IEDI na Imprensa - Pelo 2º tri seguido, setor externo freia alta do PIB
Valor Econômico
Importação em alta tem impacto no começo do ano, e analistas esperam que contribuição negativa prossiga em 2027
Marta Watanabe
Com importação em alta e recuo nas exportações no segundo trimestre de 2026, na comparação com os três meses anteriores, o setor externo deu contribuição negativa para o PIB, reforçando quadro de desaceleração de componentes da demanda no período. No critério da variação trimestral, é o segundo período consecutivo em que o setor externo reduz o crescimento do PIB. Para 2027, pesam no cenário a desaceleração maior da atividade e o El Niño.
Segundo o IBGE, a exportação de bens e serviços caiu 0,8% no segundo trimestre ante os três meses anteriores, com ajuste sazonal. A importação subiu 1,8%. As variações resultaram em contribuição negativa de 0,4 ponto percentual no PIB total, que cresceu 0,5% na mesma métrica, apontam cálculos do economista Rodolfo Margato, da XP. Na comparação com igual período de 2025, a exportação no segundo trimestre subiu 3,8% e a importação cresceu a taxa maior, de 5,5%, resultando também em contribuição negativa, de 0,3 p.p. do PIB total, que cresceu 2%.
“A contribuição negativa para o PIB do setor externo acontece muito mais pela força da importação do que pelo comportamento da exportação, mais em linha com o esperado”, diz Livio Ribeiro, economista e sócio da BRCG.
No ano que vem, diz, o efeito do El Niño deve resultar em um agro negativo no primeiro semestre, dada uma base comparativa desfavorável também. O crescimento estimado pela BRCG para o ano que vem, diz, é de alta de 1,1% para o PIB. Para 2028, diz, a projeção é de alta de 1%, já com contribuição mais positiva do agro. “A componente cíclica do PIB em 2028 emburaca, vai para alguma coisa em torno de alta de 0,5% ou abaixo.”
Muitos analistas, diz, estão vendo o esfriamento do componente cíclico mais rápido para 2027. “Acredito que isso está mais para o segundo semestre de 2027 e aí pegando 2028”, avalia Ribeiro, que também é pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Os dois setores [agropecuária e petróleo] podem muita coisa, mas não podem tudo”
Esse dinamismo também deve fazer com que a contribuição do setor externo permaneça negativa este ano e em 2027, diz Ribeiro. Ele calcula que este ano o setor externo deve tirar 0,4 ponto percentual do PIB e em 2027, a ordem de grandeza é semelhante, tirando cerca de 0,3 ponto percentual.
“Já em 2028 vira e a contribuição do setor externo fica levemente positiva”, diz. “Como eu tenho um agro negativo no ano que vem e um cíclico que é ruim, mas não desastroso, haverá composição que leva a um setor externo levemente negativo.” Os componentes cíclicos, explica, estimulam a importação. A exportação, diz Ribeiro, será mais fraca no ano que vem, em razão do agro mais fraco. “O volume de petróleo embarcado continua crescendo. Como resultado, a exportação em 2027 continua crescendo, mas de forma sensivelmente menor.”
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, lembra que, do lado da oferta, a agropecuária puxou o crescimento do PIB, com alta de 2,8% no primeiro trimestre ante os três meses anteriores. E o ramo extrativo cresceu 3,4%, evitando que a indústria total ficasse no vermelho, na mesma métrica. Os desempenhos mostram, respectivamente, a ajuda do agro e também do petróleo no PIB. “São duas atividades que ajudam essencialmente na exportação também, quando se olha o lado da demanda do PIB. Os dois setores podem muita coisa, mas não podem tudo”, diz. Ele chama a atenção para a intensa desaceleração que os resultados do segundo trimestre mostraram e estima que o PIB total deve crescer 1,8% em 2026.
“Ou seja, o bom desempenho de atividades tipicamente exportadoras do país não foi suficiente para ampliar os embarques do país e reverter a contribuição negativa do setor externo”, diz Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI). Ele ressalva, porém, que a contribuição negativa do setor externo no segundo trimestre foi menos intensa do que na entrada do ano. No primeiro trimestre a exportação caiu 2,1% e as importações aumentaram 4,2%. Apesar da desaceleração, os desembarques continuaram aumentando em relação aos três primeiros meses do ano, fazendo a demanda externa retirar crescimento do PIB, observa.
Cálculos de Fernando Montero, economista-chefe da Tullett Prebon, mostram que no primeiro semestre de 2026 ante igual período do ano passado a contribuição externa foi positiva, embora menor que o da absorção doméstica. Nessa comparação, o PIB avançou 1,91%, com ajuda de 1,46 p.p da absorção interna e 0,45 p.p. do setor externo.
