IEDI na Imprensa - Indústria vê déficit comercial bater recorde no 1º semestre
Valor Econômico
Defasagem tecnológica brasileira ajuda a explicar saldo negativo, com problemas que vão de remédios a carros elétricos
Marta Watanabe
A indústria de transformação fechou o primeiro semestre do ano com déficit comercial de US$ 38,2 bilhões, o mais profundo da série histórica iniciada em 2000. De janeiro a junho de 2025 o saldo negativo foi de US$ 37 bilhões, agora o segundo mais acentuado da série. O resultado da indústria na primeira metade deste ano contrasta com o desempenho da balança comercial total do país. Puxada pela exportação de commodities, a balança total acumula saldo positivo de US$ 49 bilhões de janeiro e julho e deve ter em 2026 superávit superior ao projetado no início do ano.
A indústria de transformação teve na primeira metade do ano a reação do ramo de aeronaves, cujas exportações, após sete anos, recuperaram o nível pré-pandemia. O desempenho levou o déficit comercial do segmento a quase um décimo do observado de janeiro a junho de 2025. Outros ramos industriais, porém, tiveram os mais agudos déficits para o primeiro semestre desde 2000, provocados principalmente por níveis históricos de importação. Entre eles, farmacêuticos, complexo eletrônico e os ramos de veículos, reboques e carrocerias, de produtos de borracha e plástico e de têxteis, vestuário e calçados, segundo dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI).
Para Rafael Cagnin, economista-chefe do IEDI, os déficits comerciais em níveis históricos refletem a defasagem tecnológica brasileira em vários segmentos, favorecendo o aumento das importações, desde remédios até eletrônicos e carros eletrificados.
Os dados do IEDI mostram que houve pelo menos um segmentos com déficit comercial recorde em todos os quatro grupos da indústria classificada por intensidade tecnológica, desde a alta tecnologia até a média-baixa intensidade, passando pela média-alta e média tecnologias. Nos grupos menos intensos em tecnologia, aponta Cagnin, a questão é a competitividade da produção brasileira, que enfrenta importados fabricados em grande escala e em condições de melhor custo, caso de borrachas e plásticos e de têxteis, vestuário e calçados. O impacto das cotações de petróleo com a eclosão do conflito no Oriente Médio também fez diferença em algumas atividades.
O déficit da balança da indústria de janeiro a junho deste ano resultou de US$ 94,7 bilhões em exportações, com alta de 7,1% ante igual período de 2025. Na mesma comparação, as importações cresceram a taxa um pouco menor, de 5,9%, mas sobre uma base maior, o que resultou em US$ 132,9 bilhões em compras externas.
Apesar do aprofundamento do déficit comercial da indústria de transformação, Cagnin destaca aspectos positivos. Na alta tecnologia, pela primeira vez as exportações superaram o patamar do pré-pandemia, de 2019. Esse grupo fechou o primeiro semestre com US$ 4,4 bilhões em embarques, superior aos US$ 3,3 bilhões do ano passado e pouco acima dos US$ 4,3 bilhões de 2019, sempre de janeiro a junho.
A recuperação deve-se muito à exportação de aeronaves, que alcançou US$ 2,8 bilhões no primeiro semestre do ano e cresceu 52,9% ante mesmos meses de 2025, desempenho que puxou a alta de 33,1% nos embarques do grupo da alta tecnologia. A alta da exportação foi acompanhada de redução de 52,5% na importação de aeronaves. A combinação resultou num saldo comercial ainda negativo, de US$ 0,6 bilhão, mas bem menor que o déficit de US$ 5,4 bilhões de 2025, sempre no primeiro semestre.
“Há realmente um dinamismo da Embraer que vem permitindo a compensação de um mercado que está bastante competitivo, com companhias aéreas enfrentando vários problemas, como o preço de petróleo e o impacto nos combustíveis. Mas o portfólio da empresa e os problemas de outras fabricantes internacionais de aeronaves permitiram o avanço da Embraer. Isso é uma boa notícia. Estamos mais bem inseridos na cadeia global na parte de aeronaves.”
Mesmo assim, observa Cagnin, o déficit comercial do grupo da indústria de alta intensidade tecnológica persiste em nível elevado. “Frente ao pré-pandemia, o saldo negativo está quase 80% maior.” Isso, aponta, está relacionado ao aumento das importações de outros dois ramos que compõem o grupo de alta tecnologia: complexo eletrônico, cujas importações atingiram US$ 15,1 bilhões de janeiro a junho, recorde da série histórica, com alta de 14% contra 2025 e 45% acima de 2019. Os desembarques da indústria farmacêutica alcançaram US$ 9,1 bilhões, também nível histórico, com alta de 13,9% ante 2025 e mais que o dobro dos US$ 4 bilhões de 2019, sempre de janeiro a junho. No conjunto, os três ramos que formam a alta tecnologia fecharam o primeiro semestre com déficit comercial de US$ 23,2 bilhões, pouco abaixo dos US$ 25,1 bilhões de 2025, mas bem acima dos US$ 13 bilhões de 2019.
