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                          Entrevista - Salo Seibel

                          Publicado em: 13/10/2003

                          Salo Seibel

                          O Brasil Condenou-se a Objetivos Modestos

                          Imerso em problemas de grande magnitude mas sujeito a metas tímidas, o país precisa tomar consciência do seu valor para definir um modelo de desenvolvimento e negociar em uma posição mais forte, afirma Salo Seibel, presidente da Satipel e conselheiro do IEDI.

                          Salo Seibel
                          Falta ao Brasil um modelo de desenvolvimento? Como ele seria?

                          Sem dúvida, falta. Hoje é difícil encontrar economista, político, empresário, líder sindical ou cidadão comum que não fale em crescimento como uma necessidade absoluta. Mas, quando se procura detalhar que crescimento é esse e de que forma ele aconteceria, rapidamente verifica-se que não há consenso, nem clareza. Antes de tudo, falta a consciência da ambição que nós podemos ter. O Brasil tem problemas muito significativos, que se acumularam nas últimas duas décadas mas parece que o país se condenou a uma pequenez de ambição. Não me refiro apenas à previsão de aumento do PIB em 2003, de 1,5%  - que na verdade não é crescimento, porque a população aumenta nessa proporção -, mas a projeções de crescimento de 2,5% a 4%, encaradas como se fossem metas maravilhosas. Em comparação com o passado recente ou tendo em vista os gargalos e estrangulamentos de hoje, essas taxas até parecem ser mesmo fantásticas. Contudo, não concordo com essa visão. O Brasil tem todas as condições de criar um modelo de desenvolvimento e de ambicionar metas de crescimento de 5% a 6,5%. Muitas pessoas perguntam: como fazer isso sem rapidamente causar uma crise cambial e impossibilitar o pagamento da dívida externa? Eu digo que nós temos, sim, condições de ambicionar essas metas. Aprendi desde cedo e coloco em prática, na vida pessoal e na da empresa, que a gente nunca alcança metas que não ambiciona. Aí é que entra o modelo de crescimento, cujo primeiro requisito é pensar um Brasil grande. A partir disso é necessário, evidentemente, detalhar um plano baseado em uma política industrial, tendo muito claro que não existe país desenvolvido sem empresa nacional forte. É claro que o modelo supõe uma economia aberta, globalizada, porque hoje em dia nem há como se pensar em algo diferente disso. Mas, ao mesmo tempo, é preciso que o Brasil tome consciência da sua riqueza, do seu valor, e faça valer o que tem de importante nas suas trocas internacionais, coisa que até hoje não conseguiu. Nós temos sido sempre muito tímidos, para não dizer mais, em nossas relações de troca. A partir daí é que temos de desenhar um modelo de desenvolvimento completamente diferente do que viemos tendo até aqui. Eu acho que esse novo governo ainda não teve tempo de traçar algumas linhas de um plano de desenvolvimento.

                          Como o senhor vê as perspectivas das exportações e o que deveria ser feito nessa área? E quanto à política cambial?

                          A questão das exportações me preocupa muito. Depois de um período negro de uma política cambial quase suicida, com um real extremamente sobre-valorizado até o início de 1999, conseguimos ajustar o câmbio sem um ônus muito exagerado. Muitas empresas que tinham deixado de exportar voltaram ao mercado internacional, principalmente a partir de 2002, e outras começaram a trilhar esse caminho ou a se preparar para fazê-lo. Parte desse esforço está se revertendo em conseqüência de uma nova sobrevalorização da moeda e, principalmente, da falta de confiança dos agentes econômicos na paridade da moeda. Eu temo uma nova crise cambial e esta, provavelmente, será pior do que a anterior.

                          Por que uma eventual crise cambial seria pior do que a anterior?

                          Porque duas crises cambiais terão acontecido em num espaço de tempo muito curto. E quebra de confiança a gente sabe como é, cada vez que acontece, o tempo e o esforço necessários para superá-la são exponencialmente maiores. Eu acho que ainda há tempo para as autoridades responsáveis consertarem o rumo. Estou realmente muito preocupado com o que o vai acontecer com as exportações, principalmente a de manufaturados, se não houver essa correção. Evidentemente, estamos em uma conjuntura externa favorável para os produtos primários, principalmente agrícolas. No entanto, trata-se de um fenômeno cíclico. Quanto mais longa for essa fase, melhor, mas sabemos que é inviável construir uma política baseada na suposição de que essa conjuntura será perene. Nenhum país pode ter uma política de superávit comercial sustentável sem uma base extremamente forte de exportação permanente de manufaturados. Eu acho que estamos perdendo parte do que construímos nos últimos dois anos.

                          Corrigir a correção da situação atual implicaria em redefinir a política econômica.

