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O Relatório. O
recém-lançado relatório
da McKinsey&Company “Manufacturing
in the future: the next era of global growth
and innovation”, de 180 páginas,
foi elaborado pelo Instituto Global da McKinsey
(MGI) e pelo departamento de práticas
operacionais em novembro de 2012. Seu objetivo
é elucidar qual será a contribuição
da indústria da transformação
nas economias avançadas e em desenvolvimento
no século XXI. O relatório resultou
de 10 meses de análises macroeconômicas
e pesquisas junto a líderes e profissionais
especializados da empresa e associados. Para
tal, realiza antes uma radiografia do setor
na atualidade e das novas tendências.
Através de um modelo de segmentação,
a empresa consegue entender quais serão
as condições de sucesso em cinco
segmentos gerais, trazendo insights
úteis tanto para os líderes
das empresas quanto para as políticas
públicas.
A Indústria da Transformação
Continua Importante, Mas Sua Natureza Está
Mudando. A indústria
da transformação continua crescendo,
a taxas de 2,7% entre 2000 e 2007 em economias
avançadas e 7,4% em economias em desenvolvimento
– que estão cada vez mais importantes
no ranking dos maiores produtores mundiais.
Dos gastos em P&D mundiais, até
90% são realizados na atividade manufatureira.
Devido à sua alta competitividade,
a parcela da indústria da transformação
é duas vezes maior do que a do emprego
na União Europeia (15) e três
vezes nos EUA. Essa tendência deve continuar
no longo prazo.
Números da indústria de transformação
em 2000:
- 16% do PIB global, 70% do comércio
internacional;
- 62 milhões de empregos nos países
avançados em 2000, 45 milhões
em 2010 - ou 270 milhões globalmente
em 2000, 300 milhões em 2010;
- Nos EUA, 30 a 55% dos empregos na indústria
da transformação são
de atividades do tipo serviços, sendo
que 19 centavos de cada dólar produzido
pela indústria destinam-se a serviços;
- 3 grupos industriais globais eram liderados
pelos chineses e 2 pelos norte-americanos;
- déficit comercial das indústrias
avançadas em bens trabalho-intensivos
somava US$ 342 bilhões, mas o superávit
em bens inovadores era de US$ 726 bilhões.
A McKinsey considera que construir o setor
manufatureiro permanece sendo fundamental
para o desenvolvimento nacional, aumentar
o nível de renda e para prover as máquinas,
ferramentas e equipamentos necessários
para construir uma moderna infraestrutura
e habitação. Não houve
nação que se tornou rica sem
se industrializar. Até mesmo a Índia,
que é conhecida por se desenvolver
apoiada no setor de serviços, paralelamente
tem investido bastante na infraestrutura para
apoiar o crescimento industrial e de sua produtividade.
A transição da atividade primária
para a industrial ainda é a rota para
aumentar a produtividade e elevar os padrões
de vida das economias em desenvolvimento.
A indústria da transformação
é reconhecidamente o motor da dinâmica
nessas economias, retirando populações
agrárias da pobreza. Nas economias
avançadas, os bens industriais são
a expressão da capacidade de inovação
e competitividade do país. O setor
remunera altos salários e é
o principal responsável pelo progresso
técnico. Além disso, a relevância
da indústria, à medida que o
país se desenvolve, passa a ser principalmente
seu potencial de alavancar a produtividade,
as exportações e as inovações.
A transformação industrial adquire
também importância no que tange
a redução dos níveis
de consumo de energia e de recursos naturais.
É fato, também, que o papel
da indústria de transformação
vem mudando ao longo do tempo. Quando a economia
atinge certo grau de desenvolvimento, em geral
a parcela da indústria da transformação
no emprego e no PIB chega ao seu máximo,
passando, então, a decrescer a favor
dos serviços (fato estilizado conhecido
como curva do U invertido entre PIB per capita
e parcela da indústria no PIB). Mas
a separação entre serviços
e indústrias está cada vez menos
perceptível.
Atualmente, até mesmo países
no mesmo grau de desenvolvimento apresentam
diferenças quanto ao peso da indústria
de transformação no PIB, o que
depende das políticas industriais e
regulatórias, da importância
do setor de recursos naturais na economia,
do acesso e custo dos fatores produtivos,
da demanda doméstica por bens manufaturados,
dos desequilíbrios na balança
corrente e do regime macroeconômico,
destacando a política cambial.

A manutenção de um setor industrial
vigoroso depende de alguns aspectos fundamentais,
como acesso a mão-de-obra qualificada,
com o menor custo possível, proximidade
aos mercados demandantes, estrutura logística
eficiente, disponibilidade de matérias-primas
e energia a preços competitivos, proximidade
a centros de inovação.
