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                          IEDI na Imprensa - A Bula Trocada

                          Publicado em: 03/12/2011

                          A Bula Trocada
                          Correio Braziliense - 03/12/2011

                          Antonio Machado

                          Pacote pró-consumo subestima o vazamento para importações, uma das causas do raquitismo do PIB

                          A queda persistente do ritmo de crescimento da produção física da indústria, conforme os mapas mensais do IBGE, merece uma discussão aprofundada, já que a crise global e as ações tomadas no início do ano contra a inflação parecem explicar só parte dessa tendência.

                          O crescimento da produção em doze meses até outubro de mero 1,3%, vindo de 1,6% até setembro, não rima, por exemplo, com a retórica do governo sobre a grandiosidade das obras supostamente executadas simultaneamente do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, e dos projetos de investimentos aprovados pelo BNDES, de arenas para a Copa de 2014 às usinas hidrelétricas, sem falar na exploração do pré-sal pela Petrobras. É muita coisa para tão pouca produção.

                          Não se trata de brigar com os dados do IBGE: são esses mesmos, e se mostrarão piores, na terça-feira, com o anúncio do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre. Aguarda-se estagnação em relação ao trimestre anterior ou uma ligeira queda.

                          A desaceleração além da conta feita pelo governo é o que explica as medidas para incentivar o consumo e o funding externo afastado da bolsa e do mercado de papéis de dívida pela cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). A retração econômica se mostrou maior do que o Banco Central e a Fazenda planejaram ao apertar, em dezembro, o multiplicador bancário visando reduzir o crédito.

                          Imaginou-se que o controle do crédito, ou medida macroprudencial, como foi chamada, permitiria ao BC aliviar a pancada da Selic no esforço de vergar a inflação, cuja convergência à meta central de 4,5%, além disso, foi oficiosamente adiada para 2012. O BC subiu a Selic, ainda assim, de 10,75% em dezembro até 12,50% em julho.

                          O cenário anti-inflacionário pressupunha que o aumento da taxa de juro básica não poderia ser dispensado, mesmo com o bloqueio de R$ 50,6 bilhões de gastos no orçamento fiscal do governo, excluídos a área social e os investimentos, que acabaram os mais atingidos.

                          Se tudo corresse como o programado, o crescimento do PIB sofreria uma redução de 7,5%, em 2010, para 4% a 4,5% este ano. A inflação, que chegou a 7,3%, fecharia o ano abaixo do teto da meta (6,5%), e voltaria a 4,5% em 2012, sem danificar o emprego e a produção.

                          O investimento público e os pagamentos diretos a pessoas a partir do orçamento fiscal (funcionalismo, aposentadorias, transferências de renda pelas políticas sociais) garantiriam a tração da demanda, em parte compensando a redução do consumo pela classe média típica – mais sensível ao aperto do crédito. No papel, era um bom plano.

                          Frustração do roteiro

                          O que aconteceu com esse roteiro? Com o ano praticamente acabado, o resultado é estranho. O nível do crédito, cujo crescimento viria de mais de 20% ao ano para 12% a 15%, segundo o BC, segue firme. O emprego e a renda se mantêm fortes. Só agora emitem sinais, embora muito tímidos, de perder o pique, mas nada assustador.

                          O consumo, medido pelas vendas do varejo também monitoradas pelo IBGE, cresce ao ritmo de quase 10% ao ano. Atividades de serviços estão aquecidas, captando grande parte da demanda da nova classe média que ascendeu do piso da pirâmide de renda. A resistência da inflação vista pelo IPCA está ai - na inflexibilidade de preços e tarifas dos vários segmentos do setor de serviços. E a indústria? A previsão da consultoria LCA prevê crescimento de apenas 0,5%.

                          Domínio da importação

                          A indústria foi parando. O que já chamava a atenção do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, na retomada forte da produção anterior ao colapso do crédito global, no fim de 2008, ressurgiu tão logo a recessão foi superada em meados de 2009 e a economia disparou.

                          Não é algo ainda bem compreendido: a demanda interna impulsionada pela renda em situação de quase pleno emprego vem sendo atendida a doses crescentes por importações. Mas a produção nacional per si é cada vez mais também internacionalizada, com a agregação de partes e componentes importados estimados em 25% do valor adicionado. Em segmentos como de informática e eletroeletrônica passa de 50%.

                          Pisando no próprio pé

                          Ai está a causa da anemia do PIB, cujo crescimento este ano será perto de 3% e, dependendo do que for feito, não avança muito mais em 2012. Não é bem falta de consumo o que o deprime, mas de oferta nacional sem vazar para importações e de investimento crescendo em ritmo superior ao da demanda. As ações para estimular o consumo de eletrodomésticos e facilitar o crédito não vão nessa direção.

                          Elas darão algum gás ao PIB, mas vão debilitá-lo, se a indústria continuar com o viés de distribuidora de produtos importados.

                          Diagnóstico defasado

                          O economista Julio Sérgio Gomes de Almeida, do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), conhece a indústria na palma da mão. Para ele, a situação hoje é diferente da de 2008.

                          Ele teme em especial a revalorização do real. É o que prevê a LCA devido à queda do IOF sobre aplicações estrangeiras em debêntures e ações. Nesse caso, diz Julio Sérgio, as medidas anunciadas “vão beneficiar não a sustentação do crescimento e do emprego no país, mas nos outros países”. A presidente Dilma Rousseff precisa afinar seu diagnóstico, que parece defasado. A economia pede menos juros. E, sobretudo, menos custos de produção e mais demanda originada de investimentos e não, crescentemente, por políticas de renda.

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