                          O câmbio flutuante pode ser - e, no meu entender, provavelmente é - uma política correta, mas, num país como o Brasil, não deve ser a única.  Isso depende do momento em que se está. O problema é como monitorar o seu ajuste fino. Câmbio flutuante não quer dizer que se deve deixá-lo flutuar com a intensidade com que ele vinha oscilando. As autoridades têm como deixá-lo variar em freqüências bem mais estreitas sem grandes artificialismos. Ao contrário, a flutuação absolutamente exagerada da taxa de câmbio, como se viu recentemente, é que é artificial, no sentido de que é forte demais para qualquer economia. No Brasil não há atividade empresarial séria e planejada que resista a variações de magnitude em intervalos extraordinariamente curtos.

                          O que o seu setor tem feito para aumentar a agregação de valor ao produto?

                          Na nossa área principal de atividades, de produção de madeira e fabricação de móveis, existe uma ação positiva da área governamental, que tem apoiado fortemente um programa conjunto de várias entidades, o Promóvel, já no seu 5º ano e com bons resultados na exportação. Um outro instrumento de apoio é o desenvolvimento e o melhoramento do design do móvel brasileiro.  O de melhor design é o da Itália, que exporta US$ 10 bilhões, enquanto que o Brasil chegou a US$ 600 milhões no ano passado, um número excelente porque há poucos anos exportávamos US$ 300 milhões. Tudo indica que vamos atingir US$ 1 bilhão de exportação de móveis em dois ou três anos, se os problemas de câmbio que eu mencionei não puserem por água abaixo todo esse esforço. É um valor expressivo, mas ainda muito modesto. A principal agregação de valor é resultado do design, da criação de melhores embalagens, da formação de cadeias de fornecedores de matéria-prima e de consórcios de exportação. O mercado é  grande: a China, que mal começou, está exportando Us$ 5 bilhões, principalmente para os Estados Unidos.

                          Como desenvolver e financiar tecnologia no Brasil, no seu setor?

                          O Brasil está entre os mais avançados do mundo, na fabricação de painéis de aglomerado de partículas de madeira e MDF (chapa de fibra de média densidade). É também o país com o maior número de fábricas de última geração. Nos últimos cinco anos, as empresas investiram mais de R$ 1 bilhão em plantas novas, todas baseadas em florestas de eucalipto e pinus, área em que o Brasil tem tecnologia das melhores do mundo. As indústrias de móveis, principalmente dos grandes pólos - o mais conhecido é o de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, mas há outros como os de Arapongas, no Paraná, e no Estado de São Paulo - são muito desenvolvidas tecnologicamente, em termos de aplicação. A maioria das máquinas e equipamentos é fabricada no Brasil com tecnologia européia. Há um desenvolvimento muito grande, portanto, na parte florestal e também em máquinas, com participação intensa de universidades brasileiras e do IPT - Instituto de Pesquisas Tecnológicas. A questão do financiamento para tecnologia não chega a ser um grande problema, porque existem algumas linhas da Finep e do Bndes.  Quanto ao financiamento para investimento, o entrave é total. Uma fábrica de aglomerado de MDF em escala mínima significa um investimento de US$ 75 milhões a US$ 100 milhões, e no mínimo outros US$ 50 milhões a US$ 100 milhões em investimentos florestais. Ou seja, um investimento mínimo de US$ 130 milhões a US$ 200 milhões. Hoje não há financiamento para um investimento desses no Brasil. O setor  intensivo de capital tem-se desenvolvido por teimosia dos empresários e como uma aposta no futuro. É  impossível continuar investindo mesmo com custo de BNDES, de TJLP mais 4% ao ano, ou seja, 15% ao ano. Isso não é financiamento compatível com a construção de fábricas de US$ 75 milhões a US$ 100 milhões e que vão faturar ao  redor desses valores. Nem, muito menos, com o desenvolvimento de florestas que, no caso do eucalipto, requer sete anos após o plantio para receber o primeiro corte. No caso do pinus, o tempo entre o plantio e primeiro corte é de doze anos, na melhor das hipóteses. No entanto, esse não é um problema exclusivo do setor, mas do desenvolvimento nacional. A primeira grande condição para um modelo de desenvolvimento é resolver o problema de financiamento. 

                          O senhor participou de várias entidades empresariais. Como evoluiu a visão  do empresário sobre o  país e o mundo nos últimos 10 ou 15 anos?

                          Sem dúvida alguma o nível de consciência do cidadão em geral e do empresário em particular mudou completamente nos últimos quinze anos. Quando fundamos o Pensamento Nacional das Bases Empresariais, o PNBE, em 1987, no final do Plano Cruzado, e começamos a usar a palavra cidadania, eu acho que a maioria dos empresários olhava para nós do mesmo modo como algumas pessoas reagiam quando se falava em comunismo décadas antes. Hoje o termo cidadania está até desgastado pela repetição. Todo mundo se sente cidadão, quer ser cidadão, embora muitos nem saibam bem o que é isso. Mas é positivo, porque há um sentimento geral de que o exercício da cidadania é algo importante. A consciência, por exemplo, de que a democracia, com todos os seus eventuais defeitos, é algo a ser preservado, alimentado e consolidado, está muito forte na consciência da grande maioria dos empresários, independentemente da idade e do porte do seu negócio. O mesmo é possível dizer da visão do papel do Estado, do capital, do capitalista, da empresa, da relação de parceria e de responsabilidades e deveres mútuos entre o trabalhador e o empresário.