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Box 1 – O sucesso
da indústria de transformação
na Suécia
A
Suécia é um dos poucos
casos de nações desenvolvidas
em que a indústria da transformação
manteve sua parcela no produto nos
últimos 25 anos, com aumento
da produtividade superior ao dos países
avançados. O foco se voltou
para setores de auto crescimento,
como equipamentos de comunicação,
veículos automotores e químicos.
Mas todos os setores em geral cresceram
muito, o que é atribuído
às reformas após a crise
dos anos noventa. Tais reformas incluíram
a desvalorização da
moeda e estabelecimento de padrões
salariais nos setores de exportação,
além da adesão à
União Europeia em 1995 –
o que contribuiu para a internacionalização
de suas multinacionais. Logo, em 2007
apenas 10 empresas transnacionais
contribuíam com 20% do valor
adicionado total e 35% do crescimento
da indústria de transformação
sueca. Além disso, houve um
movimento de ascensão na cadeia
de valor rumo a setores de alta tecnologia,
com investimentos em pessoal, por
exemplo, bem superior aos outros países
da União Europeia.
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Em termos de comércio internacional,
os bens manufaturados continuam dominando
o cenário, representando mais de 70%
do comércio de bens e serviços
em valor. Nos países avançados,
os serviços contribuem mais para o
comércio internacional (23%, de acordo
com a amostra selecionada no relatório)
do que os países em desenvolvimento
(13%, excluindo a China). Porém estes
dados nada dizem sobre os bens intermediários
importados que entram na produção
dos bens industriais exportados – por
exemplo, na China, subtraindo a importação
de bens intermediários, as exportações
industriais se reduzem pela metade. E ainda,
fatores de produção do tipo
serviços estão contribuindo
na exportação de bens manufaturados.
Por exemplo, em 2009, 81% das exportações
de bens da Alemanha era de manufaturas (ou
32% do PIB), sendo que serviços e bens
intermediários importados corresponderam
a mais da metade desse valor. Já as
exportações de serviços,
que equivaleram a 7% do PIB, geraram valor
agregado integralmente doméstico. Considerando
esses pontos, a contribuição
das exportações de serviços
passaria a ser 13% do PIB, bem semelhante
aos 15% das manufaturas. Portanto, as comparações
de comércio internacional e produção
doméstica devem se dar em termos das
cadeias de valor.
Nesse sentido, o relatório examina
cinco grupos de atividades da indústria,
que se diferenciam bastante no que se refere
às suas fontes de vantagens competitivas
e em como os diferentes fatores de produção
influenciam suas decisões de onde produzir,
investir em P&D e chegar ao mercado.
Os setores e os segmentos que cada um deles
compreende são:
1) De inovações
globais para mercados locais: químicos,
veículos automotores, outros equipamentos
de transporte, maquinário elétricos,
máquinas e equipamentos.
2) Processamento regional:
produtos da borracha e plástico, produtos
fabricados de metais, alimentos, bebidas e
tabaco, papel e impressões.
3) Commodities intensivas
em recursos naturais e energia: produtos da
madeira, petróleo refinado e derivados,
papel e celulose, minerais básicos,
produtos baseados em metais.
4) De inovação
e tecnologias globais: computadores e equipamentos
de escritório, semicondutores e eletrônicos,
equipamentos de precisão, óticos
e médicos.
5) Bens comercializáveis
trabalho-intensivos: têxteis, vestuário,
produtos de couro, móveis, joias, brinquedos,
outros.

O primeiro grupo, de inovações
globais para mercados locais, é o maior
de todos, responsável por 34% do valor
agregado na indústria de transformação
global em 2010. São indústrias
de média a alta intensidade em P&D,
cujas competitividades dependem de um fluxo
contínuo de inovações.
Para minimizar custos de transporte, costumam
se localizar próximas ao mercado consumidor,
são bastante influenciadas por aspectos
regulatórios (como padrões de
segurança e qualidade) e acordos comerciais.
O subsetor de químicos é o mais
importante em termos de geração
de valor agregado, enquanto máquinas
e equipamentos é o que mais emprega.
A China é o principal produtor desse
grupo, seguida por EUA e Japão; as
economias desenvolvidas correspondem a 60%
do mercado.
