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                          Carta IEDI

                          Edição 568
                          Publicado em: 19/04/2013

                          As Questões Decisivas da Economia e da Indústria Brasileira

                          Sumário

                          A Carta IEDI de hoje reúne um conjunto de entrevistas de Conselheiros e breves análises do Instituto sobre temas que afetam a indústria brasileira na atualidade. As entrevistas são de Pedro Passos, Presidente do Instituto, concedidas ao Valor Econômico e ao OESP, e de Jorge Gerdau, concedida à FSP. Nelas os entrevistados apontam desde problemas muito gerais da economia brasileira – que se defronta com questões como o excesso da burocracia, a lentidão dos procedimentos públicos e a falta de investimento e boa gestão das entidades de governo –, como também temas específicos da indústria que precisa reduzir custos, aumentar a produtividade e ter maior inserção externa.

                          A crise que atravessa o setor industrial brasileira é vista como sendo determinada por uma dupla ordem de fatores. Primeiramente, o fator externo relacionado aos efeitos da crise mundial que aprofundou e muito a concorrência por mercados de consumo de maior dinamismo, dentre eles o brasileiro. Em segundo lugar, os fatores internos que reúnem determinantes de longa data, como ausência de políticas de atração de setores mais representativos das últimas revoluções industriais promovidas no mundo, mas também determinantes mais atuais, como os custos excessivos que foram sendo acumulados na indústria, como os custos tributários, de infraestrutura e de salários, os quais não vêm sendo compensados pelos ganhos de produtividade do setor. O fator cambial compõe esta ordem de problemas, já que a valorização do real que prevaleceu durante longo período aprofundou a adversidade dos itens acima relacionados.

                          São tratados também assuntos de grande relevância para a indústria. O primeiro deles mostra o continuado processo de distanciamento entre o consumo de bens observado pela pesquisa de comércio varejista do IBGE e a trajetória da produção industrial, denotando que a falta de competitividade da indústria a impede de acompanhar o dinamismo do varejo doméstico que crescentemente recorre a produtos importados. O seguinte mostra que não será tarefa fácil para o país integrar sua produção nas cadeias de valor a nível global por faltar competitividade e porque o Brasil busca pouco a celebração de acordos internacionais que beneficiem suas exportações e barateiem sua produção através de importações.

                          Os demais temas abordados dizem respeito ao atraso da indústria com relação ao crescimento global da economia brasileira no período pós crise mundial de 2008 e às perspectivas que podem ser consideradas favoráveis de que o investimento se recupere em 2013 da queda de 4% verificada em 2012. É mostrado que no pós crise o PIB da indústria de transformação recuou, enquanto o PIB global do país crescia em percentuais acumulados de, respectivamente, -5,9% e +9,3%. Nesse sentido ocorreu no período uma desindustrialização. Já a expectativa de melhora no investimento decorre do aumento das consultas de novos financiamentos junto ao BNDES.

                           
                          Modelo de Crescimento Está Esgotado, diz Passos – Pedro Luiz Barreiros Passos – Presidente do IEDI e Sócio-Fundador da Natura (entrevista publicada pelo jornal Valor Econômico em 17/04/2013). Em um ambiente de inflação alta e economia enfraquecida, usar os gastos das famílias como alavanca para fazer o Produto Interno Bruto (PIB) crescer e desonerar setores de bens de consumo final é um modelo esgotado. Uma nova agenda deve ser colocada no lugar, na qual se possa deixar mais competitiva as bases da cadeia produtiva. A opinião é de Pedro Passos, um dos fundadores da fabricante de cosméticos Natura e presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI).

                          Passos espera que o Banco Central dê uma sinalização hoje sobre como vai tratar a inflação, mas acredita que um eventual aumento na taxa básica de juros não será muito forte. A seguir os principais trechos da entrevista originalmente concedida ao Valor PRO, serviço de tempo real do Valor:

                          Valor: O juro deve subir nesta semana para combater a inflação?

                          Pedro Passos: Tema quente [risos]. De fato, o que preocupa muito é a inflação. A política monetária deve ser utilizada e o BC tem todas as condições de saber a intensidade. O grande progresso que tivemos foi sair de um patamar muito alto de juros para um mais razoável. É uma vitória do país. Mas eu não gostaria que tivéssemos que dar um solavanco muito forte. Os benefícios de uma política [de juro] próxima dos padrões internacionais ainda não foi capturada na totalidade. Temos que agir, mas com parcimônia.

                          Valor: Aumentar 0,25% ou 0,5% na taxa básica de juros afetaria os negócios das empresas neste ano?

                          Passos: Acho que o mais importante é o sinal. E combinado a uma política monetária deveríamos ter uma política fiscal, para evitar que a política monetária fosse o único instrumento a ser usado. Temos uma agenda nova a ser tratada, muito importante. É difícil dizer se um aumento de 0,25% a 0,5% produz efeitos imediatos na economia, é uma sinalização, mais do que tudo. A gente sabe que os movimentos das taxas de juros demoram um certo tempo para serem percebidos pela economia.

                          Valor: Se a taxa subir, o efeito chegaria em dezembro de 2013?

