IEDI na Imprensa - Venda de valor agregado mais alto para EUA amplia perdas com tarifaço
Valor Econômico
Exportações para Estados Unidos se concentram em produtos industrializados
Lucianne Carneiro
Um dos custos do tarifaço dos Estados Unidos para a economia brasileira é o fato de as exportações para o mercado americano terem participação mais ampla de produtos de maior valor agregado do que a média das vendas externas do país para o mundo. Esse diagnóstico pode ser observado por diferentes classificações internacionais de atividades econômicas usadas para acompanhar o perfil das relações comerciais entre os países.
O perfil de vendas com maior proporção de itens mais complexos no intercâmbio com os Estados Unidos torna ainda mais intensas as perdas do Brasil com a sobretaxa nas vendas ao mercado americano, dizem especialistas. Alertam também que a medida pode até acentuar a tendência de desindustrialização em curso pela indústria brasileira nos últimos anos.
Os dados de comércio exterior para o primeiro semestre de 2025 confirmam o perfil mais concentrado na indústria de transformação nas vendas para os EUA. Das vendas para os Estados Unidos no período, 80,2% foram da indústria de transformação, enquanto na média das exportações brasileiras o percentual é de 53,6%, segundo dados do Comex Stat, sistema de estatísticas do comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic).
Os 10 principais entre 277 itens vendidos aos EUA em 2024 responderam por 42% dos negócios
A proporção da indústria extrativa é menor nas vendas para os Estados Unidos (13,2%) em relação ao mundo (23,7%). A tendência é observada também no caso da agropecuária (6,7% e 22,6%, respectivamente).
No conjunto das indústrias de transformação estão incluídos tanto itens cuja produção exige maior complexidade quanto produtos em estágio inicial de processamento - como sucos de laranja processado e aço semiacabado.
O coordenador de estudos em comércio internacional do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Fernando Ribeiro, afirma que esse deslocamento entre as exportações para os Estados Unidos e para o mundo está ligado principalmente aos produtos agrícolas e ao minério de ferro: “Nas nossas exportações para o mundo, tem dois grupos de produtos que pesam muito, mas não são relevantes para os Estados Unidos, que são as commodities agrícolas, como soja e milho, e o minério de ferro. A exceção é o café, que também vai os EUA”, afirma.
Apesar disso, Ribeiro, também professor do curso de Relações Internacionais da PUC-Rio, vê uma pauta “commoditizada” - com parcela elevada de commodities - no comércio do Brasil com os Estados Unidos.
O petróleo se destaca nas commodities do Brasil que chegam ao mercado americano. Na indústria de transformação, lembra Ribeiro, há produtos com maior complexidade, como aviões e máquinas, mas também carnes e celulose.
“Tem os aviões, que esses sim fazem uma baita diferença, é um produto de alto nível tecnológico. Mas tem muito produto que era classificado como semimanufaturado e entra como indústria de transformação. E essa pauta é muito mais concentrada hoje do que foi no passado”, diz.
Indústria detém 80,2% da venda aos Estados Unidos contra 53,6% na média geral do país
Estatísticas mais desagregadas ajudam a dar um panorama mais detalhado dessa realidade. O sistema harmonizado (SH) é uma das classificações usadas no comércio exterior e tem diferentes subdivisões. O capítulo é a divisão mais ampla e reúne mercadorias por sua natureza ou função. São 99 capítulos ao todo: quanto maior o número, maior é a complexidade daquele grupo de produtos. As estatísticas de comércio exterior mostram que números maiores aparecem com mais frequência na pauta de exportações para os Estados Unidos que nas vendas para o mundo.
O ranking dos capítulos também sinaliza esse perfil com valor mais agregado no comércio com os EUA. O grupo dos dez maiores, que reúne combustíveis minerais, óleos minerais e produtos da sua destilação; matérias betuminosas; e ceras minerais, lidera nos dois casos (com parcelas de exportação na faixa dos 16%).
O capítulo sementes e frutos oleaginosos; grãos, sementes e frutos diversos; plantas industriais ou medicinais; palhas e forragens - no qual aparecem commodities agrícolas - é o segundo com maior proporção nas vendas para o mundo (15,6%), mas nem aparece entre as dez primeiras posições nas vendas para os Estados Unidos.
Nessa balança Brasil-EUA, o segundo grupo mais representativo é o de ferro fundido, ferro e aço (15,2% do total), que se enquadra na indústria de transformação.
A divisão de reatores nucleares, caldeiras, máquinas, aparelhos e instrumentos mecânicos, e suas partes, é a terceira mais bem posicionada nas vendas para os Estados Unidos, com fatia de 8%, mais que o dobro da que ocupa nas exportações mundiais (3,6%). Máquinas, aparelhos e materiais elétricos aparecem na sétima colocação (4%) entre os produtos exportados para os Estados Unidos, mas ficam de fora da lista dos dez mais.
O Sistema Harmonizado tem novos desdobramentos e esmiuça ainda mais a pauta de exportações. Na divisão por produtos (ou subposições, pela nomenclatura técnica do SH), aparecem produtos semimanufaturados de ferro ou aços; carnes de bovino e pasta química de madeira.
Diante do perfil de exportações com maior valor agregado e menor parcela de produtos primários, o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) Yi Shin Tang avalia que há risco de maiores perdas com o tarifaço.
“Tem volume grande de exportações e com mais indústrias de valor agregado. Nesse sentido, sentem mais essas medidas [do que as tarifas fossem impostas por outros países]. O que dá para afirmar também é que este é um fator que pode contribuir para a desindustrialização.”
O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) publicou há poucos dias, após o anúncio do tarifaço, um estudo com análise sobre a exportação de bens manufaturados.
O texto chama a atenção para a diferença frente à indústria de transformação: “Bens manufaturados excluem muitos dos produtos de início de cadeia, decorrentes do processamento industrial de bens primários, e, por isso, apresentam um valor menor do que a classificação de bens da indústria de transformação.”
O Brasil exportou US$ 97 bilhões em produtos manufaturados em 2024, dos quais US$ 21,4 bilhões tiveram os Estados Unidos como destino, ou 22% do total. No saldo comercial com os americanos, o Brasil teve déficit de US$ 15,3 bilhões.
O trabalho do IEDI aponta ainda que, dos 277 produtos manufaturados que o Brasil exportou para os EUA em 2024, os dez principais responderam por 42% do total e os 20 principais, por 55%. A concentração era menor em 2023 (39,4% e 52,3%, respectivamente).
Os produtos derivados de commodities predominaram, apontou o estudo, com exceção dos produtos dos setores aeroviários e automobilístico. Nesse grupo estão óleos combustíveis, gasolina e suco de laranja não concentrado.