O segundo grupo, indústrias de processamento
regional, representou 28% do valor agregado
da transformação industrial
em 2010, sendo o maior empregador em países
avançados. Localizam-se próximas
ao mercado consumidor e aos fornecedores de
matérias-primas, com produção
altamente automatizada, mas em geral, não
intensivas em P&D e se destinam primordialmente
aos mercados domésticos. O subsetor
que gera maior valor adicionado e também
é responsável por empregar mais
trabalhadores é o de alimentos, bebidas
e tabaco – sobretudo nos países
em desenvolvimento. Os maiores produtores
mundiais são China e EUA.
Para o terceiro grupo, das commodities intensivas
em recursos naturais e energia, os preços
das matérias-primas e da energia são
fundamentais. Portanto, tentam maximizar a
proximidade às fontes energéticas
e aos mercados finais, devido aos altos custos
de transporte. Estes bens equivaleram a 22%
do valor agregado mundial de transformação
industrial. O subsetor que mais contribui
para a geração de valor agregado
do segmento é o de metais básicos,
enquanto o que mais emprega é o de
produtos derivados de minerais. Os grandes
países em desenvolvimento ricos em
recursos naturais, como Brasil, Indonésia
e Rússia concentram essas indústrias,
mas o maior produtor é a China, seguido
dos EUA.
Já o quarto grupo, de inovação
e tecnologias globais, são dependentes
das redes globais de produção
e de geração de P&D, mas
não necessitam se localizar perto de
um mercado específico, tendo sua cadeia
produtiva espalhada pelo globo conforme as
vantagens de custos de cada etapa da produção.
O grupo produz 9% do valor agregado mundial
da indústria de transformação,
sendo que os EUA é o principal produtor
mundial, seguido da China. O subgrupo de maior
peso é o de eletrônicos e semicondutores.
E o grupo de mão-de-obra intensiva
corresponde a apenas 7% do valor agregado
da indústria da transformação
global, são bens altamente comercializáveis
e sua produção privilegia a
proximidade à localidades de mão-de-obra
abundante e barata, com infraestrutura de
transporte disponível. Esse segmento
costuma ser o primeiro a se desenvolver durante
a industrialização dos países,
para depois perder a importância gradualmente
perante as outras indústrias. O principal
subgrupo em termos de geração
de valor agregado e de emprego é o
de têxteis, vestuário e couro.
A China é a maior produtora mundial.
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Box 2 – Metodologia
de segmentação da indústria
de transformação
A classificação levou
em conta seis aspectos que influenciam
os custos, a inovação
e a comercialização
dos bens de cada indústria.
No que tange o critério de
custos, considerou-se a intensidade
em capital, trabalho e energia. Para
inovação, adotou-se
a variável gastos em P&D
sobre o valor adicionado. E para comercialização,
usou-se um parâmetro para intensidade
de comércio (medido por exportações
sobre o produto industrial) e o valor
sobre o volume exportado.
A principal base de dados foi uma
amostra de 75 países disponível
no IHS Global Insight, e também
dados internos da McKinsey, da OECD
e do governo dos EUA.

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Observa-se que estes grupos estão espalhados
pelos continentes seguindo certa lógica
de especialização, de forma
que os países avançados concentram
os produtos globais de tecnologias locais,
e os países em desenvolvimento, concentram
os trabalho-intensivos. Por sinal, a competição
nesse último segmento é acirrada
e suscita frequentes intervenções
internacionais no campo da regulação,
principalmente da OMC. Por exemplo, o acordo
da OMC sobre têxteis e vestuário
em 2004 alterou bastante a distribuição
espacial da indústria no globo, acelerando
a realocação para localidades
de baixo custo como China, Camboja, Vietnã,
Egito e Paquistão.
A estrutura do emprego em países avançados
está atualmente concentrada em bens
de processamento regional (37%) e bens globais
de tecnologias locais (30%). Aliás,
esta última categoria é a mais
importante também nas economias em
desenvolvimento (28%), seguida por bens de
processamento regional (26%). As indústrias
de commodities e trabalho-intensivas representam
maior parcela do emprego nos países
em desenvolvimento do que nas economias avançadas.
Vale notar que, como dito anteriormente, a
separação entre indústria
e serviços está cada vez mais
turva, nos EUA 37% do emprego na indústria
é em atividades do tipo serviços.
A parcela varia em cada grupo industrial,
sendo 55% nos bens de inovação
e tecnologias globais, 40% nos de inovação
global para mercados locais, 31% em processamento
regional, 31% em commodities intensivas em
recursos naturais e energia, e 30% nos intensivos
em mão-de-obra. De acordo com o relatório,
a relocação de empregos do setor
trabalho-intensivo para outros países
apenas explica 20% das perdas no emprego da
indústria de transformação
entre 2000 e 2010, o restante se deveu aos
ganhos de produtividade.
