contração. Isso interrompeu a trajetória positiva que o setor vinha sistematicamente apresentando desde o final de 2023.
No 1º trim/25, a produção da indústria geral ainda crescia a um ritmo razoável, de +2%, mas terminou o ano em -0,5% no 4º trim/25. Novamente, na indústria de transformação o freio foi mais intenso: de +2,6% para -1,9%, respectivamente.
Entre os quatro macrossetores, três perderam produção no último quarto do ano. Destaca-se a inflexão daqueles ramos mais sensíveis às taxas de juros, que reúnem a produção de bens de capital e bens de consumo duráveis. Em seu agregado, a alta de +6,1% no 1º trim/25 deu lugar a uma retração de -3,9% no 4º trim/25. Bens menos sensíveis aos juros registraram +0,5% no último trimestre.
O IEDI fez um levantamento bastante desagregado da indústria, somando noventa segmentos, além do ramo extrativo. No 4º trim/25, a parcela deles com quedas intensas não foi desprezível: chegou a 14% do total com variações negativas de dois dígitos. Biocombustíveis e a fabricação de caminhões e ônibus foram os piores casos. Avanços de dois dígitos, por outro lado, representaram apenas 6% do total de segmentos.
A produção de bens de capital concentrou muito dos efeitos negativos do aumento dos juros. Sua produção saiu de +4,5% para -5,0% do primeiro ao último trimestre de 2025. No total do ano, também ficou no vermelho (-1,5%), depois de uma alta de +9% em 2024.
Bens de capital para transporte (-12,9% no 4º trim/25), devido sobretudo à produção de caminhões e ônibus como mencionado anteriormente, estiveram entre as piores performances, seguidos por bens de capital para energia (-5,8%) e de uso misto (-2,6%).
Já o revés em bens de consumo duráveis foi ainda maior. No início de 2025 seguiu se expandindo a um ritmo de dois dígitos (+11,2% no 1º trim.), mas chegou ao último trimestre com declínio de -3,0%.
A produção de veículos leves assegurou o crescimento da primeira metade do ano, contribuindo para que no acumulado jan-dez/25 o agregado de bens de consumo duráveis não ficasse no vermelho (+2,5% ante +10,7% em 2024), o que não se sustentou posteriormente. No segundo semestre a produção de veículos caiu -1,4%, sendo acompanhada por eletrodomésticos (-5,1%) e móveis (-5,7%).
Em semi e não duráveis, o mercado de trabalho aquecido foi um fator positivo importante, embora não tenha mitigado totalmente outros condicionantes adversos. Ao todo, houve queda de -1,7% em 2025, com certa reação no último trimestre (+0,7%).
Impactos diferidos de fatores climáticos sobre a produtividade canavieira do centro sul, entre outras causas, reduziram a produção de etanol, impactando o ramo de combustíveis (-9% em jan-dez/25). Esta foi a maior contribuição negativa. Têxteis, vestuário e calçados também não se saíram bem.
Neste contexto de desaceleração, bens intermediários que fornecem insumos para o restante da indústria, deixaram se mostrar resiliência como vinham mostrando em 2025 e registraram -0,7% no último trimestre. Influenciaram esta reversão insumos para construção civil (-4,3%) e para a automobilística (-3,3%), derivados de petróleo (-8,6%) e defensivos agrícolas (-11,4%).
Para 2026, a expectativa de que a taxa Selic siga elevada (+12,25% a.a., segundo o boletim Focus/BC) não traz boas perspectivas. O grau de incerteza em torno das eleições também não deve ajudar. Muito provavelmente, a indústria terá, então, mais um ano morno.
Por outro lado, há mitigadores, como os investimentos em infraestrutura já “contratados” nas concessões e o quadro de baixo emprego, além de ações pontuais, a exemplo do programa Move Brasil, para renovação da frota de caminhões.