                          Passos: O efeito será nas expectativas. Você vai cancelar um investimento, pois o juro subiu? Acho pouco provável nos padrões que a gente opera no Brasil. Mas depende do que o BC quer sinalizar. Se a pancada for forte, é o caso de avaliar [o investimento].

                          Valor: O governo tem feito desonerações setoriais, mas a economia não cresce. Por quê?

                          Passos: Às vezes eu me faço essa mesma pergunta [risos]. Tem uma agenda nova que o país precisa enfrentar. Acredito que algumas medidas são na direção correta. Por exemplo, redução da taxa de juros, esforço para reduzir o custo da energia, muito importante para toda a economia. A desoneração de folha de pagamento, transferindo o custo desse tributo para o faturamento, foi medida positiva, pois equaliza com o produto importado. Tudo na direção correta. O problema na agenda central é discutir como aumentar a produtividade do país e reduzir o custo de forma sistêmica. E não vamos conseguir fazer essa agenda com desonerações setoriais.

                          Valor: O senhor pode explicar?

                          Passos: O modelo de estímulo ao consumo, via crédito ao consumidor, e a incorporação da nova classe média ao mercado consumidor foi ótimo. Mas isso está chegando ao limite. Precisamos de uma poupança interna maior, formação de capital fixo maior e aí temos dificuldade. Como aumentar o investimento privado e o público, que não decola na velocidade desejada? O país precisa enfrentar essa agenda: aumentar investimento para ficar mais competitivo, reduzindo custos.

                          Valor: O cenário interno vem combinado a uma economia lá fora que não está muito compradora...

                          Passos: A economia lá fora não está muito compradora e está bastante exportadora. Boa parte do crescimento do consumo tem sido abastecido por importações. Tivemos crescimento de mercado sem crescimento da produção interna.

                          Valor: Qual é a sua projeção de PIB e inflação para este ano?

                          Passos: Nós temos partido de uma expansão do PIB em torno de 2,5%, mas podemos ter um número inferior ou superior. Acho 3,5% muito otimista. Temos inflação, temos que mudar a agenda. A inflação ficaria entre 5,5% a 6%. Não há nada que se possa fazer de curto prazo para fazer uma desinflação rápida. Teria que dar um tranco, um juro mais agressivo. Mas não é razoável que se faça isso. Teremos que conviver com uma travessia.

                          Valor: E em 2014?

                          Passos: Eu trabalho com um cenário de expansão do PIB entre 2,5% e 3%. E espero uma inflação caindo, mas não é uma inflação que chegue rapidamente ao centro da meta, mas uma queda lenta. O ano de 2014 é ano eleitoral. É difícil o governo tomar medidas daqui para frente.

                          Valor: O governo vinha apostando no consumo das famílias para fazer a economia crescer. Dá tempo de trocar o modelo até 2014?

                          Passos: O aumento real da renda da população é um ativo que o país deveria preservar. A nossa posição no Iedi não é fazer recessão para resolver o problema, mas aumentar a produtividade.

                          Valor: Como se aumenta a produtividade?

                          Passos: Educação, muita educação, investimento, desburocratização, tirar entraves para o ambiente de negócios. Deveríamos desonerar as matérias-primas que abastecem as cadeias produtivas.

                          Valor: O senhor teria um exemplo?

                          Passos: Hoje a indústria de cosméticos, o setor de embalagens, é importante. Todos os plásticos, precisamos ter preço internacional e não temos. Se o plástico está mais caro, todo o produto que vem depois, vai ficar mais caro. Aço, energia, vários insumos básicos devem ser avaliados. Vamos analisar se determinado setor precisa de mais investimento em inovação, desoneração. Temos que garantir que não vamos matar determinada indústria com abertura à importação. O Brasil gasta a pouca bala que tem na agulha em produto final. Se você centrar a ação em inovação, produtividade no início das cadeias, você dá chance a mais setores.

                          Valor: A ideia é mudar o eixo da discussão?

                          Passos: É mudar o eixo, sair do consumo final e ir para a base da indústria. Não dá para abandonar os estímulos que estão sendo feitos, mas repriorizar as bases das cadeias produtivas.
                           
                          Indústria Tem Nova Agenda de Reformas – Pedro Luiz Barreiros Passos – Presidente do IEDI e Sócio-Fundador da Natura (entrevista publicada pelo jornal O Estado de São Paulo em 03/03/2013). Pedro Passos, sócio-fundador da Natura e presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), resolveu comprar uma briga delicada. Ele se tornou porta-voz de uma polêmica proposta que será entregue em breve ao governo Dilma: desonerar a produção de insumos básicos - como aço, cimento ou químicos - e, ao mesmo tempo, baixar as tarifas de importação, abrindo o mercado brasileiro para a concorrência dos importados.

                          Após um intenso debate interno no IEDI, a medida foi identificada pela maioria dos 44 pesos pesados do setor empresarial reunidos pela entidade como fundamental para reduzir os custos da indústria e acabar com uma estagnação que já dura quatro anos. O IEDI reúne nomes como Marcelo Odebrecht (Odebrecht), Frederico Curado (Embraer), Ivoncy Ioschpe (Iochpe-Maxion), José Roberto Ermírio de Moraes (Votorantim) e Benjamin Steinbruch (CSN).