Assim, o papel da indústria de transformação
na criação de empregos tem diminuído
conforme se eleva o investimento das firmas
em novas tecnologias para aumentar a produtividade.
Além disso, as empresas têm procurado
mão-de-obra mais qualificada, substituindo
postos de trabalho na produção
por atividades do tipo serviços.
O crescimento do emprego no setor de indústria
de transformação entre 2000
e 2010 (de 270 para 300 milhões) se
processou totalmente nos países em
desenvolvimento. Por outro lado, nas economias
avançadas, o emprego na indústria
de transformação vem se retraindo
(com destaque para Japão e EUA) por
conta também de fatores como realocação,
automação, inovações
tecnológicas e organizacionais e pelo
próprio crescimento do setor de serviços.
Até 2030, nessas economias, tal movimento
deve continuar, de forma que o emprego da
indústria de transformação
se reduza dos atuais 45 milhões para
40 milhões.
A propósito, a remuneração
em serviços nas economias avançadas
está se tornando tão boa quanto
na indústria. Na média, a remuneração
na indústria é superior à
de serviços. Mas quando se agrupa cada
setor pela intensidade do fator em cada atividade,
resulta que a remuneração é
similar nos dois casos. Assim a média
industrial apenas é superior do que
a de serviços porque a primeira apresenta
maior peso dos setores altamente tecnológicos.
Box
3 – A perda do emprego na indústria
de transformação dos EUA
A McKinsey decompôs a queda do
emprego na indústria de transformação
norte-americana, demonstrando a contribuição
de cada uma das forças abaixo
para as perdas de quase 6 milhões
de postos entre 2000 e 2010:
- mudanças na demanda doméstica
(6%)
- mudanças na posição
comercial líquida (20%)
- diferenças de crescimento de
produtividade (70%)
- outros (4%).
Examinando por setor, especificamente
na questão da posição
comercial, as maiores quedas do emprego
na indústria dos EUA foram em
eletro-eletrônicos e têxteis
e vestuário. De acordo com os
cálculos apresentados no relatório,
se o déficit na conta corrente
fosse eliminado, as perdas no emprego
industrial seriam recuperadas.
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A conclusão é a de que os setores
de indústria de transformação
e serviços são altamente sinérgicos,
ambos apresentam fortes efeitos de transbordamento
e constituem fontes de demanda uma para o
outro, de forma que o desenvolvimento mútuo
é uma tendência evidente que
continuará no futuro.
Novas Oportunidades em um Cenário
de Negócios Mais Incerto. Após
a crise de 2008, a economia global adentrou
em um período de alta volatilidade
e incerteza que tem sido particularmente desafiador.
A lenta recuperação econômica
mundial traz consigo uma série de tendências
- algumas já em curso, outras novas
- que reconfigurarão a indústria
no futuro.
A McKinsey analisa as novas tendências,
enfatizando os aspectos principais da demanda,
oferta, políticas e regulação,
tecnologia e inovação, e risco
e incerteza. A seguir, comentam-se com mais
profundidade as tendências essenciais
desses aspectos.
a) Demanda
A demanda está aceleradamente
se deslocando para mercados emergentes
Nos próximos 15 anos, mais 1,8 bilhões
de pessoas pelo mundo farão parte do
mercado de consumo (provenientes principalmente
da Ásia e África) enquanto o
consumo quase dobrará nesse mesmo período,
somando U$ 64 trilhões. A tendência
de globalização da produção
continuará e o crescimento dos bens
industriais continuará sendo puxado
pelas economias em desenvolvimento, que representarão
70% do mercado em 2025 - sendo tão
importantes enquanto demanda, como quanto
fornecedoras da cadeia produtiva. Deve haver
crescimento também das vendas por internet,
tanto entre empresas e consumidores finais,
quanto entre produtores de diferentes estágios
da cadeia de valor.
Observa-se que poucas multinacionais estão
preparadas para essa transformação.
Uma pesquisa recente da McKinsey junto às
cem maiores multinacionais do mundo com matriz
em economias avançadas revela que suas
vendas nos países em desenvolvimento
correspondem, em média, a apenas 17%
do total.
Maior fragmentação da demanda
e customização
A tendência de proliferação
de produtos para atender à fragmentação
da demanda já está acontecendo.
Esse fenômeno está relacionado
ao anterior, já que os novos entrantes
no mercado global terão diferentes
necessidades a serem atendidas pelos produtos.
Há que se considerar que mercados como
Índia, Brasil ou China são extremamente
diversificados, o que abre flanco para a proliferação
de produtos. Também, nas economias
avançadas, os consumidores demandarão
mais variedade e produtos com ciclo de vida
mais curtos, acentuando a tendência
à customização.