Resultados da Indústria
A produção industrial brasileira encerrou o ano de 2025 com queda de -1,2% no mês de dez/25 frente ao índice de nov/25 na série com ajuste sazonal, após apontar variação negativa de -0,2% no mês imediatamente anterior.
Em relação ao índice do mesmo mês de 2024, na série sem ajuste sazonal, o total da indústria avançou +0,4% em dez/25 e interrompeu dois meses consecutivos de taxas negativas: nov/25 (-1,4%) e out/25 (-0,5%). Dessa forma, a indústria brasileira fechou o 4º trim/25 com queda (-0,5%), enquanto no acumulado do 2º sem/25 teve variação nula (0,0%), ambas as comparações contra igual período do ano anterior.
No acumulado do ano de 2025, a atividade industrial cresceu apenas +0,6% frente ao ano anterior, após alta de +3,1% em 2024 e +0,1% em 2023.
O recuo de -1,2% da atividade industrial na passagem de nov/25 para dez/25 (série com ajuste sazonal) foi puxado pelos resultados negativos em todos os quatro macrossetores. Bens de capital (-8,3%) e bens de consumo duráveis (-4,4%) assinalaram as taxas negativas mais acentuadas do mês, seguidos por bens intermediários (-1,1%) e bens de consumo semi e não duráveis (-0,7%).
Na comparação mês/mesmo mês do ano anterior, o acréscimo de +0,4% da indústria total em dez/25 foi puxado por apenas um macrossetor: bens de consumo semi e não duráveis (+5,0%). Por outro lado, as categorias de bens de capital (-7,5%), bens de consumo duráveis (-3,5%) e bens intermediários (-0,9%) assinalaram as taxas negativas nesse mês.
O macrossetor produtor de bens de consumo semi e não duráveis mostrou variação positiva de +5,0% em dez/25, devido aos resultados nos grupamentos de não duráveis (+15,6%), alimentos e bebidas elaborados para consumo doméstico (+4,4%), alimentos e bebidas básicos para consumo doméstico (+45,8%) e carburantes (+0,1%). Por outro lado, o grupamento de semiduráveis (-1,9%) apontou o único resultado negativo.
Os bens de capital recuaram – 7,5% em dez/25 frente a igual período do ano anterior, a sétima taxa negativa consecutiva neste tipo de comparação. O segmento foi influenciado pelo recuo observado no grupamento de bens de capital para equipamentos de transporte (-15,8%), de uso misto (-12,0%), para energia elétrica (-7,7%) e para fins industriais (-1,4%). Por outro lado, os subsetores de bens de capital para construção (+29,6%) e agrícolas (+11,7%) assinalaram os impactos positivos.
O setor de bens de consumo duráveis, por sua vez, decresceu -3,5% em dez/25 frente a dez/24, a segunda taxa negativa consecutiva. Para esse resultado, destaca-se a influência negativa dos setores produtores de eletrodomésticos da “linha marrom” (-15,8%), automóveis (-0,9%), motocicletas (-3,7%) e pelos grupamentos de outros eletrodomésticos (-11,9%) e de móveis (-8,7%). Por outro lado, o principal impacto positivo veio da maior produção de eletrodomésticos da “linha branca” (+1,8%).
Ainda na comparação com dez/24, os bens intermediários tiveram recuo de -0,9%. O resultado foi explicado pelos recuos da produção de produtos químicos (-9,8%), coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-6,7%), metalurgia (-4,5%), produtos de metal (-6,5%), produtos têxteis (-12,5%), máquinas e equipamentos (-8,9%), celulose, papel e produtos de papel (-2,6%) e produtos de minerais não metálicos (-1,9%), enquanto produtos alimentícios (+3,0%) e produtos de borracha e de material plástico (+5,1%) assinalaram as variações positivas.
Em bases trimestrais, o setor industrial assinalou queda de -0,5% no período out-dez/25, interrompendo a trajetória positiva iniciada no 4º trim/23 (+1,1%), todas as comparações contra igual período do ano anterior.
