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07/09/2010
Análise IEDI
         

2 de fevereiro de 2010

Indústria
Uma atividade menos aquecida


  

 
Em uma crise, na qual a demanda cai fortemente, um dos papéis da política econômica é incentivar a antecipação de consumo ou de investimento, além de ampliar o gasto direto do setor público. Ou seja, um dos pilares da política econômica anticíclica está em procurar antecipar gastos, na expectativa de que tenha lugar uma recuperação econômica que dispense o artifício. O Brasil fez isso ao longo de 2009, assim como muitos outros países, e isso contribuiu para que a economia brasileira saísse mais rapidamente da crise.

No entanto, o sucesso cobra um preço. Se houve êxito, por exemplo, em antecipar o consumo das famílias e se essa antecipação se deu majoritariamente em bens duráveis, cujo consumo foi incentivado por redução de impostos, isso desequilibrou, em alguma medida, os ciclos de produtos próprios a cada dos segmentos de bens duráveis. Em outras palavras, antecipar o consumo de geladeiras em 2009 – para dar um exemplo – poderá deprimir o crescimento do consumo desse bem em algum momento no futuro, provavelmente no ano seguinte, ou seja, em 2010.

Ainda hoje, a Fenabrave anunciou uma queda de grandes proporções das vendas de automóveis no mercado interno em janeiro deste ano com relação a dezembro de 2009. A indústria brasileira pode estar, portanto, sofrendo as consequências de uma grande e pertinente onda de antecipações, nada que o tempo e o trabalho com outros mecanismos – como o incentivo ao crédito – não possam resolver. Essa fator pode ter sido preponderante para a retração da produção industrial em dezembro (–0,3% com relação a novembro, na série com ajuste sazonal), a qual, não por acaso, ficou restrita à redução em bens duráveis.

A expectativa de um bom resultado de crescimento da indústria em 2010 se mantém, mas, para isso, ela deverá contar com um comportamento positivo e compensatório da produção de bens de capital e de bens intermediários. Como já foi observado, um esforço de redução das taxas de juros do crédito será capaz de compensar os efeitos descritos de antecipação de consumo sobre a indústria.

Cabe um destaque na análise da evolução da indústria em 2009, um ano marcado pela crise internacional. Como se sabe, se, para a economia brasileira como um todo, a crise teve um efeito relativamente pequeno, para a indústria as coisas se passaram de forma diferente. O “tombo” dos níveis de produção industrial ocorrido no último trimestre de 2008 e primeiro trimestre de 2009 foi extraordinário e a indústria, em geral, demorou mais para reagir à crise. De fato, os três trimestres seguintes foram de recuperação na margem, mas, devido ao forte impacto inicial, tais avanços não foram suficientes para neutralizar os resultados ruins anteriores.

No acumulado do ano de 2009, a produção caiu 7,4%. O resultado mais adverso ocorreu no setor de bens de capital, cuja produção retraiu 17,4%, denotando o duplo efeito negativo sobre o setor, qual seja, do colapso do investimento doméstico e das exportações de manufaturados. Esse setor é, no entanto, o que vem liderando, na margem, o crescimento da produção industrial. No último trimestre de 2009 com relação ao terceiro trimestre, na série com ajuste sazonal, sua produção cresceu 13,3%, contra uma média geral da indústria de 3,6%.

O setor de bens intermediários também sofreu um duplo impacto negativo, desta feita por causa da própria retração da indústria doméstica e do forte retrocesso das exportações. A produção de bens intermediários caiu 8,5% em 2009, mas esse setor é o segundo (atrás de bens de capital) em crescimento significativo na margem. No quarto trimestre de 2009 com relação ao terceiro, com ajuste sazonal, a produção de bens intermediários aumentou 4,5%.

O cenário para bens duráveis foi influenciado decisivamente pelo processo de incentivos de antecipação de consumo já descrito. Mas, mesmo assim, na média de 2009, houve queda de 6,4% em sua produção. Na margem, esse setor vem registrando resultados cadentes. No quarto trimestre de 2009 frente ao terceiro, o crescimento foi de 2,6%.

