IEDI na Imprensa - Em dois anos, Brasil despenca em ranking de produção industrial
O Globo
Brasil saiu da 33ª posição em 2024 para 69ª neste ano. Analistas citam tributação, juros e falta de abertura comercial
Mayara Castro e Roberto Malfacini
A indústria de transformação, que deve ser o setor mais afetado pelo tarifaço, já vem se reduzindo. Em dois anos, o Brasil caiu de 33º para 69º num ranking de 90 países com base em dados da Unido. Tributação, juros e câmbio altos e falta de abertura são fatores.
Aindústria de transformação do Brasil, o segmento mais afetado pelo tarifaço que entra em vigor hoje, já atravessa um processo de desindustrialização ques e arrasta há décadas. Na avaliação de especialistas, os juro sal tosse somam a problemas estruturais e fazem o país perder espaço no ranking mundial.
Levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), com base em dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), antecipado pelo Valor, mostra que o Brasil ocupou a 69ª posição em um ranking de 90 países no primeiro trimestre deste ano, ficando entre o terço com pior desempenho. O estudo compara o crescimento do setor por trimestres. No início do ano, a produção da indústria de transformação brasileira teve recuo de 0,1% frente ao igual período do ano anterior.
Apesar de ter melhorado em relação à 80ª colocação do quarto trimestre de 2025, o Brasil teve um aqueda significativanos dois últimos anos. O país passou do33ºlugarn oprime iro trimestre de 2024, para o 47º em 2025, até chegar à atual 69ª posição.
Para o professor de Macroeconomia do Ibmec-SP, Renato Veloni, a queda no desempenho da indústria de transformação reflete, em parte, uma taxadejurosde14,25%aoano.
— Depois dos insumos, os juros representam um dos maiores custos para a indústria de transformação, que depende de investimentos de longo prazo. O ciclo longo de juros elevados reduz a competitividade das empresas.
NO PIB, FATIA É DE SÓ 11,8%
A cotação do dólar, diz Veloni, também afeta a competitividade da indústria: quando o real está valorizado, fica mais barato importar produtos, aumentando a concorrência coma indústria nacional. Quando o câmbios e desvaloriza,os importados ficam mais caros, e a produção doméstica ganha competitividade.
Para o professor, o novo tari faço americano não deve alterar significativamente as perspectivas daindúst ri abrasileira, mas piora uma situação de estagnação. Os setores mais dependentes dos EUA serão os mais afetados, e as medidas anunciadas pelo governo podem aliviar o caixa, mas somente no curto prazo:
—Se a diplomacia não conseguir negociar aqueda ou redução das novas tarifas ou as empresas não conseguirem diversificar seus destinos de exportação, o financiamento apena sadia as dificuldades por alguns trimestres.
Dados da Federação das Indústriasdo Esta dodo R iode Janeiro( Firjan) indicam que a produção industrial brasileira opera cerca de 15% abaixo do pico registra doem 2011 e, nos cinco primeiros meses de 2026, o crescimento do setor ficou concentrado principalmente na indústria extrativa, enquanto a transformação permaneceu estagnada.
— Esse contraste evidencia que o desempenho do setor tem sido sustentado por atividades ligadas à extração de recursos naturais, sem uma recuperação equivalente dos segmentos de maior valor agregado, o que se reflete no encolhimento da participação da indústria de transformação no PIB, que saiu de 35,9% em 1985, o maior nível da série, para 11,8% em 2025 — disse Gerlane Andrade, da Firjan.
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a perda de competitividade do setor vem da falta de inserção internacional por meio da abertura comercial e da celebração de acordos. O economista afirma que o Brasil permaneceu relativamente fechado e manteve um elevado nível de proteção tarifária:
— Precisamos aumentar o investimento, atrair capital, concluiraReformaTributária, melhorar a infraestrutura e ampliar acordos comerciais, especialmente com nações desenvolvidas. É isso que permitirá aumentar a produtividade e recuperar a competitividade da indústria brasileira.
TRIBUTAÇÃO ALTA
Claudio Considera, pesquisador associado do FGV Ibre, avalia que o principal desafio é justamente abusca por novos mercados para exportar, em um momento em que outros países seguem o mesmo movimento. Ele acredita que, embora o Brasil tenha mantido exportações relevantes diante do tarifaço de
Trump, a concentração da pauta em commodities limita o diferencial do país.
Para compensaras perdas da indústria e conquistar novos mercados, ele considera necessário aumentara produtividade para tornar o país mais competitivo no cenário mundial.E isso passa por começara repensar questões estruturais, como a desindustrialização precoce que já acontece desde a década de 1980. O economista também cita como central a questão dos impostos sobre a indústria de transformação. Segundo ele, quanto mais elevado o imposto, menor a participação do setor no Produto Interno Bruto (PIB):
—A razão principal da indústria estar as si mé a falta de investimento. Isso leva a uma produtividade menor da indústria e à sua perda de participação no PIB —apontou.
Considera diz que, nos países europeus, de maneira geral, onde a taxação é menor sobre a indústria, a participação no PIB é maior do que em outros países, como o próprio Brasil:
—Nomundointeiro,hámenos taxação sobre produtos industriais. A tributação recai mais sobre o setor de serviços do que sobre a indústria.
Considera acredita que a Reforma Tributária pode favorecer a indústria ao reduzir a carga sobre o setor, baratear produtos e estimular a demanda e a produtividade, mas ressalta que os efeitos serão graduais e deverão ser acompanhados pelo controle dos gastos públicos para compensar eventuais perdas de arrecadação.
