IEDI na Imprensa - Recuperações judiciais devem crescer em 2027
O Estado de São Paulo
Sob forte estresse financeiro, empresas esperam definições sobre a política econômica da nova gestão petista
Luiz Guilherme Gerbelli Renée Pereira
Nos últimos meses, Cláudio Damasceno, sócio das consultorias RGF-Bizdoc, se debruçou sobre oito cadeias produtivas para projetar a expansão das recuperações judiciais até o fim do ano que vem. São elas: agronegócio, comércio varejista, química e petroquímica, transportes e logística, alimentos e bebidas, construção e engenharia, energia elétrica e gás e metalurgia e produtos de metal.
O estudo apontou que, nessas oito cadeias, havia 4.581 empresas em recuperação judicial até 30 de junho. E esse número deve alcançar 5.554 no fim de 2027 no cenário base – em que a Selic cai para 13,25%, em dezembro, e para 11,5% em dezembro de 2027. A alta deve ser impulsionada sobretudo pelo setores de transportes e logística, seguido de metalurgia e produtos de metal e agronegócio.
Para o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados, as empresas devem chegar ao fim do ano sob forte estresse financeiro, em um cenário de crédito já restrito. Segundo ele, a perspectiva para a concessão de empréstimos depende, antes de tudo, das expectativas em relação à economia. “A concessão de crédito, assim como o restante das atividades da economia, depende, antes de qualquer coisa, da expectativa futura sobre o que vai acontecer. Se a expectativa é de melhora, porque tem um programa (fiscal) que permite pensar que a taxa de juros vai baixar, rolar a dívida a um custo razoável fica muito mais fácil do que estamos vendo hoje”, diz.
ALTERNATIVAS DIFÍCEIS. Na avaliação do economista, as empresas enfrentam duas alternativas difíceis: conseguir renegociar ou apenas renovar suas dívidas a juros muito elevados, o que mantém os negócios sob risco financeiro, ou não obter crédito e acabar recorrendo à recuperação judicial.
Nesse cenário, o que empresários e investidores discutem hoje é como será a formação da equipe econômica do próximo governo Lula e as medidas que se espera que sejam anunciadas para as contas públicas. Por ora, dois nomes aparecem como os mais cotados para ocupar o posto de ministro da Fazenda: o do governador reeleito no Piauí, Rafael Fonteles (PT), e o do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
Em entrevista na semana passada ao Estadão, Fonteles disse que não conversou com o presidente Lula sobre cargos no governo e que a próxima gestão petista fará equilíbrio fiscal com corte em privilégios, mas sem mexer em programas sociais.
“A economia é uma ciência social, não é ciência exata. Então, a gente tem de respeitar todas as opiniões de todo mundo. Obviamente, a trajetória da dívida pública tem de ser sustentável em algum horizonte de tempo. Então, esse é o ponto principal para que a gente consiga reduzir a taxa de juros e para que haja crescimento econômico”, disse Fonteles, na entrevista.
A possibilidade de renegociar as dívidas a um custo menor, porém, depende também das expectativas em relação à política econômica do próximo governo. Nesse sentido, o resultado da eleição
“A concessão de crédito, assim como outras atividades da economia, depende, antes de tudo, da expectativa sobre o que vai acontecer. Se a expectativa é de melhora, porque tem um programa que permite pensar que a taxa de juros vai baixar, rolar a dívida a um custo razoável fica muito mais fácil do que vemos hoje” José Roberto Mendonça de Barros Sócio da MB Associados
“Nós advogamos por uma estratégia mais gradualista (no ajuste fiscal) justamente pelos efeitos negativos que isso pode ter sobre o crescimento econômico e, consequentemente, sobre a demanda das empresas. O ideal é fazer um mix para que não se deprima demais a demanda, mas reduzindo custo de capital” Rafael Cagnin Economista-chefe do IEDI
presidencial pegou boa parte das empresas e do mercado financeiro no contrapé. Com o senador Flávio Bolsonaro (PL) favorito na disputa do segundo turno, havia uma expectativa de que os juros pudessem recuar de forma mais acelerada caso ele saísse vitorioso da disputa.
Embora tenha feito uma série de promessas públicas para ampliar os gastos do governo, a equipe econômica que acompanha Flávio defendia em conversas reservadas com empresários e investidores um ajuste das contas públicas, o que, na visão de economistas, poderia ajudar a derrubar os juros de maneira mais rápida.
A reeleição do presidente Lula, no entanto, deve alterar as expectativas para a trajetória dos juros no País. Nesta semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne para definir se corta ou não a Selic, atualmente em 13,75% ao ano. Antes da eleição, a aposta era de uma redução de 0,25 ponto porcentual, mas a vitória de Lula na disputa presidencial tem levado parte do mercado a rever a possibilidade de queda.
“Nós advogamos por uma estratégia um pouco mais gradualista (no ajuste fiscal) justamente pelos efeitos negativos que isso pode ter sobre o crescimento econômico e, consequentemente, sobre a demanda das empresas”, afirma Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial.
“O ideal é fazer um mix para que não se deprima demais a demanda, retirando receita operacional das empresas, mas que ocorra de tal modo a reduzir custo de capital. O que ainda não ficou claro é como esse tema vai correr dentro do governo à medida que forem se formatando os ministérios”, acrescenta.