                          Na avaliação da entidade, o fim da proteção para as indústrias produtoras de matérias-primas é necessária para garantir que os oligopólios não se apropriem dos ganhos de uma eventual desoneração tributária, elevando suas margens de lucro. "Não queremos fazer uma abertura inconsequente, que destrua a indústria química ou de aço, mas precisamos de um compromisso de que as matérias-primas vão ter um custo internacional", disse Passos ao Estado.

                          O empresário diz que o governo não pode "repetir o erro" de tentar impulsionar o desenvolvimento do País através de novos incentivos ao consumo e "precisa mudar a agenda", focando na produtividade. Ele elogia as medidas adotadas pela atual administração, que baixou os juros e desvalorizou o real, mas diz que "não é suficiente ficar na discussão de câmbio e juros". A seguir, trechos da entrevista.

                          O IEDI vai propor uma nova agenda de competitividade para a indústria ao governo. Quais são os vetores dessa agenda?

                          A indústria é o que pode ajudar na retomada do crescimento. Estimamos alta de 2% a 2,5% para a produção industrial neste ano, o que terá um impacto positivo no PIB. Ainda é uma retomada lenta, mas algumas medidas, que já foram tomadas, vão produzir efeitos, como a redução do preço da energia e a desoneração da folha de pagamentos. Mas temos de abordar de maneira diferente agora. Precisamos de uma agenda que enfrente a falta de produtividade e os altos custos do País. Definitivamente, não podemos mais repetir o erro de tentar recuperar o crescimento com estímulo ao consumo. Alguns temas são fundamentais. O primeiro ponto é a educação. Os indicadores de educação deveriam ser divulgados no mesmo dia do PIB, com a mesma relevância. O segundo ponto é a melhora da infraestrutura. Fico muito feliz quando vejo nos jornais que o governo está fora do País, tentando atrair capitais internacionais. Foi reticente no início e espero que, daqui para a frente, seja feito de forma contundente. O governo também precisa sinalizar que as despesas de custeio vão crescer menos que o PIB, abrindo espaço para os investimentos.

                          Para sair da crise, o governo desonerou a venda de carros e eletrodomésticos. O que deveria ser feito agora?

                          Estamos convencidos de que é preciso desonerar os insumos básicos, para baixar os custos e irradiar esse benefício pelas cadeias produtivas. Elogiamos o esforço para reduzir o preço da energia, mas temos outras matérias-primas importantes como cimento, aço, químicos. O Brasil precisa desonerar essas cadeias. Qual é o risco que se corre? Existem alguns oligopólios. Nestes casos, temos de - com cuidado, sem abrir de forma irresponsável - baixar os impostos de importação. Precisamos assegurar que as matérias-primas vão ter um custo menor. Não queremos de forma alguma fazer uma abertura inconsequente que destrua a indústria química, de cimento ou de aço, que o Brasil pagou caro para ter. É tudo com muita ponderação. Mas é o inverso de estimular a demanda através de uma redução de IPI, que beneficia um setor, mas não é estruturante.

                          Os fabricantes de aços e produtos químicos reclamam muito de invasão de importados e são protegidos por tarifas antidumping....

                          Temos de fomentar a competitividade desses setores. Além da desoneração de impostos, o que mais eles precisam? Financiamento? Investimento? Vamos fazer. Agora precisamos de um compromisso de que as matérias-primas vão ter o custo internacional, caso contrário, destruímos o restante da cadeia no Brasil. Os fabricantes de máquinas e equipamentos precisam comprar aço no mesmo preço pago na China. E, para isso, a abertura para as importações é importante.

                          Essa proposta de reduzir o custo das matérias-primas através de desonerações e abertura do mercado é consenso no IEDI?

                          Nunca será um consenso absoluto, mas é fruto de um debate interno recente, porque queremos levar uma abordagem nova ao governo. Teve a aprovação da maioria, mas, individualmente, pode haver alguns setores que têm medo desse processo. Por outro lado, é consenso que proteger por proteger não leva a lugar nenhum. A abertura da economia brasileira foi equivocada, porque ocorreu no final das cadeias produtivas. Os produtos acabados tiveram os impostos de importação rebaixados, enquanto as matérias-primas continuaram protegidas. É difícil lidar com setores concentrados. Quando o dólar estava a R$ 1,60, era impossível colocar alguns assuntos na mesa. Evoluímos muito. O Brasil hoje tem juros razoáveis e um câmbio muito melhor. Mas não é suficiente ficar nessa discussão de câmbio e juros. Agora é hora de falar do que é estrutural.

                          As preocupações da indústria com câmbio e juros ficaram para trás?

                          A vigilância é constante, mas câmbio e juros flutuam. Temos uma preocupação com a inflação agora. Torço para que não seja necessário, mas até admito que o Banco Central precise usar a política de juros para equacionar esses problemas. Nos últimos 15 anos, permitimos um posicionamento de juros e câmbio absolutamente destruidor da indústria, que é um setor vital da economia. Hoje, mesmo alguns expoentes do mercado financeiro, já sentem que isso não é mais admissível. Temos um parque industrial que custou caro ao Brasil, com muito financiamento público e subsidiado. Não dá para entregar isso. A economia se estabilizou e tivemos a inclusão social. Agora temos de atacar novos pontos dessa agenda.