                          Como evoluiu a questão das responsabilidades e deveres entre trabalhadores e empresários?

                          No PNBE nós fomos um dos precursores nesse assunto e no início éramos vistos com muita desconfiança. Havia também um grupo pioneiro dentro da própria Fiesp, com  uma abordagem um pouco diferente da do PNBE. Tínhamos uma visão talvez mais global que não se restringia a uma negociação de data-base de dissídio e de reajustes salariais, mas se estendia ao relacionamento também. Eu me lembro que entre 1988 e 1989, quando organizamos um grupo do PNBE para conhecer o plano econômico que Israel tinha colocado em vigor para combater a inflação e convidamos as lideranças sindicais da época para nos acompanharem, o resto do empresariado questionou essa viagem de empresários com trabalhadores. Isso, hoje, é comum. A consciência de que cabe a nós, brasileiros - empresários, trabalhadores e cidadãos em geral - cabe construir o Brasil e que o governo não cria nada, é um administrador dos recursos da nação, evoluiu muito, talvez até um pouco mais entre o empresariado do que em outros segmentos da sociedade civil. Mas eu acho que ainda falta avançar, principalmente no governo. Existe uma liderança empresarial que já atingiu um nível de consciência quanto a uma responsabilidade social e ética, por exemplo, no Instituto Ethos e que está começando a encontrar ressonância entre o empresariado como um todo. A consciência de que construir um Brasil ético, de valores, vai depender da sociedade e de cada um de nós, essa eu acho que ainda está longe de se implantar na classe empresarial. Em boa parte das lideranças essa visão já chegou e está sendo muito discutida e praticada mas ainda não conseguimos levá-la para as bases. Mas sem dúvida nenhuma a mentalidade hoje é outra. Entre os eleitores de Lula e os apoiadores do governo e do PT há muitos empresários e esse é um quadro completamente oposto, não só ao de 10 ou 15 anos atrás mas mesmo à situação que havia há 5 anos. O empresariado de hoje é muito mais aberto, embora ainda não tenha incorporado totalmente a lição de um capitalismo moderno. Isso eu acho que ainda falta.

                          Como o senhor avalia os resultados práticos do compromisso da Agenda 21, assinada por mais de 170 empresários privado na Eco-92, de erradicação da miséria, desenvolvimento sustentado e preservação ambiental?

                          Em termos globais, progrediu-se muito pouco. Em alguns lugares, como em parte da África, até se retrocedeu. Mas há avanços, mesmo com os Estados Unidos recusando-se a firmar o protocolo de Kyoto. Em termos ambientais, até por pressão das sociedades, há uma melhora significativa, embora insuficiente em várias áreas e lugares. Quanto à erradicação da miséria, temos tido muito mais insucessos do que sucessos. No Brasil, sabemos que há números desafios pela frente, mas há disposição para enfrentá-los. Temos que continuar tentando avançar. Os desafios são enormes. No que diz respeito ao desenvolvimento sustentado, espero que encontremos um caminho para por em prática, em breve, um modelo que nos leve a um crescimento econômico sustentado, que nos conduzirá a erradicação da miséria e a uma redução muito grande da pobreza.

                          Como o sr. avalia hoje o resultado da  formação escolar e profissional de jovens mantida pela empresa?

                          Há muitos anos nós investimos energia, dedicação e recursos na educação dos funcionários, dos seus filhos e das comunidades em que a atuamos. É uma convicção forte nossa, originada, culturalmente, das crenças e dos valores do meu pai. Na nossa área florestal de 60 mil hectares temos uma escola muito aparelhada que serve não só as crianças das famílias que moram na propriedade como também as das fazendas vizinhas. É considerada a melhor da  região. Nos empenhamos nesse projeto porque gostamos da idéia de proporcionar a educação e achamos que é possível dar esse tipo de contribuição para a sociedade. Destaco também o projeto Formare, que visa dar formação profissionalizante e  perspectivas reais de emprego a jovens de baixa renda. Foi iniciado recentemente nas duas fábricas de aglomerados que temos no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. Acompanho pessoalmente o projeto, com entusiasmo. As crianças, por exigência do programa, habitam as cidades onde essas fábricas estão instaladas mas não são ligadas aos funcionários da empresa. A nossa avaliação após os primeiros quatro meses de funcionamento é extremamente favorável. É um orgulho e uma felicidade imensos participar de um programa desse tipo. Proporcionamos aos jovens uma oportunidade de darem um fantástico salto na vida. Eles têm de 16 a 17 anos, são obrigados a estudar e a ter boas notas. Recebem aulas práticas em fábricas de móveis e também aulas teóricas de alto nível. Ganham meio salário mínimo, refeições, transporte e são rigorosamente acompanhados. Já há relatos das escolas dizendo que o desempenho dos estudantes registra avanços significativos.

                          Entrevista publicada em 13/10/2003

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