O movimento de menor dinamismo na passagem do 3º trim/25 (+0,5%) para o 4º trim/25 (-0,5%) foi verificado em três dos quatro macrossetores: bens intermediários (de +2,4% para -0,7%), bens de capital (de -2,5% para –5,0%) e bens de consumo duráveis (de -1,7% para -3,0%), enquanto o segmento de bens de consumo semi e não duráveis (de -3,0% para +0,7%) foi o único que apontou ganho e interrompeu dois trimestres consecutivos de resultados negativos.
No acumulado do ano de 2025, o setor industrial teve avanço de +0,6%, com resultados positivos em duas das quatro grandes categorias econômicas, com maior dinamismo para os bens de consumo duráveis (+2,5%) e bens intermediários (+1,5%). Por outro lado, os setores produtores de bens de consumo semi e não duráveis (-1,7%) e de bens de capital (-1,5%) assinalaram as taxas negativas.
Por dentro da Indústria de Transformação
A produção do total da indústria brasileira assinalou queda de -1,2% em dez/25 frente a nov/25 na série livre dos efeitos sazonais. Neste mês, a indústria de transformação recuou -1,9% nesta comparação, enquanto a produção da indústria extrativa avançou +0,9%.
Na comparação com dez/24, o resultado de +0,4% da indústria geral foi puxada pela indústria extrativa, que teve alta de +7,0%, sendo que a indústria de transformação apontou queda de -1,0%. No acumulado de 2025, o resultado de +0,6% na indústria geral, deveu-se pelo desempenho do ramo extrativo (+4,9%), visto que a indústria de transformação recuou -0,2% no mesmo período.
No resultado frente a nov/25, com ajuste sazonal, observa-se predomínio de taxas negativas, alcançando 17 dos 25 ramos pesquisados. Entre as atividades, as influências negativas mais importantes na indústria de transformação foram assinaladas por veículos automotores, reboques e carrocerias (-8,7%), produtos químicos (-6,2%) e metalurgia (-5,4%).
Por outro lado, entre as atividades que mostraram avanço na produção, coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+5,4%) exerceu o principal impacto na média da indústria, seguida por produtos farmoquímicos e farmacêuticos (+6,7%).
Na comparação com mesmo mês de 2024, o setor industrial assinalou variação de +0,4% em dez/25, com resultados positivos em 10 dos 25 ramos, 33 dos 80 grupos e 47,3% dos 789 produtos pesquisados. Vale citar que dez/25 (22 dias) teve 1 dia útil a mais que igual mês do ano anterior (21).
Entre as atividades, as principais influências positivas na indústria de transformação foram registradas por produtos alimentícios (+5,5%), produtos farmoquímicos e farmacêuticos (+28,6%), produtos de borracha e de material plástico (+4,7%), manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (+9,7%), produtos diversos (+11,0%), máquinas e equipamentos (+2,4%) e artefatos de couro, artigos para viagem e calçados (+6,3%).
Por outro lado, ainda na comparação com dez/24, entre as atividades que apontaram redução na produção, coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-4,6%), produtos químicos (-7,1%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (-8,0%) exerceram as maiores influências negativas.
No índice acumulado para jan-dez/25, frente a igual período do ano anterior, o setor industrial assinalou avanço de + 0,6%, com resultados positivos em 15 dos 25 ramos, 42 dos 80 grupos e 49,6% dos 789 produtos pesquisados.
Entre as atividades, as principais influências positivas foram: produtos alimentícios (+1,5%), máquinas e equipamentos (+5,0%), manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (+9,6%), metalurgia (+1,6%), produtos têxteis (+5,6%), produtos químicos (+1,0%), produtos de borracha e de material plástico (+1,5%) e produtos farmoquímicos e farmacêuticos (+2,3%).
Por outro lado, entre as atividades que apontaram redução na produção, a de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (- 5,3%) exerceu a maior influência negativa, seguida por bebidas (-2,6%), produtos de metal (-2,2%), produtos de madeira (-6,0%) e equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-3,1%).