                          Os Estados Unidos vão negociar um acordo de livre comércio com a União Europeia. O Brasil hoje tem condição de negociar acordos internacionais?

                          É inevitável, porque estamos atrasados. Precisamos incluir o Brasil nas cadeias produtivas globais. Perdemos inúmeras oportunidades, tanto com a Europa, quanto com os Estados Unidos. O Brasil tem de enfrentar essa agenda. O Mercosul teve avanços, mas há muito tempo não é suficiente para nossa inserção no mercado internacional. Os acordos que fizemos depois do Mercosul são de pouca relevância. O Brasil está pronto? Vai ter de negociar. Estamos prontos para muita coisa. Só o mercado interno é ilusório. É preciso ir para fora para ter padrão de qualidade, gestão, equipamentos sofisticados. Se a empresa não estiver na fronteira da tecnologia, perde o mercado interno.

                          Os empresários costumam dizer que os problemas do Brasil estão "do portão para fora das fábricas". É verdade?

                          Temos muitas empresas na fronteira da produtividade, que merecem homenagens, mas o fato é que o País investe pouco, inclusive no setor privado. Com um índice de inovação baixo, não podemos ser exemplo do portão da fábrica para dentro. O Brasil tem empresas excelentes, mas a média da indústria precisa inovar mais e aumentar sua produtividade.

                          A inclusão social aumentou o consumo, impulsionou o setor de serviços, que contratou mais, elevando o custo da mão de obra para a indústria. Como resolver esse dilema?

                          Do ponto de vista social, é uma situação muito boa. É praticamente pleno emprego. Isso significa paz social. Mas é verdade que o setor de serviços não é o de maior produtividade da economia e está disputando mão de obra com a indústria e elevando os custos. Temos de lidar com essa situação com mais investimento e mais produtividade. A alternativa seria uma recessão e desemprego e isso não interessa a ninguém.

                          O Brasil deveria importar mão de obra?

                          Sou favorável de maneira seletiva. Enquanto não conseguimos capacitar com qualidade, precisamos dessa mão de obra para o nosso desenvolvimento. Não apenas para o setor industrial, mas para toda a economia, incluindo as universidades. Uma das qualidades que os Estados Unidos não perderam com a crise é a capacidade de atrair cérebros. No caso da mão de obra pouca qualificada, é mais fácil de resolver. Com algum esforço, podemos qualificar as pessoas para as funções básicas da indústria e dos serviços. Mas precisamos de mais professores, engenheiros, gente que conhece tecnologia da informação.

                          É consenso entre governo e setor privado que o Brasil precisa investir mais. O que está atrapalhando?

                          O ambiente de negócios. Temos um ambiente legal muito instável. O governo precisa sinalizar com mais clareza que quer um entendimento entre os setores público e privado. É preciso dar as boas-vindas aos capitais nacional e internacional. Também é preciso atacar a dificuldade histórica de gestão do Estado.
                           
                          Burrice de Criar Ministérios Já Chegou ao Limite – Jorge Gerdau Johannpeter – Conselheiro do IEDI e Presidente do Conselho de Administração do Grupo Gerdau (entrevista publicada pelo jornal Folha de São Paulo em 15/03/2013). O empresário Jorge Gerdau acha que o Brasil precisa "trabalhar com meia dúzia de ministérios" e não com as 39 pastas da administração de Dilma Rousseff -no fim do governo do tucano Fernando Henrique Cardoso eram 24.

                          O inchaço se dá por contingências políticas, mas "tudo tem o seu limite", diz o presidente da Câmara de Políticas de Gestão da Presidência. Em entrevista à Folha e ao UOL na terça-feira, ele completou: "Quando a burrice, ou a loucura, ou a irresponsabilidade vai muito longe, de repente, sai um saneamento. Nós provavelmente estamos no limite desse período".

                          Em uma de suas raras entrevistas, Gerdau disse conversar sobre esse assunto com a presidente da República, a quem elogia. "Eu já dei um toque na presidenta."

                          Embora enxergue avanços na gestão do país, suas previsões são de longo prazo. "Para deixar o país com planejamento competitivo em todas as frentes", um prazo de "dez anos é pouco".

                          A seguir, trechos da entrevista com Gerdau.

                          Folha/UOL - Há quase dois anos à frente da Câmara de Políticas de Gestão, o que foi possível avançar?

                          Jorge Gerdau - O trabalho mais pesado que nós fizemos foi na Casa Civil. Com o PAC, que era uma estrutura que trabalhava dentro da Casa Civil. Foi para o Ministério do Planejamento. Foi necessário fazer uma reorganização para dar condições de administração para que a presidente pudesse acompanhar todos os projetos. Fez-se toda uma estrutura de informática. Avançamos em várias coisas. No Ministério da Saúde, na área de logística, compra de remédios etc. Trabalhamos na pasta dos Transportes.

                          Algum resultado objetivo?

                          Na área de logística. [O Ministério da Saúde] Tinha capacidade de atendimento de 40% da demanda. Até junho, nós vamos atingir um ritmo de atendimento de 80%.

                          Outro exemplo foi em Guarulhos. O aeroporto tinha uma capacidade de atendimento de 900 pessoas por hora. De 2011 para 2012, nós conseguimos atingir um número próximo a 1.500. O que foi? Pequenas coisas. Ampliar o número de balcões, o atendimento dos passaportes e do controle da bagagem. Pequenas mudanças no layout.