Por sua vez, o setor de bens semi-duráveis e não duráveis praticamente não foi afetado pela crise, já que o emprego e a massa de rendimentos reais da população foram preservados por políticas de renda – e não por políticas de antecipação de consumo. Certamente devido ao impacto da queda da exportação em alguns ramos de alimentos e pela retração doméstica da produção em segmentos como vestuário e têxtil, o setor de bens semi-duráveis e não duráveis teve queda de 1,6% em 2009. No último trimestre desse ano, o setor denota uma aceleração de suas taxas de produção, com crescimento de 1,4% frente ao terceiro trimestre – na série com ajuste sazonal.

Uma observação final é que a indústria brasileira, que na média de 2009 acumulou forte retração (–7,4%, como já foi mencionado), fechou esse mesmo ano com um notável crescimento de 3,6%, representado pela evolução do quarto trimestre com relação ao terceiro – também com ajuste sazonal.
 

 
Segundo dados divulgados pela PIM do IBGE, a indústria brasileira apresentou um recuo de 0,3% em dezembro com relação a novembro, já descontados os efeitos sazonais, completando o segundo mês consecutivo de retração (–0,8% em novembro). Destaca-se que dessa forma a indústria voltou ao patamar de produção semelhante a setembro de 2007. Em relação a dezembro de 2008, houve alta de 18,9%, devido, principalmente, à baixa base de comparação. No último trimestre de 2009, quando confrontado ao mesmo trimestre de 2008, houve crescimento de 5,8%. No acumulado do ano, a queda da produção fabril foi de 7,4%, inferior ao recuo de 9,3% de novembro.

A partir da análise das categorias de uso, quase todas apresentaram acréscimo em dezembro em relação a novembro, já descontados os efeitos da sazonalidade. O destaque negativo ficou para bens de consumo duráveis, com queda de 4,9%, refletindo a acomodação da produção, após meses de avanço expressivo. Os bens de capital (0,3%) assinalaram o nono crescimento consecutivo. Os bens intermediários apontaram crescimento de 1,0%, o maior dentre as categorias de uso. Os bens de consumo semi e não duráveis reverteram o resultado negativo de novembro, avançando 0,4% em dezembro.

 

 
Na comparação mensal (mês/mesmo mês do ano anterior), o crescimento foi generalizado, destacando-se: bens de consumo duráveis (72,1%), bens de capital (23,0%) e bens intermediários (21,0%). No acumulado em 2009 frente a 2008, todas as categorias apresentaram variações negativas: bens de capital (–17,4%), bens intermediários (–8,8%), bens de consumo duráveis (–6,4%) e bens de consumo semi e não duráveis (–1,6%).

Setorialmente, na passagem de novembro para dezembro, com dados já livres dos efeitos da sazonalidade, dos 27 setores pesquisados, dezoito tiveram variação positiva: produtos de metal (11,3%), farmacêutica (6,2%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (3,3%) e outros produtos químicos (1,3%). Por outro lado, pressionaram negativamente os ramos de material eletrônico e equipamentos de comunicações (–12,2%), veículos automotores (–1,2%), alimentos (–1,0%), têxtil (–4,0%) e outros equipamentos de transportes (–4,2%).

Na relação dezembro de 2009 frente a dezembro de 2008, 22 dos 27 ramos contemplados pela pesquisa registraram maiores níveis de produção. As altas, ordenadas por impacto na formação da taxa global, foram: veículos automotores (129,6%), seguido por máquinas e equipamentos (33,9%), outros produtos químicos (20,7%), borracha e plástico (48,8%) e indústrias extrativas (19,1%). A variação acumulada em 2009 frente ao mesmo período de 2008, as quedas mais expressivas vieram de máquinas e equipamentos (–18,5%), veículos automotores (–12,4%), metalurgia básica (–17,5%) e material eletrônico e equipamentos de comunicações (–25,5%).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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