IEDI na Imprensa - Indústria tem piora pelo 2º ano e Brasil despenca no ranking
Valor Econômico
Crescimento de 1,5% em relação ao início do ano passado só foi suficiente para que país não ficasse em posição ainda pior, indica levantamento
Giordanna Neves
O desempenho da indústria de transformação brasileira piorou pelo segundo ano consecutivo na comparação com outros países. É o que mostram números da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) e compilados pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI).
Segundo o levantamento, a indústria de transformação brasileira recuou 0,1% nos primeiros três meses de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado colocou o Brasil na 69ª posição de um ranking de 90 países, que mede o crescimento do setor no trimestre. O país havia ocupado a 33ª posição no início de 2024, caiu para a 47ª em igual período de 2025 e agora recuou ainda mais.
A queda no ranking ocorre mesmo com o crescimento de 1,5%, de acordo com a metodologia da Unido, na comparação do primeiro trimestre deste ano com os últimos três meses de 2025. O cálculo já é livre de fatores sazonais. A expansão foi suficiente para que o Brasil pulasse 11 posições do ranking em três meses, saindo da 80ª colocação, mas o bastante não para reverter a piora em prazos mais longos.
Segundo o economista-chefe do IEDI, Rafael Cagnin, o crescimento de 1,5% da indústria no primeiro trimestre foi apenas uma recomposição após o fraco desempenho do fim de 2025 e ficou concentrada em atividades ligadas ao processamento de commodities, como derivados de petróleo e produtos agrícolas e minerais. Por isso, não representa uma retomada disseminada da atividade do setor.
Na avaliação de Cagnin, o cenário não é de crise, mas de estagnação, pois os juros elevados seguem limitando o dinamismo dos setores industriais mais dependentes de crédito, sobretudo aqueles com maior capacidade de encadeamento produtivo. Atualmente, a Selic está em 14,25% ao ano.
Nesse contexto, afirmou, os juros mais altos acabam reduzindo a potência da Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial criado pelo governo Lula. “Esse conflito entre política industrial de um lado e política macroeconômica de outro, a gente já assistiu várias vezes no Brasil. Inclusive, é um dos principais motivos do porquê as iniciativas de política industrial no Brasil acabam tendo uma efetividade relativamente baixa”, avalia.
Na comparação com o primeiro trimestre de 2025, enquanto a produção da indústria de transformação brasileira ficou praticamente estável, a manufatura mundial avançou 3,1%. A indústria global mantém um ritmo de expansão superior a 3% na comparação interanual desde o início de 2025.
Na América Latina, Argentina (-2,3%) e México (-1,8%) registraram retrações mais intensas frente ao primeiro trimestre de 2025. A queda da produção industrial da região foi de 0,4% na comparação anual. Já frente ao trimestre imediatamente anterior, o avanço de 1,5% da indústria brasileira ajudou a América Latina a registrar alta de 0,3%.
“De forma geral, a indústria brasileira continua muito restringida pelos juros, e isso aparece na produção de máquinas e equipamentos, de veículos, ramos de atividade de maior intensidade tecnológica, que são justamente aqueles ramos que têm liderado o crescimento da indústria de transformação no mundo como um todo”, diz. “No mundo, a alta e média-alta tecnologia puxam o crescimento da indústria. No Brasil, essa é a fração que mais patina.”
Cagnin afirma ainda que bens de capital e de consumo duráveis possuem cadeias produtivas longas e, quando crescem, disseminam o avanço da indústria para outras atividades fornecedoras de insumos. Com essas cadeias travadas, porém, o dinamismo da atividade fica mais localizado. “Essa conjuntura interna específica explica essa queda do ranking, que não é de agora”, diz.
A apreciação cambial também influencia esse quadro, afirma. Embora beneficie setores que dependem de insumos importados, o câmbio valorizado amplia a concorrência de produtos estrangeiros no mercado doméstico. Em um cenário de acirramento da competição, isso aprofunda pressões e evidencia problemas estruturais de competitividade da indústria brasileira.
Insistirmos em proteger setores e empresas pouco produtivos, em vez de focar no que podemos ser competitivos”
José Ronaldo Leme Jr, fundador e CEO da Quantivis Analytics e professor do Ibmec diz que o desempenho inferior do Brasil em relação à média mundial evidencia que as dificuldades da indústria nacional são estruturais. Na sua avaliação, o país enfrenta um déficit de competitividade que a redução da taxa Selic, por si só, não é capaz de resolver.
“Juros elevados e carga tributária crescente, ambos derivados da mesma pressão fiscal, somam-se ao velho custo Brasil e afastam o país justamente dos segmentos de média-alta e alta tecnologia que lideram o crescimento global”, diz.
A raiz deste cenário, de acordo com Leme, está no desequilíbrio fiscal. “O crescimento expressivo dos gastos públicos pressiona a dívida, que exige juros mais altos por mais tempo, e alimenta sucessivas rodadas de aumento de impostos. Para a indústria, o resultado é um custo de capital que inviabiliza o investimento produtivo”, comenta.
Armando Castelar, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), aponta que a perda de competitividade da indústria brasileira é resultado de um processo de longo prazo. Segundo ele, o país foi bem-sucedido na industrialização até os anos 1980, quando a indústria de transformação chegou a representar 36% do PIB, o triplo do que tem atualmente, mas se não adaptou à maior abertura econômica e à necessidade de elevar a produtividade.
“Desde então, seguimos com políticas voltadas a compensar essa falta de competitividade, que vem de um ambiente econômico desfavorável, com altas taxas de juros e elevada tributação. Isso ocorre por causa de expansionismo fiscal, falta de infraestrutura, elevada insegurança jurídica e insistirmos em proteger setores e empresas pouco produtivos, em vez de focar naquilo em que podemos ser competitivos”, afirma.
Segundo Castelar, a indústria de transformação brasileira é, atualmente, 24% menos produtiva do que era há trinta anos. “É uma espiral descendente. Nesse meio tempo, a Ásia, e a China, em particular, experimentou um grande desenvolvimento industrial, tornando ainda mais evidente a nossa falta de competitividade”, diz.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) diz que análises trimestrais são importantes, mas refletem mais questões conjunturais. No cenário global de bruscas mudanças geopolíticas, é também essencial observar o contexto de cada país, afirma.
Segundo a pasta, no caso brasileiro, pesam a instabilidade internacional, os juros elevados por longo período, os tarifaços dos Estados Unidos - especialmente sobre a indústria de transformação - e a guerra comercial entre as principais potências. O Mdic destacou ainda que políticas industriais voltadas ao adensamento tecnológico e a setores de maior intensidade tecnológica devem ser avaliadas no médio e longo prazo, segundo o Banco Mundial. Seus principais efeitos tendem a aparecer entre três e cinco anos. Ganhos de inovação e competitividade podem levar uma década ou mais.
Para o Mdic, é mais adequado aferir dos impactos da política industrial utilizando dados de períodos mais longos e observar se houve incremento em relação ao padrão anterior. Dados da OCDE e do Eurostat sobre desempenho da indústria de transformação colocam o Brasil na 44ª posição (entre 50 países) de 2016 a 2018; e na 38ª entre 2019 e 2022. De janeiro de 2023 a abril de 2025, o país fica na 20ª posição.
Entre 2023 e 2025, o crescimento acumulado da indústria de transformação brasileira (3,2%) foi o sexto maior do G20, diz o Mdic, à frente de França, EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, Canadá e México, conforme dados da Unido. Esse crescimento se deu com aumento de 2% na participação dos setores de maior intensidade tecnológica.