                          O sr. diria que a política atrapalha a gestão?

                          [Longa pausa] Dentro da estrutura brasileira, o conceito de política atrapalha bastante a gestão. Mas... [pausa] A gente tem que encontrar os caminhos dentro das realidades que cada país tem.

                          Você tem que separar os três níveis: as funções e interesses de Estado, as de governo e as de administração. País civilizado troca de ministro e muda duas, três pessoas de relação pessoal. A administração não muda. A estrutura de governança pode ter modificações de decisão política. Muda o partido, a cabeça do líder. No Brasil, só tem quatro ou cinco instituições em que a estrutura de meritocracia e profissionalismo funcionam.

                          Quais são elas?

                          Banco do Brasil, Banco Central, Itamaraty e Exército. Tem ainda o BNDES.

                          O Brasil acaba de ganhar, agora, o seu 39º ministério. O Brasil precisa ter 39 ministérios?

                          Não. Deveria trabalhar com meia dúzia.

                          O número de partidos vai aumentar. A gente vai ter cada vez mais ministérios?

                          Diria o seguinte: tudo tem o seu limite. Quando a burrice, ou a loucura, ou a irresponsabilidade vai muito longe, de repente, sai um saneamento. Nós provavelmente estamos no limite desse período.

                          Do jeito que está, a presidente teria poder para reduzir o número de ministérios?

                          Poder, tem. Mas como o número de partidos vai crescendo cada vez mais, é quase impossível. O que a presidente faz? Ela trabalha com meia dúzia de ministérios realmente chave. O resto é um processo que anda com delegações de menos peso.

                          A administração pública federal tem uns 20 mil cargos de confiança. É excessivo?

                          Absolutamente excessivo. No esquema que eu falei: funções de Estado, de governo e o resto seriam administrações com meritocracia. Você deveria ter meia dúzia de cargos de confiança por pasta. O resto tem que ser de carreira.

                          O sr. fala isso para a presidente? Como ela reage?

                          Eu já dei um toque na presidenta. Ela me deu a explicação que dei para você.

                          Causa angústia?

                          Lógico. Mas eu tenho convicções de que esse processo de maturação tecnológica é um trabalho de anos. O trabalho talvez mais interessante que estamos fazendo é estruturar em todos os ministérios o mapa estratégico.

                          O que seria isso?

                          Um processo desenvolvido em Harvard. Definir as metas principais sobre a visão estratégica. Depois, uma visão financeira. E depois uma visão de processo e de recursos humanos. Você faz uma definição clara da missão daquela organização. É um instrumento para que todo mundo que trabalha naquele ministério entenda para que esse ministério existe, quais são as metas.

                          O Brasil está com o mercado de trabalho superaquecido. Os salários pressionam. Como o país achará uma saída para esse quadro?

                          Buscar soluções de produtividade. No Brasil, há um tema que é a não competitividade do produto brasileiro e outro que é a análise da produtividade. São duas coisas que deveriam ser analisadas separadamente.

                          Tenho áreas na Gerdau com patamares de produtividade homem/hora semelhantes aos melhores do mundo. Agora, se eu tomar o que um operário no Brasil tem sobre o que ele leva líquido para a casa... Ele tem mais de 100% de baixo para cima. Outros países não. No Chile, por exemplo, um operário leva quase 85% para a casa daquilo que ele custa.

                          Custa para a empresa?

                          Para a empresa. Nos EUA, os custos adicionais são extremamente pequenos. Poucos países usam a folha de pagamento como instrumento arrecadatório. O certo seria que a relação contratual entre a empresa e empregado se vinculasse apenas naquilo que é a relação de trabalho.

                          O sr. está dizendo que sem reforma trabalhista o país não sai desse labirinto?

                          Desse labirinto da não competitividade.

                          A presidente Dilma é ciente desses problemas?

                          Totalmente ciente.

                          A presidente e o PT já estão há dez anos no poder. Não foi tempo suficiente para mudar esse cenário?

                          São perfis diferentes da visão de liderança.

                          Mas ela foi chefe da Casa Civil do governo anterior...

                          Como chefe de Casa Civil ela procurou organizar o PAC. Um instrumento para botar controle no que se investe no país. Mas isso não quer dizer que você conseguisse eficiência operacional em todos os ministérios.

                          Quanto tempo o sr. acha que nesse ritmo a presidente colherá resultados concretos?

                          Para deixar o país com planejamento competitivo em todas as frentes, eu acho que dez anos é pouco.

                          Vinte anos?

                          Vinte talvez seja muito.
                           
                          O Desempenho do Varejo e a Indústria. Tem sido uma tônica da trajetória recente da economia brasileira a disparidade entre o crescimento do comércio varejista de bens e o desempenho da atividade da produção industrial. As duas séries, ambas produzidas pelo IBGE, têm metodologias distintas, o que não autoriza aproximações indubitáveis. Mas, a diferença dos resultados é tamanha que não deixa margem a dúvidas: o varejo cresce muito bem desde 2004 mas a produção industrial cada vez mais caminha em um ritmo inferior. Assim, tomando tão somente os dois últimos anos e considerando a indústria total e o varejo restrito (que não inclui veículos e material de construção), a produção indústria teve variação de 0,4% e -2,7%, respectivamente em 2012 e 2011, enquanto os índices varejistas foram de 6,7% e 8,4%.