Por exemplo, no setor de automóveis,
entre 2002 e 2011, a BMW ampliou seu portfólio
de carros de 12 modelos para 22, reduzindo
o ciclo de vida dos produtos em 19%. A Ford
ampliou sua linha de 71 para 81 modelos, também
reduzindo o ciclo de vida dos produtos em
6%.
Crescente demanda por serviços
relacionados à indústria de
transformação
Mais e mais os produtos da indústria
da transformação carregarão
serviços em sua produção,
especialmente nos mercados de business-to-business
(B2B). Os serviços já correspondem
até 55% do valor dos produtos, sendo
particularmente representativos no setor de
bens de capital. A crescente importância
de serviços de maior valor agregado
implica o aperfeiçoamento tecnológico
e a proliferação de centros
de inovação, não apenas
nas atividades de alta tecnologia, mas em
termos gerais.
b) Oferta
Crescentes salários em regiões
de baixo custo
Espera-se que a maior riqueza e produtividade
dos países em desenvolvimento acarretem
em aumento dos salários. Entre 2000
e 2008, enquanto nos países avançados
os salários cresceram menos de 1% ao
ano, nos asiáticos o aumento foi superior
a 7% ao ano. Na China e na Índia o
custo unitário do trabalho expandiu
16% e 8% ao ano entre 2003 e 2010, respectivamente.
Já a produtividade cresceu 14% na China
e 17% na Índia.
O incremento dos salários atinge especialmente
os segmentos intensivos em mão de obra,
de bens transacionáveis e as montadoras
dos produtos de alta tecnologia. A solução
mais comum, nas indústrias que a permitem,
é a transportação da
produção para regiões
de menor custo. Mas esta possibilidade ficará
cada vem menos viável.
Escassez de talentos
Vislumbra-se maior escassez de técnicos
para desenvolver e operar ferramentas e sistemas
industriais, com elevação dos
salários em regiões de baixos
custos. Os cálculos da McKinsey apontam
para a falta de mais de 40 milhões
de empregados altamente qualificados em 2025,
principalmente na China e outras economias
em envelhecimento. Os trabalhadores com qualificação
média também estarão
“em falta”, enquanto os de baixa
qualificação apresenta a demanda
inferior à oferta. As profissões
com maior déficit são engenharia,
vendedores de comércio internacional
e técnicos.
Uma pesquisa da empresa revelou que em 2011
quase 80% das indústrias japonesas
reportaram a dificuldade de encontrar mão-de-obra
altamente qualificada. Esse percentual é
de 26% na Europa, Oriente Médio e África.
Mesmo nos EUA, 43% das firmas de indústria
de transformação investigadas
revelavam ter vagas de alta qualificação
disponíveis por longo tempo, sem que
se encontrassem funcionários para as
vagas.
Preços de commodities mais elevados
e voláteis
Os preços das commodities já
estão em níveis altos, sem precedentes
na história. E a expectativa é
de contínua escalada, pois a demanda
deve crescer de 30% a 80% nos próximos
20 anos. A razão fundamental é
o ingresso de mais chineses e indianos aos
mercados, com aumento do consumo diário
de calorias.
E ainda, a volatilidade dos preços
também deve aumentar, o que pode ser
repassado para preços principalmente
no segmento de firmas globais mas atuação
local, como alimentos, bebidas e tabaco (onde
a matéria-prima corresponde a até
65% do custo total) ou a de aço (70
a 80%). Esse componente pesa negativamente
na decisão de investimento em capacidade
produtiva, por isso deve-se encontrar soluções
inteligentes para contornar os riscos associados.
Maiores custos de transporte e gargalos
logísticos
Essa tendência está associada
com o crescimento dos mercados, principalmente
nos países em desenvolvimento –
em que ocorrem paralelamente processos de
acelerada urbanização. Mesmo
as economias avançadas têm dificuldade
em lidar com o maior volume de trocas de bens,
tanto que nos EUA o tráfego rodoviário
cresce 3% ao ano – ao passo que a capacidade
se eleva 1%.
O peso desse custo é particularmente
oneroso em produtos de baixo valor agregado.
É por isso que empresas como a P&G,
IKEA e Emerson estão regionalizando
suas operações em praças
próximas aos mercados consumidores.
c) Políticas
e regulação públicas
Persistência de políticas
comerciais restritivas
Recentemente, os fluxos de comércio
crescem a taxas mais de duas vezes maior do
que a do crescimento da produção
mundial, em um contexto onde as redes de negócio
estão se tornando mais complexas. A
Europa e os EUA deixaram de ser os principais
polos, isolados, do comércio mundial
– pois o trânsito de mercadorias
e negócios na Ásia vem progressivamente
aumentando.
