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                          IEDI na Imprensa - Caneta emagrecedora e envelhecimento da população disparam importação de medicamento do Brasil

                          Publicado em: 01/07/2026

                          Valor Econômico

                          Canetas emagrecedoras, remédios para população idosa e saúde pública impulsionam compras, que crescem há três anos

                          Marta Watanabe e Álvaro Fagundes

                          Onda de canetas emagrecedoras, limitações da indústria local para inovação tecnológica, envelhecimento da população e fornecimento de remédios pelo poder público são alguns dos principais fatores que resultaram em aumento das importações de medicamentos, segundo economistas e representantes de indústrias do setor. Cada vez mais intensas, as importações refletem uma defasagem tecnológica brasileira num mundo em que o ritmo de inovações radicais e incrementais farmacêuticas se acelerou no pós-pandemia de covid-19.

                          No período de janeiro a maio as importações de medicamentos somaram US$ 6,53 bilhões, 14,4% a mais do que igual período de 2025, num ritmo de crescimento muito maior que os 3,2% de alta dos desembarques totais do país. O crescimento não é pontual e vem se intensificando. Os remédios atingiram 5,6% da importação brasileira total neste ano ante 5,1% de igual período de 2025 e 4,9% em 2024. Em 2019 era de 3,9%, sempre nos mesmos cinco meses.

                          No ano fechado de 2025 a importação de medicamentos atingiu US$ 14,2 bilhões, com expansão de 18% contra 2024, quando havia crescido 12,1%. Em 2023 foram 11,4%. Foram três anos seguidos com crescimento a dois dígitos, algo que na última década e meia só havia acontecido em 2021 (alta de 57,5%), em meio à pandemia de covid-19. De 2011 a 2020 as importações anuais oscilaram entre US$ 6 bilhões e US$ 7 bilhões, perto da metade do que foi desembarcado desses produtos em 2025.

                          O envelhecimento da população e a ampliação do fornecimento público de remédios via Sistema Único de Saúde (SUS) ajudam a ampliar a demanda, inclusive por itens mais caros, de maior valor agregado, que não são produzidos no Brasil. Isso impulsiona as importações e gera déficit na balança comercial de medicamentos, diz Reginaldo Arcuri, presidente-executivo do Grupo FarmaBrasil, associação que reúne indústrias farmacêuticas. “Há demanda por medicamentos mais avançados para uma população etariamente cada vez mais parecida com a população do hemisfério Norte, mas num país que, infelizmente, ainda continua com renda per capita muito baixa”, diz Arcuri.

                          Há demanda por medicamentos mais avançados para uma população etariamente cada vez mais parecida com a do hemisfério Norte”

                          Dados do IBGE mostram que a população com 40 anos ou mais passou de 37,1% da total no primeiro trimestre de 2017 para 43,9% em iguais meses deste ano.

                          “Num país como o Brasil, com desigualdade social muito grande, é fundamental que o sistema de saúde forneça medicamentos gratuitos”, diz Walter Cintra Ferreira Junior, médico sanitarista e professor de gestão e saúde da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP). “Não basta a pessoa ter acesso a consulta médica ou eventualmente ao procedimento. Temos população envelhecendo rapidamente, o que torna as doenças crônicas um problema de saúde muito claro”, diz. “Do ponto de vista da economia da saúde, é muito melhor investir na medicação como política pública” (ver Subsídio a remédio é mais barato que tratamento, diz médico).

                          A demanda atual, avalia Arcuri, traz oportunidade para a indústria do setor, porque mostra que há mercado para produzir e vender medicamentos mais avançados. As importações, diz, refletem um problema estrutural de oferta doméstica, em razão da limitação da indústria farmacêutica local, não só na inovação tecnológica, mas também para produção em escala de alguns tipos de medicamentos e para acesso a financiamentos.

                          Dos cinco remédios mais vendido no varejo brasileiro de 2021 a 2025, quatro não são produzidos no Brasil. As canetas emagrecedoras estão nesse rol com Ozempic, Wegovy e Mounjaro, em primeiro, terceiro e quinto lugares, nessa ordem. O segundo mais vendido é o Forxiga, medicamento para diabetes, insuficiência cardíaca e doença renal, que tem apenas embalagem produzida no Brasil. Dentro da Farmácia Popular e cumpridas as condições, o remédio pode ser adquirido com gratuidade nas farmácias desde fevereiro de 2025. O único dos top 5 com produção interna é o antidiabético Glifage XR.