                          É mais do que sabido que tal descompasso cresce com a significativa penetração das importações no mercado consumidor brasileiro, refletindo também a significativa queda das exportações industriais. Em outras palavras, a diferença de desempenhos reflete a crise de competitividade da indústria brasileira, um fenômeno que, como os trabalhos do IEDI vêm ressaltando, deriva de fatores acumulados por muito tempo e que levaram à baixa evolução da produtividade e ao acúmulo de custos sobre o setor industrial.

                          Nossa expectativa para a indústria em 2013 é que haja, pelo menos, um crescimento da produção compensatório do declínio ocorrido em 2012. A recuperação poderá ser maior, superando a casa dos 2,5%, se surtirem efeitos positivos as medidas de redução de custos e de juros e menor valorização da moeda.

                          O que dizer da perspectiva do comércio? Como já foi observado, o varejo tem sido um ponto alto da economia brasileira mesmo quando o PIB teve um negativo ou um fraco desempenho. Em certos momentos, a elevada performance se deveu ao crédito mais farto, mas, de um ponto de vista mais geral, sua base de sustentação decorreu de uma extraordinária evolução do rendimento médio da população, especialmente das camadas de mais baixo rendimento favorecidas pelas políticas de renda do governo.

                          No ano passado o excelente resultado foi liderado pelo setor de Supermercados, alimentos e bebidas (acréscimo de 8,5%), puxado por um robusto aumento do salário mínimo. Para o segmento líder de 2012 a expansão do início de ano já é bem menor, ou seja, 3,4% em janeiro último com relação ao mesmo mês do ano passado. E, se é levada em conta a média dos três últimos meses, chega a 6,2%, uma taxa que ainda pode ser considerada excepcional.

                          Para outro setor que impulsionou a trajetória do varejo no ano passado, Móveis e eletrodomésticos, o mesmo processo de desaceleração é esperado. Nesse caso, a variação em 2012 alcançou 12,2%, em parte incentivada pelas reduções de impostos em geladeiras e outros bens da linha branca que já estão saindo de cena. O crescimento de janeiro e do último trimestre, de 5,8% e 7,6% respectivamente, acena com um índice para 2013 de cerca de metade da taxa anterior. Um índice menor poderá se apresentar em Veículos e motos, partes e peças, dado que os incentivos fiscais na compra de automóveis também estão sendo retirados. A taxa média de aumento das vendas do ano passado de 7,3% já regrediu para 6,5% nos últimos três meses.

                          Um ramo muito relevante para o varejo poderá ter alguma melhora. Tecidos, vestuário e calçados tem suas vendas associadas ao poder aquisitivo da população, mas também respondem às facilidades maiores ou menores do crédito. Em 2012, sua atividade aumentou 3,5%, um baixo resultado comparado ao padrão médio do varejo. Nos últimos meses, contudo, a melhora é patente: aumento de 4,8% na média do último trimestre e de 5% em janeiro de 2013. Material de construção é mais um ramo em aceleração, com crescimento em janeiro de 11,6% contra uma média de 8% em 2012.

                          Não há sinal de uma forte desaceleração do varejo nacional nessa entrada de 2013. O menor ritmo de vendas nos segmentos líderes – casos de Supermercados, alimentos e bebidas, Móveis e eletrodomésticos e Veículos e motos, partes e peças – levará a uma taxa mais baixa no corrente ano, mas ainda bastante favorável, talvez na faixa de 6%. Essa taxa é compatível com a evolução do crédito e da massa real de rendimentos da população na economia e abre, possivelmente, uma oportunidade para a indústria brasileira vender mais e crescer mais, a depender de como este setor ajustará os seus padrões de produtividade e competitividade.
                           


                           
                          O Brasil e as Cadeias Globais de Valor. Voltou à tona o tema do afastamento do Brasil das cadeias globais de valor. Mas, no debate pouco se tem dado ênfase ao fato de que isso ocorre há décadas. Dada a larga experiência por nós acumulada, outro ponto também deveria ser pacífico: as políticas que se baseiam simplesmente na abertura às importações não podem ser consideradas bem-sucedidas para a integração da economia brasileira. Tampouco serão exitosas as políticas baseadas na proteção pura e simples.

                          Políticas de competitividade, industriais e de desenvolvimento tecnológico e ações para atração de empresas transnacionais serão decisivas. O Brasil pode e deve também ampliar seus acordos de comércio. Como o fazem os emergentes bem-sucedidos, nas negociações comerciais é fundamental valorizar seu potencial importador como forma de impulsionar sua capacidade exportadora. Não será tarefa fácil.

                          As três últimas décadas presenciaram alterações de grande envergadura na distribuição espacial das cadeias manufatureiras. A globalização das cadeias de valor ocorreu de forma muito assimétrica. As economias centrais perderam posição no valor agregado manufatureiro, enquanto economias emergentes com maior grau de industrialização também sofreram, ainda que perdas menores, como é o caso do Brasil. Os ganhadores foram os asiáticos sob a liderança chinesa.