O comércio mundial disparou, também,
incentivado pela queda de barreiras e redução
de tarifas, de um lado, e pelo aumento de
mais de 5 vezes dos acordos comerciais entre
1980 e 2010, de outro. Mas políticas
como a de conteúdo nacional continuam
sendo bastante utilizadas, facilidade de financiamento,
subsídios etc. As intervenções
são comuns nas indústrias correlatas
à energia e aos recursos naturais.
Contínuo declínio dos impostos
sobre as empresas.
Os impostos sobre as empresas já vinham
caindo desde os anos oitenta, como por exemplo,
na França, Alemanha e Reino Unido –
onde eram de cerca de 50% e hoje são
inferiores a 30% (média OCDE é
23%). As taxas mais elevadas são nos
EUA, que em 2012 eram de 39%, seguido do Japão
(38%), França (30%) e Índia
(32%).
Há casos em que os países reduziram
as taxas seguindo políticas industriais
de fomento de segmentos industriais específicos.
Mas dificilmente somente este fator justifica
a escolha de um local para a implantação
de uma fábrica.
d) Inovação
e tecnologia
Inovações em materiais,
em design de produto e processos produtivos
Espera-se, também, uma forte onda de
inovações em materiais (como
biotecnologia, nanotecnologia e compostos
de baixo peso – como fibra de carbono),
tecnologias da informação, processos
produtivos e operações da indústria
da transformação (por avanços
da robótica, de visualização
dos bonecos de produtos, additive manufacturing
- das impressões em 3D – e a
indústria de transformação
“verde”). Esses avanços
colaboram para elaboração e
escolha de protótipos, dos sensores
e da chamada “internet das coisas”.
Haverá maior engenhosidade nos processos
e acabamento dos produtos para diminuir uso
de recursos e monitorar a cadeia de valor.
Nesse ponto se enquadra a questão do
uso de matérias-primas, cujas fontes
estão mais disputadas. Por isso, as
inovações como o shale gas
nos EUA, são fundamentais para mudar
os custos relativos de energia – conferindo
grande vantagem competitiva às indústrias
que acessam os novos recursos. Por exemplo,
de 1990 para cá, o custo da automação
diminuiu 40 a 50% dos custos de trabalho nas
economias avançadas. O setor automotivo,
em 2010, adquiriu cerca de 33 mil robôs
industriais, e o de eletrônicos 31 mil.
e) Riscos e incertezas
Volatilidade da demanda
O ambiente internacional, de acordo com a
McKinsey, apesentará mais riscos e
incerteza do que o atual, tornando-se mais
complexo. A combinação de rápido
crescimento do consumo global, com fragmentação
de demanda e resultante proliferação
de SKUs, crescentes demandas para investimentos
em bens de capital devem aumentar a volatilidade
da demanda mundial no futuro.
Algumas indústrias, como semicondutores
e eletrônicos, estão acostumados
com a rotina de produtos de ciclos de vida
curtos; mas outras como a aeroespacial, automóveis,
máquinas e equipamentos estão
mais expostas aos ciclos de negócios
relacionados a fatores externos como o regime
macroeconômico e a política industrial.
Volatilidade do preço das commodities
Como dito anteriormente, além dos altos
patamares que os preços das commodities
alcançaram nos últimos anos
– e que devem continuar se elevando
nos próximos, a tendência é
maior volatilidade. Por exemplo, na última
década, a volatilidade de produtos
como petróleo, trigo, cacau e o PET
(polietileno tereftalato) superou a média
em mais de um desvio padrão. A principal
causa é a maior correlação
entre os preços dos recursos naturais,
de forma que um choque de oferta em um deles
afeta mais rapidamente o preço dos
outros.
Além disso, inovações
continuamente contribuem para a reorganização
das estruturas de mercado das commodities.
Um exemplo é o shale gas,
cuja tecnologia está impactando a geração,
transporte e exportações de
energia, concorrendo com o carvão,
a hidroeletricidade, o petróleo e até
mesmo a energia nuclear e eólica.
Flutuações cambiais
A taxa de câmbio é um fator primordial
para a competitividade e os resultados financeiras
das indústrias. Tanto é que
a internacionalização das empresas
japonesas após meados da década
de oitenta se deveu, em grande medida, à
valorização contínua
do iene após o Acordo de Plaza em 1985.
O câmbio afeta principalmente as indústrias
de alta tecnologia e as empresas domésticas
de processamento, como alimentos.