“Farmacêuticos e eletrônicos são dois universos da balança comercial muito sintomáticos do processo de inovação dessas atividades no mundo, vis-à-vis ao que temos no Brasil, dada a diferença de estrutura produtiva. Por mais que o setor farmacêutico brasileiro seja robusto, dinâmico, está longe de acompanhar o ritmo inovativo que acontece no restante do mundo”, avalia Cagnin.
No grupo de média-alta tecnologia há também reflexos da defasagem tecnológica, diz. Pelos dados do IEDI, o grupo fechou a primeira metade do ano com déficit comercial de US$ 45,4 bilhões, mais agudo do que os US$ 40,4 bilhões de iguais meses de 2025 e pouco mais que o dobro dos US$ 22,4 bilhões de mesmo período de 2019. Cagnin destaca o setor de veículos, reboques e carrocerias, que fechou o janeiro a junho do ano com déficit comercial de US$ 10 bilhões, o mais acentuado da série. Em igual período de 2025 o saldo negativo foi de US$ 4,8 bilhões e em 2019, de US$ 2,6 bilhões.
“São os veículos elétricos vindos da China. Há uma variação forte no curto prazo dada pela antecipação de importações devido ao calendário de elevação das tarifas brasileiras, mas a alta dos desembarques ao longo do tempo também reflete uma transformação tecnológica do produto. É o mesmo problema dos medicamentos e do complexo eletrônico que vai se refletindo nas relações de comércio exterior do país”, observa Cagnin.
Um dos destaques positivos foi o setor de aeronaves, que exportou 53% mais do que no primeiro semestre do ano passado
As importações de veículos, diz, vêm pressionando o processo de descarbonização da mobilidade no país para a eletrificação enquanto o Brasil é um grande produtor de biocombustível.
“A eletrificação certamente fará parte do processo de transição energética, mas não é a única rota tecnológica. Creio que durante algum tempo teremos mais de uma solução para esse processo de descarbonização.”
Ele defende que é preciso viabilizar os “matches entre oferta e demanda e criar estrutura para que a rota tecnológica do biocombustível se fortaleça”. “Inclusive para usar isso como atributo para exportação, o que vai exigir competitividade. A invasão do mercado por veículos elétricos, sobretudo chineses, vem fortalecendo uma rota tecnológica específica que não é aquela em que o Brasil fincou o pé e tem um histórico.”
Outro aspecto negativo para a balança da indústria, diz Cagnin, vem da média tecnologia, que fechou com superávit, mas relativamente baixo em relação a desempenho de períodos anteriores. O grupo fechou o primeiro semestre do ano com US$ 1,6 bilhão de saldo positivo, maior que os US$ 577 milhões de 2025, mas abaixo dos US$ 2,9 bilhões de 2019, sempre no mesmo período.
Nesse grupo, os produtos de borracha e plástico tiveram déficit comercial recorde de US$ 2,7 bilhões em 2026, acima do saldo negativo de US$ 2,1 bilhões do ano passado e mais que o dobro do US$ 1,3 bilhão de 2019, sempre de janeiro a junho. O valor das compras externas do ramo também foi recorde no primeiro semestre deste ano, de US$ 4,1 bilhões. Nesse segmento, diz Cagnin, houve grande pressão para cima nos preços dos importados, sob impacto da alta da cotação de petróleo com a guerra no Oriente Médio e o repasse disso ao longo das cadeias de derivados da commodity.
Único grupo da transformação com superávits comerciais mais significativos, a média-baixa tecnologia fechou com saldo positivo de US$ 28,8 bilhões na primeira metade do ano. Pico histórico da série, o valor é mais que o dobro do superávit de US$ 13,6 bilhões em igual período de 2019.
Dentro do grupo, Cagnin destaca a redução do déficit em derivados de petróleo, também sob impacto dos efeitos de guerra. “O déficit frente ao pré-pandemia nesse ramo caiu 40%, e isso muito calcado no aumento de exportação, que foi duas vezes e meia maior do que o do primeiro semestre de 2019, com um dinamismo muito forte ainda em 2026, com quase 30% de alta ante igual período de 2025.”
Mesmo nesse grupo que é superavitário no conjunto, o segmento de têxteis, vestuário e calçados teve de janeiro a junho déficit de US$ 2,5 bilhões, o mais agudo para o período, antes US$ 1,9 bilhão de saldo negativo em 2025 e de US$ 1,1 bilhão em 2019, sempre nos mesmos meses. O déficit nesse ramo, diz Cagnin, vem do problema estrutural de produtividade do trabalho, que favorece as importações. As compras externas no ramo somaram US$ 3,9 bilhões no primeiro semestre de 2026, recorde para o período. “Está relacionado também à chamada taxa das blusinhas e às vendas por plataformas digitais.”