                          A mudança na configuração espacial da indústria foi marcada por um intenso processo de centralização manufatureira à escala mundial e acompanhada de um grande esforço das corporações transnacionais para concentrar suas estratégias na “atividade principal”. As consequências dessas transformações não são triviais. A centralização do controle na grande corporação deu lugar à “exteriorização” dos segmentos produtores de peças, componentes e bens finais sob o comando “inteligente” da chamada “empresa integradora”, responsável pelas concepções estratégicas.

                          Esse movimento barateou enormemente os custos e aumentou a eficiência dos sistemas da produção manufatureira. Nada disso seria possível sem os acordos de liberalização comercial sob a supervisão da OMC. Tampouco esse processo teria avançado sem as inovações nas tecnologias da informação e de comunicações, e sem as importantes transformações na logística, sobretudo na generalização dos contêineres.

                          O Brasil e a América Latina ficaram praticamente à margem desse processo. Antes do Plano Real, a crise aguda de balanço de pagamentos e a ameaça hiperinflacionária afastaram o País das estratégias de reorganização da grande empresa transnacional. Depois, a valorização do real, além de reanimar a vulnerabilidade externa, desfavoreceu a participação brasileira nas cadeias produtivas globais, sobretudo onde ocorriam com mais intensidade as transformações estruturais e tecnológicas, dentre eles os setores de tecnologia de informação e comunicações e na eletrônica.

                          Isso não significa que as empresas transnacionais tenham deixado de buscar o mercado brasileiro e o Mercosul. Mas a motivação do investimento é claramente a atração exercida pelo mercado interno regional. Na maioria dos casos, o Brasil participa das cadeias globais na ponta final do processo produtivo. É bom esclarecer que a participação nas cadeias envolve uma dinâmica peculiar entre exportações e importações: se produz para exportar tanto quanto se importa para produzir.

                          Portanto, há muito tempo o Brasil está afastado do movimento de reestruturação produtiva e empresarial que atende pelo nome de globalização. Esse afastamento tem início na segunda metade dos anos 70 do século passado, quando o Brasil escolheu os setores básicos e tradicionais para mover seu processo de avanço industrial. Nos últimos 40 anos, fizemos adições marginais à estrutura manufatureira com baixa capacidade de inovação e de integração às cadeias.

                          Um atraso tão prolongado é de difícil recuperação, mas devemos tentar nas linhas já indicadas: precisam ter continuidade as políticas de competitividade, industriais e de desenvolvimento tecnológico, assim como devem ser intensificadas as ações para atração de empresas transnacionais e as iniciativas para a ampliação dos acordos de comércio.
                           
                          A Desindustrialização e Outras Características da Economia Brasileira no Pós Crise. Nos quatro anos e um trimestre que nos separam da eclosão da grande crise mundial (em setembro de 2008) o PIB teve aumento de 9,3%, o que não pode ser considerada uma marca pujante. A composição desse crescimento, mais do que o seu quantitativo, é reveladora de tendências nada confortantes da economia brasileira. Qual é a economia que está sendo desenhada?

                          Consumo x investimento.

                          Os últimos dados do PIB revelam uma economia que apóia seu (baixo) dinamismo no consumo (que cresceu 19,7% entre o terceiro de 2008 e o último trimestre de 2012) e não no investimento que cresceu apenas 6,1% no mesmo período e caiu -2,6% nos dois últimos anos.

                          • Para crescer mais e de modo mais prolongado, teria que ser o inverso, ou seja, com muito maior dinamismo para o investimento.

                          Exportação e importação

                          Não é por falta de dinamismo das importações que a economia e a indústria (que é a grande importadora do país) não vão para frente. As importações de bens e serviços tiveram aumento de 34,8%. Do outro lado, a despeito de toda pujança de nossas exportações de commodities, é dramática a timidez das nossas exportações que tiveram aumento de somente 5,9%

                          • Está desequilibrada a relação entre o dinamismo exportador (para menos) e importador (para mais).

                          Investimento e poupança

                          Sendo uma economia pouco investidora e pouco exportadora, a economia brasileira tem também baixa poupança. Em 2012, a taxa de investimento sobre o PIB foi de 18,1%, inferior à de 2011, 19,3%. A taxa de poupança de 17,2% de 2011 cedeu lugar a 14,8% em 2012.

                          • No Brasil a poupança é baixa porque seu modelo é de baixo investimento e a exportação tem pouco dinamismo.

                          Macro setores

                          A análise do desempenho dos macro setores mostra que o país se especializa progressivamente em serviços. Este evoluiu 11,6%. Serviços é um setor decisivo porque, dentre outras vantagens, é grande empregador. Seu dinamismo é, portanto, muito positivo. Mas, uma economia onde os demais grandes setores industrial e agropecuário caminham na contramão (o primeiro teve aumento de apenas 2% e o segundo experimentou retração de 0,1%) acabará sofrendo em serviços as consequências disto.

                          • O encolhimento da produção de bens pode tirar a sustentação do crescimento baseado apenas em serviços.