Empresas do setor automotivo, máquinas
e equipamentos têm usado a sua pegada
global para se proteger contra tal volatilidade,
aprofundando sua internacionalização
e participação nos mercados
locais.
Riscos da cadeia produtiva
Dada a intensificação da complexidade
das cadeias produtivas globais, a habilidade
em administrar os riscos relacionados se constituirá
num fator competitivo crucial. Nas palavras
do CEO da Caterpillar, “na nossa indústria,
o executivo que melhor administra a cadeia
produtiva provavelmente será o competidor
mais bem-sucedido ao longo do tempo”
(McKinsey, 2012, p. 99).
De acordo com pesquisas da McKinsey, executivos
de diversas empresas globais afirmam que administrar
cadeias produtivas tem se consolidado uma
atividade mais frequente e 82% deles acreditam
que os riscos associados à cadeia produtiva
das empresas devem aumentar nos próximos
cinco anos. Esses riscos afetam todas as indústrias,
principalmente as mais globais.
Riscos de localidade
Desastres naturais que geram perdas tremendas
como terremotos, tsunamis, inundações
etc. têm aumentado desde 1980 a uma
taxa de 3%, de acordo com estatísticas
de seguradoras. Esses acidentes tornam as
indústrias globalizadas mais vulneráveis,
não apenas por causa das suas cadeias
produtivas interconectadas, mas também
porque em alguns casos o fornecimento de matérias-primas
é concentrado em uma só região.
Incertezas quanto aos custos e acesso
ao capital
Nos últimos 30 anos os custos de capital
convergiram na maior parte dos países,
com finanças globalizadas e taxas de
juros de longo prazo menores. Um dos fatores
principais para tal declínio foi o
menor investimento em infraestrutura e maquinário,
que globalmente decaiu de 26.1% do PIB em
1970 para 20,8% em 2002.
O capital barato fez com que as empresas não
priorizassem tanto a eficiência nesse
fator. Porém, inevitavelmente quando
o crescimento da economia internacional se
firmar novamente e o custo do capital se elevar,
tal questão se tornará mais
relevante. Projeta-se uma demanda por capital
em 2030 recorde na história, com o
agravante de que a poupança global
não acompanhará o ritmo desse
crescimento. Então haverá um
cenário de maior escassez de capital
e taxas de juros mais elevadas. As empresas
terão, então, de melhorar a
eficiência e a gestão desse recurso.
Implicações para as empresas
multinacionais
Esses desafios e oportunidades tendem a transformar
os processos empresariais de busca de novos
mercados e fornecedores, de expansão
da produção e da sua pegada
tecnológica. Em termos de segmentos,
as decisões estratégicas quanto
a cada tendência serão ponderadas
pelos diferentes desafios em que cada um deles
precisa se concentrar, a saber:

As empresas terão de literalmente recriar
suas estratégias, sendo chave os seguintes
requisitos:
a) “Granularidade”: as
indústrias precisam conhecer bem o
contexto produtivo e mercadológico,
desenvolvendo uma visão altamente detalhada
e granular dos novos requisitos do mercado
para traçar estratégias apropriadas
de negócios.
Primeiramente, as empresas deverão
entender a dinâmica dos seus segmentos
produtivos, atentando-se para as novas tendências,
de forma a adquirir e sustentar vantagens
competitivas. Em segundo lugar, deverão
também ter uma visão granular
dos segmentos de seus clientes, para identificar
e customizar produtos e estratégias.
Terceiro, as empresas precisarão combinar
essa visão granular com operações
granulares. Não apenas os fatores de
arbitragem nos custos da mão-de-obra
serão privilegiados, mas a produtividade
total dos fatores. Além disso, o planejamento
deve ser aprimorado, deixando de contar apenas
com previsões pontuais, evoluindo para
projeções de cenários.
Nessa empreitada, o uso de grandes bancos
de dados será bastante relevante, melhorando
as resposta das empresas às demandas
dos seus clientes, e também de suas
operações e utilização
do maquinário em geral.
b) Agilidade: a nova
era será marcada por empresas muito
ágeis e interconectadas, que utilizam
a informação e análises
disponíveis em muito maior escala tão
bem quanto empregam talentos e maquinário
avançado para trazer aos diversificados
mercados globais bens e serviços de
alta qualidade.
A busca por processos de produção
mais enxutos deve continuar, sendo a maior
produtividade um objetivo fundamental para
manter-se competitivo, de forma que o empenho
em consolidar, simplificar, reduzir ineficiências
nas operações das empresas deve
continuar e expandir para outras áreas,
destacando a produtividade nos recursos. Por
isso o gerenciamento de dados, sobretudo em
uma era de rápido progresso da tecnologia
da informação, é um eixo
estratégico muito relevante para as
empresas do futuro.