                          Enquanto as importações de remédios decolaram nos últimos anos, as exportações do setor ficaram estacionadas. De janeiro a maio, o Brasil embarcou US$ 499,2 milhões em medicamentos. Os valores no período têm ficado próximos a US$ 450 milhões ou US$ 500 milhões ao menos desde 2017. Em bases anuais o quadro é o mesmo, com vendas externas próximas da casa de US$ 1 bilhão nos últimos dez anos. O déficit da balança de medicamentos atingiu US$ 13,1 bilhões em 2025, após alcançar US$ 11 bilhões em 2024. Em 2019 era de US$ 5,9 bilhões. Os dados anuais são da FarmaBrasil, e os parciais foram levantados pelo Valor, com base nos códigos NCM fornecidos pela associação.

                          “É uma defasagem tecnológica que se expressa em déficit comercial no setor farmacêutico. Como as atividades de inovação no mundo se aceleraram no pós-pandemia, esse problema vai se recolocando de tempos em tempos. Agora isso está refletido nas canetas emagrecedoras. É preciso não só fazer o catch-up tecnológico, mas fazê-lo em velocidade maior”, diz Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI).

                          Atualmente a questão demográfica brasileira também coloca à frente os biofármacos, como os anticorpos monoclonais vinculados às chamadas doenças crônicas, mais comuns com o avanço da idade, como demências e cânceres, diz. “São medicamentos que temos poucas condições de fazer.”

                          Ao lado da fabricação de aeronaves e do complexo eletrônico, o ramo farmacêutico é classificado como de alta tecnologia dentro da indústria de transformação, grupo que tem déficit estrutural na balança comercial. A importação de remédios tem contribuído para elevar o saldo negativo. Dados do IEDI mostram que no primeiro trimestre de 2026 as importações de medicamentos representaram 34% da alta tecnologia, ante 25,9% em 2010. As exportações eram de 15% em 2010, chegaram a alcançar 26,5% em 2022, mas vêm caindo e voltaram aos 15% este ano, sempre de janeiro a março. As estatísticas do setor farmacêutico mostram que a alta das importações brasileiras vem sendo puxada especialmente por imunológicos, vacinas, terapias biológicas, medicamentos para cânceres e produtos biotecnológicos especializados.

                          As limitações do Brasil, diz Cagnin, não estão apenas nos remédios mais inovadores. Ele lembra que mesmo antes dos biofármacos, nas chamadas rotas sintéticas, ligadas aos genéricos, o Brasil conseguiu desenvolver produção, mas não a cadeia toda.

                          Para Arcuri, a política de genéricos do Brasil funcionou para ampliar acesso da população a medicamentos e também para a redução de preços. Mas as empresas enfrentam desafios na produção de IFAs, os insumos farmacêuticos dos genéricos. “Há limitações de escala e de capacidade de financiamento, embora continuem se desenvolvendo. Algumas empresas produzem seus próprios IFAs no Brasil e verticalizam parte da produção. Mas a maior parte continua sendo importada.” Arcuri lembra que os genéricos e similares representam ainda hoje a maior parte do volume de remédios consumidos no país. Atualmente a China se destaca globalmente como produtora de IFAs e a Índia, do genérico finalizado.

                          Arcuri diz que o Brasil precisa de um programa de desenvolvimento coordenado na direção da inovação no setor. No resto do mundo, diz, há políticas agressivas nesse sentido. “O maior produtor de medicamentos, principalmente de inovação radical e incremental, são os Estados Unidos, o maior fornecedor externo de medicamentos ao Brasil. E depois, outros países, principalmente os da OCDE [Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico], continuam investindo muito.” E para além disso, diz, países como Índia, China e Coreia do Sul também estabeleceram políticas públicas nesse sentido, não só direcionadas à produção industrial mas também à capacitação e melhora de normas regulatórias.

                          Depois dos americanos, são os países europeus que dominam o fornecimento de medicamentos ao Brasil. De janeiro a maio, os EUA venderam ao Brasil 24% de todos os remédios importados pelo Brasil. Depois as principais origens são Alemanha, com 15%, Suíça, com 9%, e Irlanda e Itália, com 8% e 7%, nessa ordem.

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