                          A festa da atividade financeira

                          Nosso modelo de crescimento, apoiado no consumo e em serviços, fez a festa do crédito e da atividade financeira. Esse segmento liderou o crescimento em serviços (aumento de 22%, mas, notar que nos dois últimos anos a variação foi de apenas 1,7%). Entretanto, outros serviços de qualidade também tiveram evolução, embora bem menor, a exemplo, de serviços de informação (14,2%) e educação e saúde pública (10,2%). É muito importante que os serviços de qualidade mantenham dinamismo, o que dependerá do melhor desempenho dos setores produtivos demandantes de serviços.

                          • A volta do crescimento da indústria é uma condição para a o crescimento dos serviços de qualidade.

                          Desindustrialização

                          A desindustrialização, um fenômeno para o qual diversos autores já vinham chamando a atenção, tornou-se um inquestionável. A indústria de transformação, o coração do sistema industrial, acumulou queda de 5,9% no período. Este retrocesso decorre do modelo de alto consumo e baixo investimento e exportação, sem que políticas industriais e ações compensatórias no câmbio e na competitividade industrial tenham sido implementadas exceto nos dois últimos anos, cujos resultados ainda são incertos e devem demorar em seus efeitos.

                          • A desindustrialização é um fato.


                           
                          Melhores Perspectivas para o Investimento. Dados divulgados pelo BNDES mostram uma evolução expressiva de seus recursos liberados para os projetos entre 2011 e 2012: 12,2% ou, em termos reais, 5,4%. Os desembolsos alcançaram R$ 156 bilhões no ano passado e R$ 139 bilhões no ano anterior. O ponto que deve ser salientado, contudo, diz respeito aos números das consultas feitas pelas empresas ao BNDES para fins de obtenção de recursos. A evolução das consultas reflete a intenção de investir dos empresários, sendo, portanto, um indicador do investimento futuro. As sondagens ao BNDES por parte dos empresários abrangem desde inversões curtas, até as que serão efetivadas em um período longo de tempo. Acreditamos que um prazo médio como um ano seja razoável como referência entre consultas e inicio da realização do investimento, entendida a realização do investimento como a produção do ativo ou do bem de inversão objeto da decisão de investir.

                          Pois bem, o valor das consultas em 2012 aumentou nada menos do que 60% com relação a 2011, com grande aceleração no segundo semestre (variação de 85%). Entre o primeiro e o segundo semestre do ano passado a elevação chegou a 65%, em parte porque o governo reduziu a taxa de referência dos financiamentos do BNDES (a TJLP) e diminuiu a taxa de programas incentivados pelo Banco, como o “PSI” (Programa de Sustentação do Investimento, criado na crise de 2009), que teve sua taxa de juros fixada em apenas 2,5%. A elevação desta taxa para 3,5% em 1º de janeiro foi um fator adicional de corrida ao banco no segundo semestre do ano passado. Outro fator extra de pedidos de financiamento originou-se de uma ação anticíclica que levou à criação do Programa de Financiamento dos Investimentos dos Estados (o Proinvest).

                          Ainda que se leve em consideração esses fatores, o aumento das intenções de contratação de financiamento foi muito expressivo e generalizado entre os setores da indústria e dos serviços, levando a um otimismo maior quanto a uma possível aceleração do investimento na economia brasileira no corrente ano. Vai na mesma direção o aumento das operações de financiamento para compra de bens de capital (Finame) nos últimos meses do ano. Os dados sugerem uma aceleração maior no segundo semestre. Reforça essa tendência a constatação de que há um nítido reforço da demanda de financiamento de grandes projetos junto ao BNDES, denotando que os setores mais intensivos em capital retornam com grandes programas de inversão.

                          São exemplos, os ramos de extração e derivados de petróleo (programas da Petrobrás); setor farmoquímico e farmacêutico; equipamento de informática, eletrônico e ótico; outros equipamentos de transporte; saneamento; eletricidade e gás; transporte aéreo; transporte aquaviário e telecomunicações. Grandes ausências são notadas no setor de veículos, para o qual a política industrial anunciou um regime todo especial (o Regime Automotivo).

                          Também se nota a ausência em ramos produtores de insumos fundamentais (como celulose e papel, metalurgia, química, minerais não metálicos) nos quais a política industrial resiste em atuar. Em insumos básicos o IEDI vem defendendo uma forte política orientada para o barateamento dos seus custos. Sendo a base de diversas outras cadeias produtivas, a redução de custos nesse caso aumentaria a competitividade não só dos ramos do próprio setor como em bens finais – bens de capital e bens de consumo – que, por isso, poderiam conviver com níveis menores de tarifas de importação, o que, por seu turno, colaboraria uma rodada à frente para o barateamento adicional do investimento e da produção realizada no país. Como o governo vem adotando uma política de desoneração tributária, poderia passar a eleger a área de insumos básicos como prioridade número um para este fim. Esta seria uma diretriz que do nosso ponto de vista teria maior abrangência e eficácia do que incentivar a compra de bens de consumo ou mesmo desonerar a folha de salários que, indubitavelmente, traz benefícios ao setor produtivo.

                          Para algumas interpretações, a ação do BNDES em 2012 tão somente deslocou financiamento de outras fontes. Contudo, a análise dos números de seu desempenho sugere que a atuação do banco de fomento foi além, concorrendo para que projetos antes engavetados estejam sendo revisitados pelos empresários.
                           

                           

                           

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