Box
4 – Método para aumentar
a agilidade da empresa
A McKinsey propões uma metodologia
de quatro passos para conferir maior
agilidade aos processos produtivos e
de decisão: preempção
(escolha de procedimentos que evitam
descontinuidades operacionais), detecção
(de problemas e oportunidades), fortalecer
reação (criando claros
direitos e procedimentos decisórios
e de intervenção), capturar
oportunidades (habilidade de efetivamente
usar a volatilidade para ganhar vantagens
competitivas).
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c) Adotar novas
abordagens e capacidades: as empresas
precisarão aprender novas formas de
gerar ideias de negócios, contando
cada vez mais com seu ecossistema de fornecedores
e parceiros comerciais. Utilizarão
uma abordagem baseada no desempenho de todos
os fatores para elevar a produtividade.
A competitividade estará muito além
de meros ganhos de arbitragem sobre custos
do trabalho, precisando considerar todos os
fatores envolvidos na produtividade total
dos fatores: trabalho, capital, transporte,
talentos de liderança, materiais e
componentes, energia, políticas de
comércio e regulação.
Os empresários deverão assumir
compromissos de maior responsabilidade em
um cenário de maior risco, e para isso
precisarão realizar investimentos diversos
e ágeis, traçando um planejamento
dos investimentos de longo-prazo condizente
com as transformações em curso
na demanda. A diversificação
do portfolio será importante para tornar
cada decisão estratégica menos
crítica, menos permanente e mais fácil/
menos custosa de reverter.
d) Investir em mudança
organizacional e formação de
talentos: para operar num ambiente
mais complexo, com agilidade e granularidade,
as empresas precisam remover barreiras organizacionais
e construir novas capacidades e mentalidades
de negócio. Para tal empreitada, precisam
de empregados com as habilidades certas.
Implicações para o setor
público
Do lado do setor público, será
preciso encarar o setor industrial não
apenas como um grande empregador, mas também
como crucial para a elevação
da produtividade, das inovações
e da competitividade. Deve-se levar em conta
que a indústria carrega um grande setor
de serviços associados, cada vez mais
relevantes na produção doméstica
e também no comércio exterior.
Além disso, as cadeias produtivas ficarão
mais complexas, de forma que as políticas
industriais precisam ter amplo conhecimento
dos segmentos das indústrias e das
interconexões existentes.
O papel crucial do Estado para o desenvolvimento
industrial é com relação
à criação de um ambiente
para empresas inovadoras e competitivas, gerando
condições das firmas manufatureiras
locais se sustentarem ao longo do tempo. Não
se trata apenas de um estado regulador, mas
corrigir falhas de mercado, apoiar indústrias
nascentes etc. Diante da maior competição
internacional para atrair empresas globais
e encorajar sua expansão, os governos
que atuarem mais fortemente junto ao setor
privado (incluindo empresas multinacionais
e encorajando sua expansão), gerando
um ecossistema que atraia os talentos e promova
inovações, terão maiores
chances de por em marcha modelos econômicos
bem-sucedidos.
Uma prioridade para política, neste
sentido, é a educação
e a qualificação da mão-de-obra,
tanto em termos sociais e públicos,
quanto no âmbito das empresas, para
ampliar a capacidade da nação
de pesquisa e desenvolvimento – o que
requer maior aproximação entre
o setor público, privado e as instituições
de ensino.
Em termos práticos, o relatório
propõe um modelo de elaboração
de políticas públicas que conta
com os seguintes estágios:
i) Realizar o benchmark
da posição competitiva no contexto
das novas tendências: é preciso
entender o ponto de partida do país,
os custos de fatores, as novas demandas dos
mercados; apoiar inovação –
com suporte à pesquisa, criação
e difusão; administrar os riscos e
colaborar com o setor privado de maneira ágil.
ii) Estabelecer objetivos
e alinhamentos: em termos econômicos,
tecnológicos, sociais. É preciso
ser realista e envolver todos os agentes relacionados
a cada objetivo.
iii) Escolher a política
certa para a tarefa: há quatro categorias
de políticas, com diferentes graus
de intervenção. A primeira é
a imposição de regras e direcionamentos,
a segunda é a construção
de viabilizadores dos objetivos, a terceira
é a coordenação de intervenções
localizadas e a quarta é ser o principal
agente.
Nesse sentido, o quadro abaixo apresenta exemplos
dessas quatro categorias de políticas
em diversos países, por segmento industrial.

iv) Monitorar o progresso
das políticas e corrigir desvios.
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