Utilização de Capacidade
A utilização da capacidade instalada da indústria de transformação, acordo com a série da FGV com ajustes sazonais, ficou praticamente estável (+0,1 p.p.) na passagem de nov /25 para dez/25, registrando patamar de 79,9%. Em jan/26, a capacidade instalada apresentou avanço de +1,3 p.p., ficando em 81,3%.
De acordo com os dados da CNI, a utilização da capacidade instalada recuou -0,4 p.p. entre novembro e dezembro de 2025 (76,8%), considerando os dados livres de efeitos sazonais. Na comparação entre dez/24 e dez/25, essa variável registrou decréscimo de -2,7 pontos percentuais.
Estoques
De acordo com os dados da Sondagem Industrial da CNI, o indicador da evolução dos estoques de produtos da indústria total ficou em 48,4 pontos em dez/25, recuando -1,1 ponto frente a nov/25. No caso do segmento da indústria de transformação, o indicador da CNI foi de 49,5 pontos em nov/25 para 48,4 pontos em dez/25. A indústria extrativa também recuou, porém em maior medida que a indústria de transformação (-2,3 p.p, 46,4 pontos) no mesmo período.
Para a indústria geral, o indicador de satisfação dos estoques ficou estável, indo de 50,7 pontos em nov/25 para 50,6 pontos em dez/25, sinalizando que os estoques estão maiores que o desejado. Cabe lembrar que o nível de equilíbrio é de 50,0 pontos, visto que acima desse valor há excesso de estoques e abaixo dele, estoques menores do que o desejado. No caso do setor extrativo e no caso da indústria de transformação, o indicador de satisfação registrou 48,0 pontos e 50,7 pontos, respectivamente.
Em dez/25, 32% dos ramos industriais apresentaram estoques maiores do que o planejado (acima de 50 pontos), mesmo resultado do mês anterior. Entre os ramos acima de 50 pontos em dez/25 destacaram-se: couros (58,3 pontos), calçados (56,7 pontos), celulose e papel (56,4 pontos), têxteis (56,1 pontos), biocombustíveis (53,3 pontos), alimentos (52,0 pontos) e farmacêuticos (51,8 pontos).
Por outro lado, ficaram abaixo e mais distantes do equilíbrio os seguintes ramos: bebidas (38,5 pontos), impressão e reprodução (40,0 pontos), produtos diversos (41,7 pontos), madeira (46,7 pontos) e vestuário (46,9 pontos).
Confiança e Expectativas
O Índice de Confiança do Empresário da Indústria de Transformação da CNI registrou 48,5 pontos em jan/26, crescendo 0,5 p.p. frente a dez/25. Na passagem de dez/25 para jan/26, o componente referente às expectativas em relação ao futuro foi de 50,9 para 51,4 pontos, ficando na zona de otimismo. O componente que capta a percepção dos empresários quanto a evolução presente dos negócios, também cresceu (+0,2 p.p.), porém mantendo-se na região pessimista (44,0 pontos).
O Índice de Confiança da Indústria de Transformação (ICI) da FGV cresceu +3,5 p.p na passagem de dez/25 para jan/26, registrando 96,1 pontos, ficando ainda na região de pessimismo, ou seja, abaixo de 100 pontos.
O resultado de jan/26 foi influenciado pela alta do seu componente referente às avaliações atuais, que passou de 92,3 pontos para 96,4 pontos em jan/26, e do índice das expectativas futuras, que foi de 93,0 pontos para 95,7 pontos.
Outro indicador utilizado para avaliar a perspectiva do dinamismo da indústria é o Purchasing Managers’ Index – PMI Manufacturing, calculado pela consultoria Markit Financial Information Services. Em dez/25, ficou em 47,6 pontos, avançando para 48,1 pontos em jan/26, indicando pequena melhora do quadro de negócios do setor.

















